Semana On

Domingo 25.jul.2021

Ano IX - Nº 453

Entrevista

Greta Thunberg: ‘Saia às ruas. Torne-se ativista’

Crise climática não é prioridade porque não é tratada como crise, afirma

Postado em 23 de Novembro de 2020 - Leonardo Sakamoto - UOL

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Eleita a Personalidade do Ano pela revista Time, em 2019, e cotada para o Prêmio Nobel da Paz, Greta Thunberg, de 17 anos, se tornou um dos principais nomes da luta contra as mudanças climáticas. A ativista sueca concedeu esta entrevista exclusiva ao jornalista Leonardo Sakamoto, do UOL.

Há dois anos, ela começou um protesto solitário na frente do parlamento da Suécia com uma placa que dizia "Greve escolar pelo clima". Outros jovens foram se juntando a ela até se tornarem uma multidão. Com o tempo, os protestos deram origem ao movimento "Fridays for Future" (Sextas-feiras pelo Futuro), que mobilizou milhões de estudantes em dezenas de países.

"Uma pessoa inesperada pode causar a maior diferença. Você não precisa ser a mais barulhenta, a mais poderosa, a mais rica ou a mais privilegiada para mudar o mundo. Qualquer um pode mudar o mundo", afirmou. Nunca devemos ser desencorajados disso, nunca devemos subestimar o poder da voz de uma pessoa."

Greta avalia que a chegada de Joe Biden à Presidência dos Estados Unidos será uma diferença imensa em comparação à Donald Trump, mas que é necessário esperar para ver se seu governo levará realmente a alguma mudança.

Chamada de "pirralha" pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), no ano passado, ela disse que esse comportamento mostra que o trabalho dela está tendo impacto, o que pode representar uma ameaça. E disse que, ao menos na Suécia, a posição geral das pessoas é de que o Brasil é um vilão do clima.

Deixou um recado: "Use sua voz em uma democracia para levar a opinião pública a votar em autoridades eleitas que respeitem esse assunto e que pressionem as pessoas no poder". E concluiu: "Saia às ruas. Torne-se ativista".

 

Quanto tempo a humanidade tem para evitar uma catástrofe?

Bem, depende de como você define uma catástrofe. De certa forma, várias catástrofes já aconteceram. Mas não há um ponto no qual tudo está perdido ou no qual não reste mais nada a ser feito. Logo, essa não é uma pergunta que possa ser respondida, não há uma resposta científica para essa pergunta. Mas acho que não devemos ficar satisfeitos com isso. Sempre podemos evitar que as coisas piorem, sempre podemos lutar para evitar que a temperatura suba mais um grau ou mais um décimo de grau.

Por que o perigo real da mudança climática é tão difícil de ser comunicado para parte da população? A tragédia da covid-19 movimentou governos e pessoas por todo o mundo.

Para começar, não deveríamos comparar essas duas crises, pois não se deve fazer isso. Quer dizer, há uma explicação simples para a mudança climática ser tão difícil de ser comunicada. A razão de as pessoas parecerem não compreender a mudança climática é porque ela nunca, nem mesmo uma vez, foi tratada como uma crise, e não é possível comunicar uma crise sem de fato tratá-la como uma crise. Se não é tratada como uma emergência, então as pessoas não entenderão. E como a mudança climática é um assunto complexo, é incrivelmente complicado, é muito difícil de comunicar.

Os Estados Unidos elegeram recentemente Joe Biden, cujo mote de campanha era "reconstruir melhor" e também prometia que a mudança climática estaria no centro de seu mandato. Trata-se de uma mudança no jogo? Como a situação difere agora em comparação ao momento em que você começou?

É claro que pode ser uma mudança enorme. Agora veremos se ele cumprirá o que prometeu, de ouvir a ciência. É uma diferença imensa em comparação a como Trump agia. Acho que podemos dizer com segurança isso, mas teremos que esperar para ver o que acontecerá e se isso levará a alguma mudança. É claro que isso não levará nem mesmo para perto de onde precisaríamos estar, porque não chegaremos lá a menos que comecemos a tratar a crise como sendo uma crise. Mas pode com certeza ser um grande passo na direção certa e levando a outras coisas, que podem gerar feedbacks e ações de reforço.

Por exemplo, o que ele precisa fazer para não ficar apenas na promessa?

Não cabe a mim dizer. Tudo que digo para ele e para todas as pessoas é para tratarem a crise climática como uma crise e darem ouvidos à ciência.

Estudos recentes mostram que o derretimento do permafrost, o solo congelado na região ártica, já é inevitável devido à mudança climática. Esse tipo de descoberta pode levar à paralisia e desesperança?

Sim, creio que poderia, mas é claro que não levará, pois não está sendo comunicado. Minha ideia de esperança não é fazer você sentir que tudo ficará bem, que não precisamos fazer nada. Minha ideia de esperança é ter motivação suficiente para levantar e continuar lutando mesmo que as chances estejam contra você. Nesse sentido, não, porque isso apenas nos dá mais motivação para agir - ao menos para mim.

Você expressou seu descontentamento com as palavras vazias de políticos, que fingem levar nosso futuro a sério, mas não adotam ações que realmente reduzam as emissões de carbono. Enquanto isso, há alguns líderes mundiais que simplesmente dizem que a mudança climática é fake news e que o crescimento econômico é mais importante. Como podemos confrontar os discursos negacionistas?

Essas alegações não devem ser levadas a sério. Eles apenas inventam suas próprias alegações. Precisamos basear nossa discussão em evidências científicas e fatos. Mas não devemos levá-los a sério. Não são mais os negacionistas do clima, os negacionistas da crise climática, que são nosso maior problema no momento, mas sim aqueles que estão tentando distrair e diminuir a crise climática. Os que dizem que ela não é tão importante e tentam constantemente nos distrair focando em outros assuntos. Os negacionistas da crise climática não estão mais sendo levados a sério.

https://www.youtube.com/embed/Mv-9n12J7uc

Alguns consideram você uma alarmista. Donald Trump até sugeriu "terapia para controle de raiva" para você. Elas dizem que incitar pânico entre o público não gera engajamento, e que a melhor comunicação seria por meio de soluções ou uma agenda positiva. O que você pensa a respeito?

Sim, essa é uma abordagem muito, muito engraçada. Tudo o que faço é comunicar a ciência e dizer: este é o ponto em que estamos. Comunicar soluções e apresentar uma mensagem positiva é algo que já estamos fazendo há várias décadas e não nos levou a lugar nenhum. Não estou dizendo que meu método está funcionando, mas precisamos tentar táticas diferentes, porque estamos em um momento em que não podemos escolher ou discutir que método é mais útil, mais eficaz, porque temos que tentar de tudo agora. E não, não estou espalhando pânico ou medo. É muito engraçado que as pessoas pensam que os jovens estão deprimidos ou em pânico. É claro que não estamos, nós estamos apenas tentando, nós tentamos de tudo para fazer com que vocês acordem e esta parece ser a forma mais eficaz de despertar as pessoas.

Falando sobre medidas eficazes, quais são os indicadores de sucesso, que mostrariam que estamos indo na direção certa, que você gostaria de ver na política global de agora até a 26ª Conferência do Clima das Nações Unidas, em Glasgow, no ano que vem?

Eu gostaria de ver uma mudança na narrativa. Não chegaremos a lugar nenhum, não conseguiremos as mudanças que são necessárias para atingir as metas com as quais nos comprometemos se não mudarmos a narrativa. Atualmente a crise climática está sendo tratada apenas como um assunto político, entre outros assuntos importantes. A menos que seja tratada como uma crise existencial, não seremos capazes de resolvê-la. Como está agora, podemos ter quantas negociações e conferências climáticas que quisermos, mas isso não nos levará a lugar nenhum. Se não entendermos a crise em si, não seremos capazes de resolvê-la.

Em 2030, você então terá 28 anos e saberemos se conseguimos ou não cumprir a meta do Acordo de Paris de manter a elevação da temperatura em apenas 1,5º Celsius. Em caso afirmativo, qual você acha que terá sido a principal transformação promovida em todo o mundo para conseguir isso?

Como eu disse, acho que o principal método ou principal mudança que temos que promover para atingir a meta é nossa mentalidade. Essa é a maior mudança que temos que fazer.

Você disse que Rosa Parks a inspirou. Ela se recusou a entregar seu assento no ônibus para um homem branco nos Estados Unidos, em 1955, sendo presa por desrespeito às leis locais de segregação, que obrigavam os negros a cederem assentos para os brancos, provocando protestos e boicotes que levaram à mudança. Que lições você aprendeu com o ativismo dela?

Que qualquer um pode fazer a diferença. Que a pessoa inesperada pode causar a maior diferença. Você não precisa ser a mais barulhenta, a mais poderosa, a mais rica ou a mais privilegiada para mudar o mundo. Qualquer um pode mudar o mundo. Nunca devemos ser desencorajados disso, nunca devemos subestimar o poder da voz de uma pessoa.

Por falar do poder da voz de uma pessoa e os resultados disso, o movimento que você criou, "Sextas-feiras pelo Futuro", se tornou uma ampla e grande mobilização global, levando milhões às ruas em setembro de 2019. E agora ele parece fazer parte do cenário. O movimento perdeu força ou a pandemia atrapalhou?

Para começar, não criei o movimento, todos são igualmente responsáveis pela ascensão desse movimento. Mas, é claro, durante a pandemia global, durante uma crise como essa, todas as outras questões são colocadas de lado, isso não é exclusividade do clima. Creio que há uma narrativa muito estranha sendo comunicada de que clima tem que ser deixado de lado. É claro, toda questão precisa ser deixada de lado, porque essa é a forma como se deve agir em uma crise. Você coloca todas as coisas de lado e se concentra na coisa mais urgente do momento. Logo, sim.

Isso nos leva a falar de novo sobre os líderes mundiais. Com o fim da era Trump e a chegada da presidência de Biden, há a expectativa de o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, passar a ser visto como o fora da lei número um do clima. Como o Brasil tem sido visto mundialmente?

Bem, posso dizer que, ao menos aqui na Suécia, nós vemos o Brasil e o governo Bolsonaro como verdadeiros vilões do clima. Não sou eu quem está dizendo, é apenas a posição geral que as pessoas parecem ter aqui.

Você acha que esse tipo de percepção terá um impacto econômico para o Brasil, caso o Brasil não mude seu comportamento?

Pode com certeza, pode ter consequências econômicas e políticas negativas. Especialmente agora que Trump será removido. Como você disse, o Brasil agora será ainda mais do que antes visto como um fora da lei climático.

A propósito, Jair Bolsonaro chamou você, no ano passado, de "pirralha". Por que acha que seu ativismo provocou tal reação do presidente do Brasil?

Porque eles veem que você está tendo realmente um impacto e está mudando algo, está mudando, talvez, o discurso público e os debates, o que representa uma ameaça aos seus interesses, ou ao que quer que seja. Então acho que é um sinal de que as pessoas estão ficando desesperadas. Elas precisam simplesmente silenciar as pessoas que estão se manifestando.

Naomi Klein escreveu um artigo famoso sobre você dizendo que por estar no espectro do autismo, por ter Síndrome de Asperger, isso a torna aparentemente imune à autodecepção e a formas de negação que atingem mesmo aqueles que conhecem profundamente a mudança climática. Você concorda com isso?

Sim, acho que para pessoas com vários diagnósticos, seja autismo ou TDAH [Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade] ou qualquer outro, é mais fácil, para nós, ver a crise climática da forma como deve ser vista, da forma que é. Pois não participamos igualmente do jogo social pelo qual todos os outros parecem ter apreço. Assim nós, sim, somos um pouco diferentes, trabalhamos de forma diferente. Isso, neste caso, é uma vantagem, pois vemos o mundo de uma forma diferente.

Como a sua experiência pessoal pode ser uma lição para as pessoas se preocuparem com essa questão?

Acho que precisamos pensar um pouco fora da caixa e ver o mundo de uma perspectiva diferente. Nem sempre ver o mundo pela nossa perspectiva, mas por uma perspectiva mais ampla, por uma perspectiva maior, tanto historicamente quanto pela perspectiva das gerações futuras, assim como a das pessoas que vivem nas áreas mais afetadas. Nós precisamos mudar a forma como vemos a crise climática. Fundamentalmente, se não chegarmos a um acordo a respeito da forma como vemos o mundo e da forma como percebemos o mundo, não conseguiremos realizar as mudanças que são necessárias. Para que nós possamos entender plenamente a crise climática precisamos reconhecer que somos nós que a causamos. Isso significa termos que admitir nosso fracasso comum, e isso é algo que as pessoas não querem fazer, pois isso vai completamente contra nossa visão de mundo, na qual tudo precisa ser contado como uma história de sucesso. Precisamos mudar a forma como vemos a crise climática.

Sei que você não gosta de falar de sua vida pessoal, você prefere falar da sua luta, mas em um período curto de tempo, você foi escolhida como a Pessoa do Ano pela revista Time, foi indicada ao Prêmio Nobel, fez grandes discursos nas Nações Unidas, falou com líderes mundiais sobre o que estão fazendo em relação ao futuro. O que mudou em sua vida, em sua luta, após conseguir tamanha visibilidade?

De certa forma, tudo mudou. Eu não consigo ter a mesma vida que tinha antes. Mas também, de certa forma, nada mudou. Eu ainda sou basicamente a mesma pessoa que era antes. Quero dizer, sei que esta atenção em breve desaparecerá, porque deixarei de ser interessante. Então estou apenas tentando fazer uso disso, desta plataforma que tenho agora. Enquanto algumas pessoas, por algum motivo, estão dando ouvidos ao que tenho a dizer, eu utilizo meus canais para disseminar a conscientização e comunicar a crise climática.

O movimento "Sextas pelo Futuro" começou com uma greve estudantil, sua greve e a greve de muitos. Como a educação serve aos jovens hoje? Que caminho deveria ser trilhado pelas escolas para atender às necessidades dos alunos?

Bem, não se trata de um problema envolvendo escolas, apesar de elas serem uma grande parte disso. Mas, de modo geral, precisamos de educação e precisamos disseminar a conscientização e disseminar a informação. E não apenas entre os jovens, apesar de isso também ser muito importante, mas talvez, e especialmente, entre os adultos, porque há uma enorme falta de conscientização em relação ao clima e à crise ambiental hoje. Isso é algo que vai muito mais fundo que apenas nossos sistemas escolares.

Os povos indígenas são responsáveis pela preservação de imensas áreas florestais em meu país. Mas eles são afetados por projetos de engenharia e mineração e têm sido vítimas de perseguição e assassinato em conflitos de terras. É possível ser sustentável em um país em desenvolvimento em que grande parte da população e do governo não acredita nisso?

É claro que não. Não é possível ser sustentável sem respeitar os direitos de todos e, sem colocar solidariedade e igualdade à frente com muito foco. Se não tratar as pessoas com respeito e da forma como as pessoas precisam ser tratadas, não é possível viver de forma sustentável. Não dá para ser sustentável. O que está acontecendo agora no Brasil e em muitos outros lugares é uma desgraça, a forma como as pessoas estão sendo tratadas. Não dá para realmente dizer mais nada a respeito dessa desgraça, a não ser que ela precisa mudar drasticamente se quisermos ter alguma chance de permanecer abaixo da meta de sonho de 1,5º C, porque não é possível ter justiça climática sem ter justiça social ou justiça indígena. E também porque os povos indígenas por todo o mundo são um recurso muito crucial para o enfrentamento da crise climática e ambiental. Não podemos fazê-lo sem eles.

E falando sobre participação, que mensagem você enviaria aos brasileiros que estão preocupados com a mudança climáticas e com o futuro do planeta?

Eu diria que suas preocupações são justificadas, mas há muitas coisas que vocês podem fazer a respeito. Se você deseja parar de se sentir preocupado ou desesperado, então há uma forma muito simples de não se sentir mais dessa forma, que é agir. Essa é a forma como eu faço e como eu me livro das minhas preocupações. Se você fizer tudo o que puder, você não terá tempo para se preocupar, ou se sentir triste, ou com medo ou qualquer coisa. Você faz o que pode.

E o que é possível a um cidadão comum fazer para mudar a situação?

Há coisas ilimitadas que você pode fazer. Um exemplo é sair às ruas ou se juntar a movimentos. Use sua voz em uma democracia para levar a opinião pública a votar em autoridades que respeitem esse assunto e que pressionem as pessoas no poder. Especialmente, eduque-se, conscientize os outros, espalhe informação, fale com as pessoas a respeito disso e coloque isso no centro da atenção das pessoas. E então, é claro, há muitas coisas que você pode fazer em sua vida cotidiana para tornar seus hábitos mais sustentáveis. Mas sim, saia às ruas. Torne-se ativista.


Voltar


Comente sobre essa publicação...