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Domingo 19.set.2021

Ano X - Nº 461

Coluna

Quando todas as escolhas se tornam fardos

Sair de casa ou não sair? Abrir ou não a porta? Comprar online ou esquecer o consumismo?

Postado em 25 de Novembro de 2020 - Theresa Hilcar

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Decisões são sempre um desafio. Para muitas pessoas, inclusive esta cronista, elas provocam profunda angústia. Desde as escolhas mais prosaicas, como o cardápio no restaurante, à arrumação da casa, o conserto da torneira enguiçada, até os fundamentais que envolvem, por exemplo, questões de saúde.

E assim como todo mundo, sou praticamente forçada a tomar muitas decisões todos os dias. No entanto, para a maioria das pessoas, a questão é absolutamente trivial. Para mim, no entanto, é uma batalha. 

Sair de casa ou não sair? Abrir ou não a porta? Comprar online ou esquecer o consumismo? Preciso ou não preciso disto ou daquilo? E tem as minúcias, diárias e extenuantes. Limpo a casa ou escrevo o texto? Apanho os objetos no chão ou deixo para depois? Arrumo a cama ou deixo-a respirar, como me recomendaram?

As perguntas não cessam, e provocam tamanho estresses que às vezes eu simplesmente desisto. Deixo tudo como está. Quando algum temporal se aproxima o cenário se acalma. Posso me aninhar na cama e assistir minha série favorita. A chuva me salva. E me livra das tarefas comezinhas, da necessidade premente de decidir. Ela é o álibi perfeito para inércia.

 O dia ensolarado, ao contrário, acirra meus ânimos, me obriga a ação, qualquer que seja. O céu azul provoca culpa, minha máxima culpa. Ando tonta pela casa tentando decidir o que é imperativo. Cozinhar ou não o almoço? Apenas uma salada ou uma refeição completa, cujas sobras ficam na geladeira dias a fio? Um desperdício, vamos combinar.

Em dias de desespero eu clamo. Peço à Deus um pouco de sossego para esta mente destrambelhada movida por sinapses e mecanismos que não entendo. O especialista diz que não há mágica possível, só controle. E controle é uma palavra que me incomoda. Tenho verdadeiro pavor de comandos e ordens de qualquer natureza. Sou anarquista desde que nasci. Possivelmente torta.

Descobri as tais falhas sinápticas quase no outono da vida. Porque é sempre assim quando se trata da mente. Afinal a cabeça... não é assim tão importante. Basta ocupá-la com coisas úteis que o resto se ajeita. Mas nada se ajeita quando os neurônios e as células têm o firme propósito de tirar você dos eixos. 

E só quem sente sabe o que é. Como escreveu a colega do grupo de apoio que, recentemente, me integrei. Fazemos um curso online para entender melhor os mecanismos do nosso cérebro. As reclamações são parecidas. Me dou conta que não estou sozinha neste tsunami de sentimentos e emoções.

Somos pessoas à flor da pele. Tudo é muito, tudo dói e parece não ter fim. No poço não existe fundo. Vivemos de vertigem em vertigem. Para quem está de fora, acompanhar se torna um fardo. Muitos desistem de nós ao longo do caminho. Vão nos deixando devagar, alegando impotência para lidar com nossas idiossincrasias.  A bem da verdade, eles só reconhecem a dor que sangra.

No centro da minha sala, a bicicleta ergométrica já faz parte do mobiliário. Todos os dias eu a olho e penso que não é hora. Está quente, está frio, tenho coisas a fazer, o ciático incomoda. Por fim admito que é muito chato. Sim, eu sei que é necessário. Mas o corpo, extenuado por experiências sem sucesso, recusa-se solenemente a cooperar. E a mente se irrita com eventuais insistências.

É isto que chamamos de depressão. Mas há, sim, quem chame de loucura, frescura, preguiça, fraqueza. Por isto há tantos de nós sem ajuda e sem qualquer aceno de empatia. “Só quem sente é que entende”. Mas é necessário falar.

Publicado originalmente no jornal Correio do Estado


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