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Sexta-Feira 17.set.2021

Ano X - Nº 460

Coluna

Folclore político

Aqui todo mundo paga. Se não pagar de um jeito, paga de outro

Postado em 02 de Dezembro de 2020 - André Miguel Lucidi

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O folclore político brasileiro está cheio de estórias que nos, como cidadãos, podemos considerar absurdas, ou, nos deleitarmos com elas. Existem inúmeros livros editados sobre o tema, escritos por jornalistas com mais credibilidade do que eu, mas o fato e que essa estória não está escrita em nenhum compêndio nacional de causos da política. Ela aconteceu recentemente, em uma cidade do interior do interior. Não vou citar nomes, mas vou usar os apelidos dos envolvidos, para depois não passar por amigo deles. Afinal, como disse Judas Iscariotes, amigo é tudo na vida para quem está sem dinheiro e, a vida, vai indo meio aos trancos e barrancos. Obrigado, leitor amigo.

Deu-se o fato em um interior de um estado, em uma cidade daquelas que nem tem eleitores suficientes para atrair um candidato a deputado estadual. Ali foi eleito um prefeito que, digamos assim, tinha fama de ser macho pra caramba. A campanha dele foi feita em um dos poucos estabelecimentos comerciais do lugar, mais precisamente no cabaré, que ficava ao lado do único bar que servia uma cachaça razoável, com torresmo. Ficava perto também das dezesseis igrejas locais. Devidamente empossado, com festa que deu direito a desconto no bar e a pagar o dobro no cabaré, em seu primeiro dia de administração, sentou-se o prefeito em sua disputada cadeira, pois era a única da cidade favorável a um ronco, sem saber o que fazer para atrair renda para a cidade e tocar sua primeira obra, que ele nem sabia qual haveria de ser.

Foi ai que surgiu Tonhão da Ribalta, garçom do cabaré, pastor de uma das igrejas aos sábado e domingos e também vereador na sala do prefeito, junto com seu Zé do Bode e seu Caquinho dos Porcos, todos de sua base eleitoral, com um exemplar de um jornal da capital. O jornal dizia que Joe Biden havia ganho a eleição nos Estados Unidos, e que estava certo que iria nomear um transexual para seu governo.

O prefeito, primeiramente, parou para pensar o que diabos estavam aqueles cabras fazendo em sua sala já na segunda feira de manhã, horário sagrado de sua soneca da ressaca de domingo, com aquela conversa mole. Seu Tonhão, que era o mais hábil nas palavras, pois havia estudado até o terceiro ano do ginasial, argumentou algo irrefutável. Como iriam colocar a cidade no mapa das prefeituras, e fazer uma integração mundial com os Estados unidos, se eles nem tinham ninguém na cidade que também tivesse esse perfil para, ao menos futuramente, atrair turistas e, com eles, alguma prosperidade.

O Prefeito silenciou e fez aquela expressão facial de quem pensava, embora não fosse o forte dele. Seu Caquinho dos Porcos deu a solução. A cidade deveria ter ao menos um gay, para que então pudessem enviar um telegrama de parabenização à equipe de transição de Biden e se colocar ao inteiro dispor deles para o que necessitassem. Disse mais. Disse que cabia ao prefeito a incumbência de assumir esse posto, dando-se em sacrifício pelo bem da população. Mostrou, inclusive, um telegrama escrito pelo grupo de nobre vereadores, endereçado aos iunaited istaites em um inglês yes, no e hamburguer com fries tirado de uma revista, que só precisava da assinatura e do esforço do prefeito para selar o vínculo.

O prefeito deu um murro em sua mesa e falou que sua macheza não colocaria em jogo. Foi vencido pelo argumento de quanto dinheiro o carnaval na Bahia, do Rio de janeiro e a parada gay no país inteiro fazem movimentar. Macheza devidamente colocada com um preço e sem nenhum apreço pela causa, perguntou como ele deveria fazer para ser mundialmente reconhecido. Seu Tonhão disse que a melhor solução seria ele comparecer ao gabinete do governador Coronel Tibúrcio Epaminondas e sentar em seu colo, tirando uma foto simpática que pudessem enviar como identidade visual junto com o telegrama e também repercutir no estado e no pais.

O prefeito silenciou por minutos e resolveu que era melhor tomar logo a atitude, decisão a qual os presentes se puseram a ajudar. Um o maquiou e o outro o ajudou a colocar um vestido curto, pernas expostas e decote generoso, roupa de baixo dois números menor. Depois, pintaram suas unhas e pentearam seu cabelo de acordo com as últimas modas, deixando-o prontinho para a foto.

Prefeito pronto, foram no fusca da prefeitura até a capital, onde o prefeito invadiu o palácio do governador dando bordoadas na segurança, entrou na sala do governador e sentou em seu colo, sendo a imagem devidamente registrada por seu Caquinho dos Porcos e pelos mais de 40 jornalistas e fotógrafos presentes no palácio, que lá estavam para cobrir e divulgar as matérias de jornal inerentes ao estado. Saiu de lá preso e foi condenado a oito anos de prisão.

De volta à cidade natal, seu Caquinho dos Porcos foi escolhido em novas eleições o novo prefeito, enquanto seu Tonhão ostenta a foto do prefeito no bar do cabaré em um lugar que ninguém deixa de notar, com o seguinte dizer.

Aqui, a exemplo do governador, todo mundo paga. Se não pagar de um jeito, paga de outro.


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