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Quarta-Feira 23.jun.2021

Ano IX - Nº 448

Coluna

Ahkïto: vida e luta de um mestre Yepá Mahsã

Em memória de Casimiro Lobo Sampaio (26/07/1910 - 06/11/2020)

Postado em 11 de Novembro de 2020 - Daiara Tukano

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Meu bisavô Erëmiri - João Sampaio patriarca do clã Erëmiri Ahûsiro Paramera do povo Yepá Mahsã - Tukano, nasceu por volta de 1850 no rio Tiquiê, fronteira entre Brasil e Colômbia, muito jovem foi levado pelos comerciantes de borracha para os quais trabalhou por 30 anos remando pelas regiões de Barcelos até a Venezuela.

Testemunhou um período difícil, em que o império da borracha promoveu o trabalho escravo indígena nos seringais e piaçabais, muitos parentes eram levados pelos seringueiros a trabalhar em lugares distantes, enfrentando muita violência e morrendo de malária. Erëmiri foi resgatado pelas lideranças da Aldeia Esteio Igarapé no rio Tiquiê, no Distrito de Pari Cachoeira. Foi lá que nasceu meu avô Ahkïto, Casimiro Lobo Sampaio dia 26 de julho de 1910.

Os seringalistas estimulavam os conflitos políticos entre os povos da região, manipulando os clãs maiores para que estes vendessem pessoas dos clãs menores ao trabalho escravo da borracha. Diante desses conflitos, Erëmiri e Ahkïto saíram de Esteio Igarapé para fundar em 1927 a aldeia São Francisco, no rio Tiquié e se organizar contra o tráfico de escravos e o assédio das missões.

O ciclo da borracha, conhecido como “Belle époque amazônica” entre 1890 a 1920, fez de Manaus uma cidade Governada por magnatas cuja fortuna era regada à sangue da escravidão indígena. O desenvolvimento econômico provocado pela revolução industrial impulsionou o comercio da borracha na região amazônica que supria 40% da demanda mundial.

1910 foi o mesmo ano da fundação do Serviço de Proteção ao Índio SPI pelo marechal Rondon e da criação da Prefeitura apostólica do Rio Negro, que foi confiada em 1914 pela Santa Sé à Ordem Salesiana para o projeto expansionista da igreja católica na Amazônia como projeto “civilizatório”.

O código civil de 1916 proclamou os índios relativamente incapazes. No mesmo ano foi fundada a missão salesiana de São Gabriel da Cachoeira, marcando o inicio do processo de aldeamento das populações indígenas ao redor das igrejas, que foram construídas estrategicamente nos lugares sagrados de encontros tradicionais milenares dos povos da região.

A ordem Salesiana proibiu as Malokas, casas comunais, onde eram praticadas as cerimonias tradicionais de dabacuri e jurupari, que foram consideradas por eles como espaços insalubres e pecaminosos “casas do diabo”. As malokas foram derrubadas e as famílias foram divididas em pequenos casebres ao redor das igrejas e dos internatos.

Os religiosos católicos perseguiram os pajés, proibiam as cerimonias tradicionais e retiravam ou destruíam os objetos sagrados. Erëmiri foi defensor das tradições e preferiu jogar seu colar de pedra e demais objetos de cerimônia no rio em vez de entregá-los aos salesianos.

A missão salesiana ajudou a combater o regime de escravidão e as violências praticadas pelos gestores do SPI na época, até hoje lembrados por crimes hediondos, como o português Manduca, que dirigiu uma prisão onde indígenas “revoltosos” ou “fugitivos” eram acorrentados nas pedras, torturados, e as mulheres colocadas em fileira para ser estupradas à beira do rio. Manduca foi expulso pelos missionários que instalaram próximo ao posto do SPI o internato de Taracuá encima da pegada do gigante, um dos sítios mais sagrados de nosso povo.

Os internatos gigantescos construídos com mão de obra indígena ofereciam ensino elementar até a 4a série. As crianças eram levadas aos internatos em regime fechado a partir dos seis anos de idade para receber educação básica, aprender a ler e escrever, fazer cálculo. Ensinar marcenaria e construção aos meninos e Costura e fazeres domésticos às meninas. As línguas indígenas eram proibidas sob pena de punição severa. Doenças como gripe, malária, catapora e tuberculose eram frequentes e as crianças maiores eram responsáveis por enterrar aqueles que não sobreviviam longe de suas famílias.

Como jovem liderança tradicional, Ahkïto foi convidado aos quinze anos de idade para trabalhar para os missionários: visitando as comunidades a remo e ajudando no diálogo e na tradução. Erëmiri falava bem português e língua geral, mas não sabia ler e escrever, por isso pediu ao seu filho Ahkïto que estudasse na missão salesiana de Pari Cachoeira que foi fundada em 1938.

Ahkïto foi aluno da segunda turma de Pari Cachoeira, seus professores eram europeus, espanhóis, franceses e italianos, ex-militares ou sobreviventes e fugitivos da primeira guerra mundial, que chegaram na Amazônia como missionários para exorcizar seus próprios demônios mas acabaram demonizando e combatendo as culturas indígenas da região. Casimiro foi um dos melhores alunos, um grande leitor, escritor, como intelectual aprendeu os cantos e cerimonias tradicionais, tornando-se militante defensor da cultura Tukano.

Casou-se com minha avó Diakarapó – Guilhermina Sampaio, de família tradicional Desana, por quem foi muito apaixonado e com quem  teve muitos filhos e filhas.

Meu pai Doéthiro – Alvaro Sampaio nasceu em 1953 na Aldeia São Francisco, desde pequeno foi educado no conhecimento tradicional pessoalmente por seu avô Erëmiri, e quando completou doze anos foi levado por seu pai Ahkïto para estudar no internato de Pari Cachoeira. Seguiu a veia intelectual da família, sendo um dos melhores alunos, tornando-se professor e inclusive sendo convidado a ser seminarista. Ao completar a maioridade prestou serviço militar trabalhando como ajudante da enfermaria e testemunhou as violências sofridas pela população indígena da região. Ao terminar seu serviço decidiu estudar medicina e recebeu apoio para viajar ao Maranhão para realizar seu sonho.

Saindo da região do Rio Negro entendeu que o genocídio dos povos indígenas era uma realidade em toda a região amazônica e no Brasil. Tornou-se militante na defesa dos direitos indígenas, estimulado por seu pai Ahkïto a defender nossos povos e culturas tradicionais. Por isso em 1980 foi ao tribunal internacional Bertrand Russel em Rotterdam, junto com seu companheiro Mário Juruna para denunciar a Igreja Católica e a Missão Salesiana pelo crime de genocídio e etnocídio cultural dos povos do Alto Rio Negro. Doéthiro se apresentou como testemunha no processo que julgou a missão Salesiana culpada, criando grande constrangimento internacional. O tribunal de Rotterdam resultou na retirada do apoio financeiro da Santa Sé aos internatos salesianos, que foram transformados em escolas comuns.

A denuncia sobre as violações aos direitos humanos dos povos indígenas causou grandes conflitos políticos no Rio Negro, em particular contra nossas famílias que foram ameaçadas, difamadas e perseguidas pelos padres que impediram meus tios de prosseguir com seus estudos.

Ahkïto decidiu sair da aldeia São Francisco e fundou junto com Doéthiro a aldeia Balaio em 1975, próxima ao município de São Gabriel da Cachoeira, para reorganizar um recomeço para revalorizar as tradições que foram combatidas pelos missionários.

Durante a década de 1980 Ahkïto participou ativamente de todas as reuniões que resultaram na criação das organizações indígenas do Alto Rio Negro. Doéthiro se dedicou à articular a formação do movimento indígena brasileiro, participando ativamente das reuniões de lideranças indígenas, sendo um dos primeiros presidentes da União das Nações Indígenas e coordenando junto com lideranças de outros povos a construção dos direitos indígenas promulgados pela constituinte de 1988.

Doéthiro permaneceu em  Brasília desde a constituinte lutando pela demarcação da Terra Indígena Balaio que foi homologada em 2009, com a orientação de seu pai Ahkïto deu continuidade aos estudos dos conhecimentos tradicionais, escrevendo juntos a história de nosso Clã e de nosso povo.

Ahkïto, Kumu, rezador e Bayá, mestre de cerimônia, grande musico, intelectual, historiador educou seus filhos e netos para se tornarem professores, mestres de saberes e defensores dos direitos indígenas e de nossas tradições. Testemunhou a criação e o fim dos internatos salesianos, a primeira e segunda guerra mundial, a ditadura militar e os crimes do SPI, participou da criação do movimento indígena no Rio Negro e acompanhou o processo constituinte. Colaborou com muitos pesquisadores e universidades para manter viva a cultura do povo Yepá Mahsã inspirando gerações.

Extremamente lúcido aos 110 anos ainda ensinava seus filhos sobre as historias antigas da criação do povo Yepá Mahsã Tukano, cantava, rezava, tocava cariçu, dava conselho e contava piada.

Como curandeiro salvou muitas vidas. Conhecedor das rezas e das plantas medicinais enfrentou a primeira onda de Covid19 aos 110 anos de idade, rezando e curando muitas pessoas de sua comunidade.

Ahkïto faleceu de Covid19 dia 6 de novembro de 2020 as 16h na aldeia que fundou. Partiu deixando um legado de amor, humildade, dignidade, dedicação e defesa da liberdade. Nos confiou a missão de reconstruir as Malokas e manter vivas as tradições.

Seu espírito pegou a canoa até a Maloka do céu para se encontrar com seu pai Erëmiri, sua esposa Diakarapó e demais familiares. O céu esta em festa recebendo Ahkïto num grande dabacuri.

É com enorme sentimento de gratidão à vida e memória de meu avô que compartilho um pouco da historia de nossa família, para que as gerações seguintes possamos continuar reunidas seguindo a cultivar os sonhos de nossos avôs e sigamos remando na canoa da transformação.

Añû.

Duhigô - Daiara Tukano


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