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Sexta-Feira 03.dez.2021

Ano X - Nº 469

Coluna

A frutífera vida do cinejornal

O telejornalismo, o cinema documental e suas formas digitais devem ao pioneirismo de quem pensou a notícia para além dos jornais

Postado em 02 de Dezembro de 2020 - Clayton Sales

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Na tela, as informações mais quentes. Notícias de importância, registros do cotidiano. Um modo de se manter por dentro de acontecimentos destacáveis. Câmeras a postos nas ruas. Imagens exclusivas eclodindo aos olhos da audiência. A efervescência da realidade na dinâmica do mundo. Parece a descrição do jornalismo que consumimos diariamente pelas emissoras de televisão, mas durante cerca de sete décadas, esse tipo de produto audiovisual antecedia a filmes em cartaz nas salas de cinema. Uma espécie de trailer noticioso, em formato de curta-metragem. Pequenos documentários montados para exibição entre as sessões. É curioso imaginar a cena: o casal saboreando sua pipoca enquanto a grande tela exibe cenas de fatos políticos com narração imponente. Porém, na primeira metade do século 20, quando o rádio ainda estava em desenvolvimento e afirmação, e a televisão era um vislumbre ambicioso, o cinejornal, também chamado de newsreel ou doc, foi responsável por informar milhões de cinéfilos em vários países, principalmente da América do Norte, Europa e Oceania. Na Austrália, tiveram tanta força que um dos poucos longas-metragens ambientados nesse contexto nasceu no país. Intitulado "Newsfront" (1978), o drama de Phillip Noyce gira em torno de cinegrafistas de cinejornais dos anos 1940 e 1950. Era a notícia na grande dimensão do cinema. 

Partiu da companhia francesa dos irmãos Pathé, a ideia de elaborar filmagens da realidade organizadas em narrativa para transmiti-las antes das atrações principais dos cinemas, deixando frutos para a futura mídia jornalística de massa. Em 1908, bem antes do aparecimento da televisão, o cinejornal foi um ancestral do telejornal. No ano seguinte, Londres sediou a primeira sala a colocar apenas cinejornais na sua grade. Cerca de 20 anos depois, William Fox criou nos EUA uma rede de cinemas especializados em cinejornais, arquitetando o império que se consolidou com a chegada da TV aos lares americanos. Durante a 1ª Guerra Mundial, enquanto o rádio amadurecia como meio de comunicação, o cinejornal foi usado para disponibilizar notícias e propagandas sobre o conflito de acordo com as nações envolvidas. 

Com uma estrutura simples, os cinejornais eram constituídos basicamente de sequências de imagens captadas e montadas com uma locução monocórdica e, em alguns casos, com música de fundo. Apesar da rudimentaridade, a fórmula funcionava com o público e atendia a interesses dos chefões da mídia. Em "Cidadão Kane" (1941), há a famosa cena de um cinejornal fictício criado pela equipe real da RKO Pictures para o filme. Na tela, é exibido o curta-metragem "News on the March", sobre a vida do protagonista Charles Foster Kane, magnata da comunicação na trama. Essa representação expressa o valor do cinejornal para os apetites personalistas e políticos de figurões. 

Embora tenha experimentado o sucesso em países anglófonos e Europa, o cinejornal aportou em outras praças. Na antiga URSS, o mais notório foi o Kino-Pravda, série produzida nos anos 1920 com o ideário das repúblicas socialistas. O interessante era seu caráter "investigativo", buscando capturar cenas do dia a dia de trabalhadores em seus espaços laborais, muitas vezes com uso de câmera oculta. Na África, o cinejornal Kuxa Kanema iniciou uma rotina informativa de seus cidadãos e marcou o que seria o começo de uma indústria cinematográfica em Moçambique após sua independência nos anos 1970. No entanto, a instabilidade e a violência acabaram pulverizando esse esforço. A história é contada no documentário "Kuxa Kanema - O Nascimento do Cinema" (2003) de Margarida Cardoso. 

Na América Latina, houve cinejornais na Argentina, Cuba, Chile e Venezuela. No Brasil, o Cinejornal Brasileiro foi produzido pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) de Getúlio Vargas, obrigatório antes das exibições de filmes. A série de documentários abordava a política nacional sob a ótica do governo. Uma espécie de Voz do Brasil cinematográfica. O cinejornal nacional mais memorável foi o Canal 100, criado por Carlos Niemeyer em 1957. Seu conteúdo abrangia acontecimentos importantes com ênfase no futebol. Ele acompanhou eventos esportivos da seleção e dos maiores clubes com imagens em película e ângulos extraordinários dos jogadores, cobertos com um texto que inaugurou a crônica esportiva audiovisual no Brasil e consagrou a abertura instrumental de "Que bonito é", canção de Luiz Bandeira. Uma relíquia que embelezava os trailers com a arte da bola. 

No antigo Mato Grosso uno, cinejornais também foram parte das sessões cinematográficas. Segundo o editor de imagem Adão Mathias, que trabalhou em salas de Campo Grande (MS), a veiculação de docs era obrigatória, principalmente antes de obras estrangeiras, sempre com o certificado de autorização da censura oficial também exibido. Com isso, os curtas serviam de complemento nacional às sessões de cinema internacional, procurando valorizar conteúdos brasileiros. Os cinejornais transmitidos foram o Canal 100, o Atualidades Atlântida, produzido pela companhia carioca, e o Mato Grosso em Revista, com informações sobre o então Estado de Mato Grosso, incluindo localidades atualmente situadas em Mato Grosso do Sul. O cinejornal também respirou no interior do país.  

É fácil supor que a chegada da televisão desencadeou o gradativo declínio do cinejornal. Suas ideias para a produção de notícias em meio audiovisual foram absorvidas, mas o conforto do televisor dentro das casas atingiu em cheio seu prestígio. Além disso, os trailers com prévias dos filmes a serem lançados ganhavam relevância cada vez maior nas estratégias de divulgação das produtoras cinematográficas. Embora tenha se mantido com alguma constância até os anos 1980 em alguns países, esse formato é hoje mais associado ao passado histórico da sétima arte, que jamais deve ser esquecido. Afinal, o telejornalismo, o cinema documental e suas formas digitais devem ao pioneirismo de quem pensou a notícia para além dos jornais. E em um lugar que emprestava sua capacidade imersiva para levar às plateias em alguns minutos o curso imparável dos acontecimentos. E depois, aquele filminho para relaxar e se divertir.  


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