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Terça-Feira 15.jun.2021

Ano IX - Nº 447

Coluna

As incubadoras do cinema nacional

Entre a arte e a indústria, o Brasil se equilibra no seu único recurso abundante: o amor pelo cinema

Postado em 11 de Novembro de 2020 - Clayton Sales

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Lelita era abastada e bela. Alvo, portanto, do interesse do primo Paulo, que investe seus galanteios na jovem. Porém, Lelita suspeita da atração dele pela sua irmã. Ciúmes na certa. A história caminha até o desfecho em que as desconfianças são superadas e o amor verdadeiro vence, encerrando a trama romântica com ironias sobre a burguesia do Rio de Janeiro. Lançado em 10 de novembro de 1930, "Lábios Sem Beijo" foi dirigido por Humberto Mauro. O cinema silencioso respirava seu fôlego final e a pairava sobre o cenário brasileiro uma atmosfera de incerteza quanto ao futuro. Isso não impediu a realização do filme nos estúdios localizados no bairro carioca de São Cristóvão, cujas obras ainda não haviam terminado. Estúdios pertencentes à companhia fundada em março daquele ano, onde "Lábios sem Beijo" foi concebido, tornando-se seu primeiro trabalho. Começava o ciclo produtivo da Cinédia, empresa cinematográfica criada por Adhemar Gonzaga. O cinema nacional entrava na fase adulta.

Iniciava-se uma trajetória que promoveria imenso impulso ao cinema no país, principalmente pelos investimentos nos mais modernos equipamentos de imagem e som da época, como atesta "A Voz do Carnaval!" (1933), primeiro filme gravado com som óptico no Brasil. Com essa injeção de capital, o resultado se traduzia em sucesso, como "O Ébrio" (1946), trabalho de estreia da cineasta Gilda de Abreu. O longa-metragem arrasou nos números de bilheteria, ganhando até mesmo de "E o Vento Levou" em algumas capitais brasileiras. Clássicos do cinema nacional foram produzidos pela Cinédia, como "Limite" (1931), considerado o melhor filme do Brasil pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema e o aclamado "Ganga Bruta" (1933), além de chanchadas populares como "Alô, Alô, Carnaval" (1936). A Cinédia afirmava seu pioneirismo na visão do cinema como empreendimento e proporcionava ao país sua experiência embrionária de indústria cinematográfica. Menos experimentação, mais planejamento. Nem por isso, menos paixão. 

A Cinédia era protagonista de um negócio exitoso. A concorrência, portanto, não demorou a aparecer. Em 1933, a atriz e cineasta Carmen Santos colocou sua usina para funcionar quando inaugurou a Brasil Vox Filmes, situada no bairro carioca da Tijuca, cujo nome mudou para Brasil Vita Filmes em 1934. Com incentivos do governo Vargas, ela produziu trabalhos alinhados com a diretiva oficial de obras educativas, mas jamais abandonou as produções ficcionais. Seu primeiro filme foi "Onde a Terra Acaba" (1933) de Octávio Mendes, mas a maioria das realizações da Brasil Vita teve a direção de Humberto Mauro, quem ajudou a fundadora a erguer a companhia. Uma delas é o clássico "Argila" (1942). Outra obra produzida pela empresa foi "Inconfidência Mineira" (1948), dirigida, escrita, produzida e estrelada por Carmen Santos. Era o projeto de sua vida, que consumiu onze anos de esforços, mas que culminou em fracasso de bilheteria e fechamento da companhia. Todavia, o nome da Brasil Vita já estava inscrito na história do cinema brasileiro. 

Assim como o da Atlântida Cinematográfica. A empresa localizada no Rio de Janeiro começou suas atividades em 1941, graças ao desejo de Moacir Fenelon e José Carlos Burle de edificarem uma espécie de Hollywood brasileira. Em plenos anos 1940, período dourado do cinema americano, era uma ambição e tanto. Inicialmente, a Atlântida produziu cinejornais e documentários. Depois, colocou em cena seu primeiro filme, intitulado "Moleque Tião" (1943), baseado na vida de um dos astros da companhia, o ator Grande Otelo, que estrelou o longa-metragem. A linha de comédias e musicais consagrou a Atlântida como a grande produtora da década e famosa por consolidar as chanchadas na cinematografia nacional. O trabalho da empresa seguiu até seu fechamento em 1962, deixando obras como "Carnaval Atlântida" (1952) de José Carlos Burle, "Colégio de Brotos" (1956) e o clássico "O Homem do Sputnik" (1959), ambos dirigidos por Carlos Manga e todos estrelados por outra celebridade da companhia: o ator Oscarito. O cinema brasileiro sentia a brisa hollywoodiana soprando nas suas terras. 

Nem só de ventos cariocas viveram as produtoras da fase formativa da indústria audiovisual nacional. São Bernardo do Campo foi sede da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, fundada em 1949 pelo produtor italiano Franco Zampari e pelo empresário Francisco Matarazzo Sobrinho. Após a experiência com o Teatro Brasileiro de Comédia, Zampari captou a efervescência cultural de São Paulo após o fim da II Guerra Mundial, com o crescente interesse pelo cinema. Então, auxiliado pelo empresariado, Zampari contratou profissionais europeus e iniciou as atividades da Vera Cruz, que duraram apenas cinco anos. Tempo suficiente para entrar na história graças a produções que faturaram prêmios internacionais. "Caiçara" (1950), primeira obra ficcional da Vera Cruz, teve o diretor Adolfo Celi indicado em Cannes. "Sinhá Moça" (1953) ganhou menções honrosas em Veneza e Berlim. "O Cangaceiro" (1953) de Lima Barreto, levou duas estatuetas em Cannes, lançando o cinema brasileiro ao mundo. Além disso, graças à Vera Cruz, o país conheceu um campeão de bilheteria: o ator, humorista e cineasta Amácio Mazzaropi. 

As sementes de uma indústria cinematográfica brasileira já eram fato desde os anos 1920, quando o bairro da Luz, em São Paulo, recebeu um complexo voltado a essa cadeia produtiva. Corporações internacionais como a Fox, Paramount e MGM instalaram filiais, atraindo à região distribuidoras, comércio de peças e de manutenção técnica. Nos anos 1960, com o mercado audiovisual ainda vivendo dias prósperos, surgiram na localidade produtoras às margens das grandes companhias. O cinema independente brasileiro nascia em um quarteirão conhecido como Boca do Lixo, de onde emergiram nomes como José Mojica Marins e Julio Bressane. Nos anos 1970, na dureza da ditadura militar, esse pólo cinematográfico investiu recursos em trabalhos de baixo custo como as pornochanchadas, comédias com forte apelo erótico. Figuras como Claudio Cunha e David Cardoso foram seus protagonistas. Antes, porém, em 1949, uma companhia instalada na rua do Triunfo, que integra a Boca do Lixo, iniciou suas atividades. A Cinedristri começou distribuindo, mas depois passou a produzir filmes. Sua obra mais prestigiada foi "O Pagador de Promessas" (1962), vencedora da Palma de Ouro em Cannes. O prestígio mundial, no entanto, não evitou seu fechamento na década seguinte. Na série "Magnífica 70" (2015) da HBO, a narrativa é contextualizada na produção da Boca do Lixo durante os anos de chumbo. O negócio do cinema oscilava entre o prejuízo e a censura. Seguir em frente, entretanto, era o imperativo.

Muitos empreendimentos cinematográficos surgiram ao longo dos anos. Produtoras abrem e fecham. Em todo o país, empresas independentes batalham para realizar suas obras. Pequenas companhias sul-matogrossenses como a Cerrado's, Vaca Azul, Astaroth, entre outras, sobrevivem entres curtas e longas-metragens, videoclipes, documentários e trabalhos institucionais. Quando não conseguem recursos dos programas estatais de incentivos, buscam apoio do mercado privado, ainda relutante em investir na produção de filmes. Na era da internet, os crowdfunding são acionados para arrecadar grana da boa vontade de interessados e amigos. Quando nada disso resolve, o dinheiro do próprio bolso se torna a saída. Cinema é magia, emoção, provocação, alegria, diversão. Cinema também é logística, equipamentos, trabalhadores e insumos. Entre a arte e a indústria, o Brasil se equilibra no seu único recurso abundante: o amor pelo cinema.


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