Semana On

Quinta-Feira 05.ago.2021

Ano IX - Nº 454

Poder

Sob Biden, alinhamento do Brasil aos EUA dará lugar a relação mais fria

Ernesto Araújo faz a pior política externa que o Brasil já teve

Postado em 13 de Novembro de 2020 - Bruno Lupion (DW), Afonso Benites (El País), Míriam Leitão (O Globo) – Edição Semana On

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"Eu te amo", disse Jair Bolsonaro a Donald Trump em setembro de 2019, em Nova York, para receber de volta um "é bom revê-lo". O diálogo ocorreu na Assembleia Geral da ONU, quando o presidente brasileiro se empenhava em se aproximar do americano oferecendo concessões sem receber contrapartidas objetivas.

A estratégia de Bolsonaro na política externa com os Estados Unidos, definida por alguns analistas como "alinhamento automático", não tem precedentes na história da diplomacia brasileira. E, com a vitória do democrata Joe Biden, cobrará seu preço: esfriamento na relação bilateral com a nação mais rica do mundo e maior isolamento de Brasília no cenário internacional, segundo especialistas.

A vitória de Biden, porém, não deve num primeiro momento trazer grandes prejuízos econômicos ao Brasil e tende a resguardar cooperações nas áreas de comércio e investimentos já em andamento, dado o pragmatismo do presidente americano eleito.

Nas últimas semanas, Bolsonaro e seu entorno manifestaram por diversas vezes apoio a Trump. No início de novembro, o presidente brasileiro disse à CNN Brasil estar confiante na reeleição. Antes, em 20 de outubro, ele havia declarado que esperava comparecer à posse do republicano: "Espero, se essa for a vontade de Deus, comparecer à posse do presidente brevemente reeleito nos EUA. Não podia esconder isso. Não interfiro, é do coração”.

Um dia depois, Carlos Bolsonaro, filho do presidente e vereador pelo Rio de Janeiro, divulgou no seu Twitter uma foto se ajoelhando, usando boné com a bandeira dos Estados Unidos e portando um fuzil, com a mensagem "'MERICA #freedom". A exibição de armas de fogo é uma marca dos apoiadores mais radicais de Trump.

Além do presidente, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, era outro apoiador do americano. Em 2017, antes de virar chanceler, ele escreveu num artigo que Trump poderia "salvar o Ocidente". No cargo, evitou confrontar a Casa Branca mesmo quando havia interesses brasileiros em jogo, como quando o governo americano estabeleceu restrições à importação de aço do Brasil ou derrubou a candidatura de um brasileiro ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

A relação bilateral Brasil-EUA

Os dois países têm um histórico de proximidade diplomática que começa já em 1822, quando os Estados Unidos foram a primeira nação a reconhecer a independência do Brasil. Sob Bolsonaro, porém, a natureza e a intensidade desse alinhamento foram inéditas, afirma Fernanda Magnotta, senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP.

Uma das novidades da política externa bolsonarista foi incorporar um forte teor "ideológico e identitário" à aliança com os americanos, jogando por terra algumas tradições da diplomacia brasileira. "Não se tratou de olhar para os Estados Unidos como um parceiro prioritário e aliado necessário, mas como fonte de um exemplo ou modelo que a gente deveria mimetizar abaixo da linha do Equador."

Além desse componente identitário, o governo Bolsonaro optou por permitir avanços dos interesses americanos em pautas diversas, como comércio, defesa e energia, em troca de buscar o comprometimento da Casa Branca com temas mais complexos e de menor impacto imediato, como o processo para o Brasil se tornar um membro da Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCDE), ainda incerto e sem prazo para ser concluído.

"Embora esses assuntos não sejam uma novidade, o jeito de negociar mudou. O Brasil se tornou mais permissivo, e os americanos, que têm sido mais duros ao estabelecer as barganhas, usaram uma estratégia conhecida como 'issue linked', uma barganha condicionada: 'Se vocês [Brasil] toparem fazer tal coisa, talvez nós apoiemos vocês nessa terceira coisa.'" O problema desse tipo de negociação, explica Magnotta, é que o Brasil acabou cedendo em diversas demandas estratégicas, obtendo de volta apenas promessas retóricas.

Em junho último, por exemplo, o Palácio do Planalto desistiu de indicar o brasileiro Rodrigo Xavier ao cargo do presidente do BID, tradicionalmente ocupado por um latino-americano, para apoiar o nome do americano Mauricio Claver-Carone, que acabou efetivado.

Em setembro, o governo brasileiro zerou o imposto de importação sobre 187,5 milhões de litros de etanol americano, pelo prazo de 90 dias, num gesto para agradar a Casa Branca e contra os interesses da bancada do agronegócio brasileiro. O Planalto também não reagiu a decisões dos EUA para restringir a importação do aço brasileiro.

"Se olharmos para os números do comércio, o Brasil não está usufruindo dessa aproximação. Nunca tivemos uma balança comercial com os Estados Unidos tão desequilibrada como a que temos agora. Essa aproximação valoriza muito mais elementos retóricos, que energizam algumas bases políticas, do que interesses estratégicos”, diz Magnotta. "Isso nos faz lembrar aquela frase clássica de que países têm interesses, não amigos. Quando o governo Trump tinha interesse em escantear o Brasil, o fez sem pensar duas vezes".

De janeiro a setembro de 2020, o Brasil registrou um déficit na balança comercial com os Estados Unidos de 3,1 bilhões de dólares, contra um déficit de 374 milhões de dólares em todo o 2019, e de 271 milhões de dólares no ano anterior, segundo dados do Ministério da Economia.

Dawisson Belém Lopes, professor de política internacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), cita que Brasil e Estados Unidos também foram muito próximos em outros três momentos históricos, mas sempre acompanhado de uma pretensão dos brasileiros em auferir algo concreto. Após a Segunda Guerra Mundial, havia a expectativa de o Brasil se beneficiar de um tipo de Plano Marshall para a América do Sul, durante a ditadura buscou-se o estreitamento da cooperação militar, e no governo Fernando Collor, aproveitar a promessa de crescimento econômico durante a ascensão do neoliberalismo.

Com Bolsonaro, Lopes afirma que o alinhamento ocorreu sem a expectativa de reciprocidade, e se baseou muito mais numa relação entre pessoas do que entre países. "O grau de assimetria e desinstitucionalização é inédito", afirma.

Enquanto se sintonizava ao presidente dos Estados Unidos, Bolsonaro foi "queimando pontes" com países da Europa, com seus vizinhos da América Latina e com a China. À medida que Trump sair de cena e Biden buscar o realinhamento com a Europa, o Brasil tende a ficar mais isolado, avalia o professor da UFMG.

A relação entre os dois países nos próximos anos pode vir a lembrar o período em que Jimmy Carter era presidente dos EUA, de 1977 a 1981, compara Lopes. Nessa época, o governo ditatorial brasileiro, sob o comando dos militares, perdeu margem de manobra na arena internacional e "havia hostilidade da Casa Branca aos regimes que desrespeitavam os direitos humanos".

Pragmatismo evita prejuízo maior

Apesar do isolamento maior do Brasil, a vitória de Biden, conhecido por ser pragmático, não deve em si gerar consequências econômicas graves para o país, pois seu governo vai priorizar a agenda interna, em meio à pandemia de covid-19 e a recuperação econômica. Lopes aposta na manutenção da cooperação em áreas como investimento e comércio, ressalvadas possíveis sanções em produtos ligados ao agronegócio, caso o Palácio do Planalto não demonstre empenho em combater o desmatamento e as queimadas.

Magnotta, do Cebri, tampouco projeta uma grande ruptura entre os dois países, mas uma reorientação, pois haverá forças e interesses comerciais se mobilizando para evitar perdas significativas. Do lado brasileiro, isso pode passar pela readequação das frentes de contato no Itamaraty com os Estados Unidos, já que Araújo é muito associado ao trumpismo, e a um incremento na pressão para que o governo tenha um olhar mais atento a pautas ambientais e sociais – tema sensível para os democratas e para a plataforma de Biden.

"Não é só uma questão moral, mas de competitividade no ambiente de negócios. Se o Brasil não atentar a esse tipo de pauta, ficará isolado. O Trump dava alguma abertura para o Brasil pensar diferente. Mas, com o alinhamento entre europeus e americanos, será difícil seguirmos da mesma forma", diz.

Uma oportunidade para o Palácio do Planalto, seria aproveitar que Biden deverá dar continuidade à política de guerra comercial com a China, e buscar obter vantagens para o Brasil dessa disputa entre as duas potências.

Ela também vê um impacto simbólico da eleição de Biden que pode vir a afetar a tentativa de reeleição de Bolsonaro em 2022. "Tudo o que acontece nos Estados Unidos, sobretudo na política, repercute como ondas que chegam atrasadas no mundo e geram ciclos de legitimação. Assim como a vitória de Trump em 2016 gerou lideranças análogas em outros lugares, talvez uma derrota em 2020 possa também fortalecer grupos de oposição e empurrar mais para o canto da cena política as figuras populistas", estima Fernanda Magnotta.

Quem planta, colhe

Quase uma semana após os Estados Unidos decidirem quem será o seu presidente a partir de janeiro de 2021, o mandatário brasileiro Jair Bolsonaro segue sem cumprimentar o vencedor Joe Biden. O que era uma diplomacia do silêncio a favor do derrotado Donald Trump tornou-se uma espécie de antidiplomacia com a maior potência mundial.

Bolsonaro ameaçou usar armas contra a maior potência militar mundial para, em seu entendimento, proteger a Amazônia. A declaração feita nesta semana – “quando acaba a saliva, tem que ter pólvora” – espantou diplomatas que trabalham em Brasília. Para quatro deles ouvidos pela reportagem, a fala demonstra que o presidente está ignorando os gestos de aproximação feito por seu vice, o general Hamilton Mourão, que tenta garantir uma relação mais cordial e plural com diversos países. Nesta sexta, Mourão disse em entrevista à Rádio Gaúcha que “como indivíduo” reconhecia que a vitória de Biden nas eleições “está cada vez mais irreversível”.

Mourão comandou uma comitiva de embaixadores europeus em viagem à Amazônia na semana passada, na qual ele tentou demonstrar que o governo estaria agindo no enfrentamento ao desmatamento e aos incêndios florestais ilegais. Quando retornou a Brasília, na segunda, 9, disse a jornalistas que o presidente se pronunciaria quando os votos dos americanos fossem todos contados. Foi desautorizado por Bolsonaro, que disse não estar tratando sobre nenhum assunto com o vice. Mas a pressão ao seu redor aumenta, depois de Biden ser confirmado vencedor no Estado do Arizona, nesta quinta, o que fez a China reconhecer a vitória do democrata, isolando ainda mais o gesto do presidente brasileiro.

A primeira reação aos discursos oficiais pode vir já do governo Biden, que pretende criar uma lista de países “criminosos do clima”, na qual um dos primeiros alvos poderia ser o Brasil. O objetivo é forçar os governos a se empenharem a cumprir a meta do acordo de Paris de impedir um aumento da temperatura global acima de 2ºC. As informações foram reveladas pelo site Vox. Biden pretende renovar os compromissos dos Estados Unidos com acordo climático de Paris, do qual Trump o retirou. Neste contexto, o Brasil tem sido visto como uma espécie de vilão ambiental, que pouco age para impedir desmatamentos ou incêndios na Amazônia e no Pantanal. Ao contrário, enfraquece os mecanismos de fiscalização e de punição aos responsáveis pelos crimes.

Dois dos diplomatas que acompanharam o grupo na viagem à Amazônia relataram que parece haver dois governos distintos: o dos discursos radicais de Bolsonaro e de seu chanceler Ernesto Araújo e o de Mourão, que busca constante aproximação. “O diálogo [com Mourão] flui bem, mas na prática não vemos nada muito efetivo ocorrendo”, disse um deles à reportagem.

E, mesmo sendo desautorizado pelo presidente, o vice segue o defendendo. Nesta quinta-feira, disse a jornalistas que Bolsonaro usou uma “figura de retórica” ao usar o termo pólvora. O próprio Bolsonaro relatou a interlocutores em conversas reservadas, que “exagerou”, mas não se desculpou ou se explicou publicamente.

Para o cientista político da consultoria Dharma, Creomar de Souza, há uma espécie de desconforto simbólico para Bolsonaro, que não consegue sustentar a política externa conservadora. “As declarações do presidente têm mais impacto para público interno do que sobre a política externa como um todo”, disse. Mas até entre seus apoiadores, Bolsonaro sofreu críticas. Em três grupos do WhatsApp que são monitorados pela reportagem houve quem reclamasse da fala do presidente sobre usar a pólvora para enfrentar os EUA. Após apresentar um meme em que, meia hora depois de iniciar um confronto bélico, o Brasil já era rebatizado de “South Hawaii”, membros do grupo disseram que o presidente deveria estar “surtando” para confrontar os americanos ou que ele deveria “ficar calado para não dar munição à esquerda”, que lhe faz oposição.

Nesse contexto, para evitar embates, o presidente já foi aconselhado a trocar seus ministros de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e do Meio Ambiente, Ricardo Salles. A ideia era fazer uma sinalização positiva aos Estados Unidos, o segundo maior parceiro comercial do Brasil. Até o momento, contudo, o presidente tem sustentado ambos e respaldado os atos de Araújo.

Na sua conta, o mandatário tenta creditar atos que não foram necessariamente seus, mas de burocratas que negociam há anos alguns tratados como o acordo Mercosul União Europeia ou o Acordo de Comércio e Cooperação Econômica (ATEC, na sigla em inglês). Entre outras medidas, esse compromisso prevê a facilitação do comércio e o combate à corrupção. Ainda assim, seu andamento depende da boa vontade do presidente eleito nos EUA. “Como ele não é um acordo tarifário, você deixa vários setores da economia brasileira vulneráveis às políticas públicas que o novo Governo venha a decidir e que o próprio Trump utilizou, como quando ele sobretaxou o aço que comprava do Brasil”, disse Souza.

Ainda na seara econômica, outro ponto que está em jogo é a interferência dos EUA no leilão do 5G. Nesta semana, o Governo brasileiro endossou a iniciativa americana sobre o 5G e sinalizou que pode banir a empresa chinesa Huawei do leilão da banda larga de última geração que ocorrerá em 2021. O gesto ocorreu em na reunião entre o chanceler Araújo e o secretário para Crescimento Econômico, Energia e Meio Ambiente do Departamento de Estado dos EUA, Keith Krach. Na ocasião, o chanceler concordou em apoiar os princípios da Clean Network, que é uma iniciativa para frear as empresas chinesas do setor de telecomunicações, como a Huawei. O Brasil foi o primeiro país da América Latina a demonstrar que aceitará esse veto.

Em conversas com investidores brasileiros, Krach relatou que, independentemente de quem governar os EUA, essa pressão sobre o 5G permanecerá. Segundo ele relatou, esse é um tema bipartidário em uma briga geopolítica entre as duas maiores potências mundiais.

Para o presidente da Federação dos Interestadual dos Trabalhadores e Pesquisadores em Serviços de Telecomunicações, João de Moura Neto, falta visão estratégica ao Brasil ao se aliar automaticamente nessa pauta aos Estados Unidos. “É ignorar que a maior parte dos equipamentos de comunicações no Brasil hoje já é da Huawei. O que farão com eles?”, questionou. Na visão de Neto, há o risco de haver uma demissão em massa de trabalhadores e aumentar os preços dos equipamentos em até cinco vezes, como ocorreu em alguns Estados americanos que viram reduzir a quantidade de fornecedores.

O leilão, contudo, deverá ocorrer apenas no segundo semestre do ano que vem. Até lá, Bolsonaro irá tatear o território para saber se segue esse alinhamento com os americanos ou se radicaliza de vez a estratégia, dando espaço para se tornar, de fato, um pária internacional.

A pior política externa de todos os tempos

O despreparo da política externa brasileira ficou ainda mais evidente em três atos. Bolsonaro fez birra e ficou adiando o cumprimento ao presidente eleito Joe Biden, outros direitistas já o fizeram, como Viktor Órban. O Brasil não mandou qualquer autoridade para a posse de Luiz Arce, na Bolívia. Além disso, Ernesto Araújo pediu aos seus assessores para correrem para preparar documentos sobre o que vai acontecer no governo Biden. É autoritarismo não aceitar o resultado das escolhas democráticas, e é um erro primário, mais um de Araújo, deixar o presidente confundir seus desejos com os interesses do país.

O presidente Jair Bolsonaro é o mais óbvio vilão ambiental, e com a reaproximação Estados Unidos e Europa, e a volta dos Estados Unidos para o Acordo de Paris, o governo brasileiro será mais atacado. A ideia de “vamos passear na floresta”, adotada pelo vice-presidente Hamilton Mourão não resolve coisa alguma. Dependendo da rota e da altura é possível ver uma Amazônia preservada, claro. É preciso ir nos pontos onde há problemas e eles são muitos. Respostas primárias não resolvem a questão. A melhor estratégia será parar de negar o problema do desmatamento e ter um plano para enfrentá-lo.

Mas isso, de pedir correndo documentos sobre o cenário Biden, mostra que até a antiga máxima “o Itamaraty não improvisa” foi rasgada. Araújo não tinha pensado antes nessa possibilidade? Quem conta a história desse pedido apressado de estudos aos departamentos do Itamaraty foi Ricardo Della Coletta, da “Folha”. Como Araújo entrou em negação junto com seu chefe, sequer se preparou, ou preparou o país, para o cenário que se confirmou da vitória democrata. Araújo é o pior ministro das Relações Exteriores que o Brasil já teve.


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