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Quinta-Feira 11.ago.2022

Ano X - Nº 499

Coluna

Negritude e seu lugar de fala no cinema nacional

São fundamentais as iniciativas que apoiam a produção de segmentos historicamente sub-representados ou invisibilizados, tornando acessíveis sua visão sobre temáticas como racismo, violência, família, trabalho, abandono, educação, sexo, amor e desigualdade

Postado em 25 de Novembro de 2020 - Clayton Sales

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O amor entre Fernanda e Sueli era genuíno. A executiva e a ex-miss compartilhavam um sentimento belo e proibido. Para os padrões morais da sociedade brasileira, duas mulheres jamais poderiam se apaixonar. É emblemático essa trama sobre amor lésbico terminar em um tribunal. Sueli não suportou a pressão de sua família religiosa e cometeu suicídio. A dor de Fernanda em ver sua amada abreviar a própria vida se prolongou quando os pais de Sueli a acusaram de ser a responsável pela morte. Para piorar, parte do júri era tão preconceituosa quanto a família "cristã" de Sueli. No final, Fernanda é absolvida e deposita flores no túmulo da falecida. Em "Amor Maldito" (1984), o tribunal simboliza a estrutura social que submete pessoas ao juízo de valor. O que estava sob escrutínio não era a motivação da suicídio. Era o sentimento transgressor de regras impostas sobre o amor. O alívio aconteceu quando a sentença favorável à liberdade de Fernanda foi anunciada com o placar de cinco a dois. Porém, a saga judicial que a mulher foi obrigada a percorrer significa o caminho árduo de quem é julgado não por ações, mas apenas por ser quem é. Lésbicas sabem disso. 

Negras como a diretora mineira Adélia Sampaio sabem disso. Apesar de a trama ser ambientada na classe média branca, o filme expõe alegoricamente a prepotência de uma sociedade que se considera capaz de determinar se a natureza das pessoas é boa ou ruim. Durante a narrativa, era a natureza do amor de Fernanda no banco dos réus. Assim acontece com negros e negras. A cor da pele vira tácito e, às vezes, explícito argumento incriminador. Por isso, é simbólico que "Amor Maldito" tenha como realizadora a primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem de ficção no cinema brasileiro. Adélia Sampaio é filha de empregada doméstica e teve que dividir a produção de filmes com a criação dos filhos. Poucas oportunidades foram oferecidas. Ela participou de mais obras, como "Fugindo do Passado" (1987), que dirigiu, e "AI-5 - O Ano que não Existiu" (2004), como roteirista e diretora de arte. Com certeza, Adélia Sampaio abriu portas para muitas cineastas negras no país. 

Assim como o ator e diretor carioca Zózimo Bulbul. Ele estrelou e realizou diversos filmes entre os anos 1960 e 2000. Zózimo entrou para a história do audiovisual brasileiro ao interpretar o primeiro protagonista negro da teledramaturgia nacional, na novela "Vidas em Conflito" (1969) da TV Excelsior. Na produção, seu personagem é epicentro de algo considerado escandalizante para a classe média da época: namorar uma mulher branca. Parte da trama gira em torno dessa relação desafiadora. Zózimo Bulbul também atuou em clássicos como "Cinco Vezes Favela" (1962), marco do Cinema Novo, "Ganga Zumba" (1963), sobre o primeiro líder do Quilombo dos Palmares, e "Terra em Transe" (1967) de Glauber Rocha. Zózimo Bulbul também foi o criador do Centro Afrocarioca de Cinema, fundado em 2007, seis anos antes de sua morte. O objetivo da entidade é promover a cultura afro-brasileira por meio da produção cinematográfica e proporcionar a negros e negras conhecimento e caminhos para viabilizar suas obras audiovisuais. 

Algumas dessas produções figuram tanto em festivais e mostras voltados à produção de cineastas negros e negras quanto no catálogo de plataformas digitais voltadas a afrodescendentes. Uma delas é a TodesPlay, idealizada pela Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro, que agrega obras gratuitas e outras acessadas por meio de assinatura paga, cujos valores vão para manutenção do serviço. Outro espaço é o AfroFlix, streaming que disponibiliza conteúdos como filmes, séries, documentários, videoclipes e vlogs que tenham participação de negros e negras em qualquer etapa do processo de produção. A negritude encontra no digital um virtuoso local para expressar seu olhar sobre a sociedade, a humanidade e sobre si mesma. 

Segunda a filósofa e escritora Djamila Ribeiro, lugar de fala é a perspectiva sobre a realidade a partir de quem percebe problemas ou fenômenos de dentro dela. Isso não impede pessoas não negras de criarem teorias ou artes sobre a negritude. Cacá Diegues dirigiu "Ganga Zumba" e "Quilombo" (1984), trabalhos magníficos sobre Palmares. Além disso, o conceito jamais rejeitou a ideia de afrodescendentes desenvolverem trabalhos que não abordam tópicos estritamente raciais. "Amor Maldito" é um exemplo. No entanto, o lugar de fala mostra como o "sentir na pele" infuencia a maneira como a narrativa sobre uma conjuntura é desenvolvida.

O curta-metragem "As Invenções de Akins" (2018), produção sul-mato-grossense de Ulísver Silva, inspirada em sua própria vida, conta a história de um menino de família simples, criado pela mãe solo, que imagina seus próprios brinquedos, apesar da ausência do pai. O curta-metragam mistura aventura, humor e drama para representar o cotidiano de várias crianças, principalmente, crianças negras como foi o jovem cineasta. Por isso, são fundamentais as iniciativas que apoiam a produção de segmentos historicamente sub-representados ou invisibilizados, tornando acessíveis sua visão sobre temáticas como racismo, violência, família, trabalho, abandono, educação, sexo, amor e desigualdade. O olhar de quem integra o dia a dia dessas questões, com a força do cinema, quem sabe, contribuindo para quebrar estereótipos e alimentar uma convivência autenticamente fraterna. 


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