Semana On

Quarta-Feira 16.jun.2021

Ano IX - Nº 447

Especial

O bolsonarismo derrete

Eleição de domingo pode sinalizar primeiro passo do debacle da extrema direita

Postado em 11 de Novembro de 2020 - Ricardo Noblat (Veja), Hygino Vasconcellos (UOL), Fábio Vasconcellos (G1), Daniel Mariani, Fábio Takahashi e Diana Yukari (Folha de SP), Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

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No último dia 9, o presidente Jair Bolsonaro, no que chama de seu programa eleitoral gratuito no Facebook, apareceu ao lado da Delegada Patrícia Amorim (PODEMOS), candidata a prefeita do Recife. Mas foi na semana anterior que anunciou seu apoio a ela.

Até então, Patrícia estava bem nas pesquisas de intenção de voto. Superara o candidato do DEM, Mendonça Filho. E ameaçava atropelar Marília Arraes (PT) para disputar o segundo turno com o deputado João Campos (PSB). Por enquanto, já não ameaça.

A mais recente pesquisa Ibope mostra que Patrícia caiu quatro pontos percentuais, que Mendonça Filho cresceu e Marília também. O índice dos eleitores que dizem que não votarão de jeito nenhum em Patrícia dobrou nos últimos sete dias.

Em São Paulo, Celso Russomanno (Republicanos), o candidato festejado por Bolsonaro, continua andando para trás. Despencou de 20% para 12% e ficou um ponto percentual atrás de Guilherme Boulos (PSOL). A rejeição a Russomano bateu a casa dos 40%.

Bolsonaro ainda tem esperança de que seu candidato a prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), dispute o segundo turno com Eduardo Paes (DEM). Ele está um ponto à frente da Delegada Martha Rocha (PDT), mas cresce entre os eleitores mais pobres.

Cresce também a torcida de Paes para enfrentar Crivella no segundo turno. Seria para ele o adversário mais fácil de derrotar. Em sua live no Facebook, Bolsonaro citou outros candidatos que têm o seu apoio nas capitais. Todos na rabeira das pesquisas.

Votar neles, segundo disse Bolsonaro, seria uma maneira de fortalecê-lo e ao seu governo, e de derrotar os que lhe fazem oposição. Sim, Bolsonaro disse isso, sujeitando-se a que se diga mais tarde que seu apelo não foi atendido e que ele perdeu.

Bolsonaro começou a cavar sua derrota nas eleições deste ano quando abandonou o PSL pelo qual se elegeu presidente da República, e tentou, mas não conseguiu criar um partido para chamar de seu. Prometeu então que ficaria neutro. Não ficou.

No caso das eleições americanas, para quem se diz amigo de Trump que não fala a sua língua, nem Bolsonaro a dele, poderia até ser compreensível que apostasse em sua vitória. Mas não a ponto de negar-se a reconhecer que Joe Biden ganhou.

Escolheu, portanto, comportar-se como se ele, Bolsonaro, também tivesse perdido, e, como Trump, alimentasse a esperança de reverter a derrota no tapetão da Suprema Corte. A opção por ser vencido lá e cá deve ter alguma misteriosa explicação.

Dizem ministros que o cercam que Bolsonaro com isso quer dar mais uma demonstração de fidelidade à sua base eleitoral de raiz que não admite recuos. Ela está incomodada com o fato de ele ter se rendido à política tradicional que antes dizia abominar.

É, pode ser. Mas essa base já foi muito maior. E tende a encolher mais quando aparecerem nomes para disputar seus votos com Bolsonaro em 2022. Aí o bicho vai pegar para ele.

Bolsonaro cabo eleitoral polariza e não domina o eleitorado, diz pesquisa

Pesquisa do INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Democracia e Democratização da Comunicação) aponta que 47,7% dos eleitores não votariam "de jeito nenhum" em candidatos a prefeito apoiados pelo presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido). Por outro lado, 42,7% escolheriam "com certeza" ou "poderiam votar" nesses políticos, outros 7,7% afirmam que a situação não influencia no seu voto e 2,1% não sabem ou não responderam.

O estudo ganhou o nome de "A Cara da Democracia - Eleições 2020". O índice de confiança é de 95% e a margem de erro é de 2.2 pontos para os dados nacionais. Já nos resultados regionais a margem de erro varia (veja abaixo). Ao todo, foram consultadas 2 mil pessoas entre os dias 24 de outubro e 3 de novembro.

Segundo especialistas, a diferença pequena, praticamente um empate dentro da margem de erro entre contrários e favoráveis ao presidente, mantém a fotografia de 2018: centro-esquerda e esquerda de um lado e apoiadores de Bolsonaro de outro.

Contudo, o fato de Bolsonaro não ter ampla vantagem como cabo eleitoral nestas eleições de 2020 é um sinal igualmente importante.

O coordenador da pesquisa e professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Leonardo Avritzer, percebe uma situação em que Bolsonaro aparece perdendo terreno entre eleitores que o apoiavam e mantendo a rejeição alta entre mulheres e os mais pobres (veja mais abaixo).

Segundo o professor, após as eleições presidenciais, o escolhido costuma ganhar mais projeção e, consequentemente, prover mais visibilidade para aliados no pleito municipal. Entretanto, a situação acabou não ocorrendo neste ano, segundo o coordenador do estudo. "A pesquisa identificou declínio da influência do Bolsonaro", opina.

Já o cientista político e professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Tiago Losso, considera que a pesquisa retrata a continuidade do cenário das eleições de 2018. "Eu notei distribuição muito igual (entre favoráveis e contrários) e espalhada pelo Brasil. Refletem o que foram as eleições presidenciais. Está muito dividido."

Losso observa que, em uma primeira análise, a pesquisa pode indicar uma polarização política. Entretanto, o pesquisador entende que o "estilo beligerante" de Bolsonaro acaba fazendo com que a população assuma um lado ou outro.

Já o coordenador da pesquisa discorda que o trabalho seja o "retrato da polarização" ao qual convive o país nos últimos anos. "Talvez a pandemia tenha levado para a despolarização. As pessoas querem política pública, não ideologia, querem política de saúde pública."

Rejeição alta entre jovens, mulheres e mais pobres

Segundo a pesquisa, a rejeição de candidatos apoiados pelo presidente é maior entre jovens de 16 a 24 anos. O estudo aponta que 59,6% não votariam neles, contra 32,6% que escolheriam "com certeza" ou que poderia votar.

Nas outras faixas etárias, as opiniões favoráveis e contrárias ficam praticamente empatadas, caso se considere a margem de erro.

A rejeição também é maior entre as mulheres — a maior parte (52,3%) não depositaria seu voto em um político alinhado com Bolsonaro.

Por outro lado, 38,2% se manifestaram favorável a esses candidatos e outras 6,9% disseram que o apoio do presidente não interferiria na decisão.

Já entre os homens o apoio a políticos bolsonaristas fica à frente, com 47,5%. Porém, o índice é próximo daqueles que não votariam "de jeito nenhum" nesses políticos: 42,6%.

Bolsonaro é cabo eleitoral mais efetivo no Centro-Oeste

Candidatos alinhados com o presidente ganham mais apoio no Centro-Oeste (57,9%), já no Nordeste está a maior rejeição (53,6%).

Nas outras regiões, os índices são próximos. No Norte, a diferença é de 0,6% entre um e outro, com os favoráveis à frente. Por outro lado, a variação é um pouco maior no Sul (45,6% contra e 42,3% a favor) e Sudeste (47,6% contra e 42,9% a favor), com rejeição a políticos bolsonaristas na liderança.

Além disso, os entrevistados evangélicos são os maiores apoiadores de políticos alinhados com o presidente. Ao todo, 53,2% disseram que escolheriam "com certeza" candidatos com esse perfil ou poderiam votar neles.

Vale destacar que o número de entrevistados evangélicos é menor em relação aos católicos, são 447 contra 1018, respectivamente.

Espíritas têm maior índice de rejeição às indicações do presidente

Entre os católicos a rejeição é maior, atinge 47,1%. Porém, o percentual de favoráveis não fica longe: 43,6%.

Entre os espíritas, há maior contrariedade a candidatos bolsonaristas: 62,9%. Entretanto, o número de espíritas entrevistados é menor em relação ao católicos e evangélicos: foram 89 pessoas.

Os políticos alinhados com o presidente também não tendem a se sair tão bem entre eleitores negros — 50% afirmaram que não votariam de "jeito nenhum" neles enquanto que 41% os escolheriam "com certeza" ou cogitavam essa possibilidade.

Entre os brancos, o apoio é de 45,6% contra 44,9% de rejeição.

Mais à esquerda e ao centro

A onda de direita que ganhou impulso na eleição municipal de 2016 e virou maremoto em 2018 não deve seguir o curso neste ano. Os candidatos favoritos nas capitais tendem a estar mais à esquerda e ao centro do que os atuais prefeitos.

A análise tem como base o GPS Ideológico, ferramenta do jornal Folha de SP que monitora o debate político no Twitter, atualizada neste mês. Os perfis são posicionados numa reta, do ponto mais à direita ao mais à esquerda, considerando o perfil dos seguidores das contas (clique aqui para ver a reta completa).

A reportagem comparou a posição dos atuais prefeitos com a dos primeiros e segundos colocados nas capitais, de acordo com os resultados dos institutos Datafolha e Ibope.

Em 11 capitais, os primeiros colocados nas pesquisas de intenção de voto estão mais à esquerda do que o atual prefeito. Na outra ponta, apenas seis candidatos favoritos estão mais à direita do que o atual mandatário.

Numa escala de 0 a 100 pontos, os favoritos mais à esquerda estão 16 pontos em média à esquerda dos atuais mandatários. Na direita, são apenas 7 pontos mais à direita.

O caso mais emblemático no movimento à esquerda é o de Porto Alegre, onde Manuela D'ávila (PCdoB), primeira colocada nas pesquisas, é 38 pontos mais à esquerda na escala ideológica do que o prefeito atual, Nelson Marchezan Jr (PSDB).

A segunda maior diferença é em Belém, onde Edmilson Rodrigues (Psol) tem um perfil de seguidores 34 pontos à esquerda do atual prefeito, Zenaldo Coutinho (PSDB).

Entre os candidatos favoritos que estão mais à direita, a maior diferença aparece em Cuiabá, onde Abilio (Podemos) é 12 pontos mais à direita do que o prefeito Emanuel Pinheiro (MDB).

Em São Paulo, maior cidade do país, o favorito no pleito é o atual prefeito, Bruno Covas (PSDB). Se considerado o resultado da urna de 2016, uma vitória de Covas pode ser vista como deslocamento à esquerda, pois o eleito naquele ano, o agora governador João Doria (PSDB), está à direita do atual prefeito.

Outro ponto negativo para o espectro conservador é que os candidatos que estão mais à direita no GPS Ideológico tendem a estar mal posicionados nas pesquisas do Datafolha e do Ibope.

Alguns dos exemplos são Bruno Engler (Belo Horizonte-PRTB) e Luiz Lima (Rio de Janeiro-PSL), que estão em alguns dos pontos mais à direita da reta e não passaram dos 5% de intenções.

A eventual perda de força da direita no pleito de domingo é uma má notícia para o presidente Jair Bolsonaro, pois os perfis nesse espectro tendem a ter alinhamento com sua base.

O movimento recente em direção à direita, que culminou com a eleição de Bolsonaro, começou justamente nas últimas eleições municipais. Simbolicamente, naquele ano o PT perdeu sua hegemonia no país (vinha do partido que governava a maior população nas cidades e caiu para 11º).

Os dados deste ano, porém, não são suficientes para se ter total certeza de que a direita não possa surpreender e ainda ter um bom resultado, ao fim do segundo turno, ao menos mantendo parte de suas capitais.

Se considerados também os segundos colocados nas pesquisas de intenção de voto, além dos líderes, em 15 cidades pode ser que o eleito venha estar à direita do atual prefeito. Sob esse mesmo critério, são 16 cidades que podem ter eleito mais à esquerda.

Mas considerando as últimas pesquisas de opinião, candidatos mais à direita precisariam de grandes arrancadas para chegarem ao segundo turno e serem competitivos.

“Está claro que não há grande movimento para a direita. A conclusão pode ser que vai ficar mais ou menos como estava antes, ou então que vai haver movimento para a esquerda", afirmou o cientista político Cesar Zucco, da Escola Brasileira de Administração Pública e Empresas, da FGV-RJ.

Zucco aponta duas possíveis explicações para o fenômeno. O primeiro é o fato de a aprovação de Bolsonaro nas capitais estar arrefecendo, aparentemente. “Pode haver incentivos para um afastamento em relação ao presidente, o que também levaria a um arrefecimento de posições muito marcadamente à direita”.

Outra possibilidade é que o ponto atual já seja o máximo que se possa chegar à direita.

Pesquisador do Cepesp (Centro de Estudos em Política e Economia do Setor Público), da FGV-SP, Guilherme Russo disse fazer sentido que a eleição de 2020 tenha dinâmica diferente das anteriores e não siga em direção à direita.

"Há um certo pêndulo na política que ora favorece forças mais à direita e depois à esquerda”. E o contexto de 2020, diz o cientista político, é diferente de 2016, ano conturbado para a esquerda, com Lava Jato, impeachment da presidente Dilma Rousseff e prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Já 2020 está sendo marcado pela pandemia, dificuldades econômicas e sociais, o que favorece propostas de maior participação do Estado na parte econômica e social. Vale dizer também que políticos são obviamente estratégicos em suas campanhas e ao perceber o momento atual, se movem para a esquerda”, afirmou Russo.

Professor de ciência política da Universidade Federal de Minas Gerais, Felipe Nunes disse que "os temas municipais parecem ser mais fortes na eleição municipal do que a disputa ideológica nacional que marcou o pleito de 2018."

Além disso, "a queda de popularidade do governo Bolsonaro, suas pautas polêmicas, além de seus desgastes, têm contribuído para que a direita não mantivesse seu crescimento", afirmou Nunes, que também que é diretor da consultoria Quaest.

Metodologia

A posição dos influenciadores na reta é calculada a partir do perfil de 1,7 milhão de usuários do Twitter no Brasil, com interesse em política (foram excluídas contas que um modelo matemático classificou como possíveis robôs).

O algoritmo do GPS Ideológico busca encontrar padrões nos perfis de seguidores entre os influenciadores.

O modelo capta, por exemplo, que usuários que seguem o vereador Carlos Bolsonaro tendem a seguir também o deputado Flávio Bolsonaro e o jornalista Alexandre Garcia. Esses ficam próximos na reta.

Mas esses seguidores tendem a não seguir contas como a do petista Fernando Haddad, da comentarista Gabriela Prioli e do cantor Emicida. Esses três ficam próximos na reta, mas distantes dos Bolsonaros e de Alexandre Garcia.

Ou seja, a posição na reta depende do perfil dos seguidores do influenciador, não necessariamente mostra a ideologia da conta (ainda que haja uma forte correlação entre o perfil de seguidores e o perfil do influenciador).

Autor do algoritmo que foi adaptado para o GPS Ideológico, o cientista político Pablo Barberá (Universidade do Sul da Califórnia e London School of Economics) afirma em seus trabalhos acadêmicos que, ao seguir uma pessoa, via de regra o usuário tem afinidade com esse perfil.

Isso porque a pessoa passará a visualizar mais tuítes desse usuário. E receber conteúdo de alguém sem afinidade é algo custoso, em termos de tempo e de atenção —por isso, tende a ser exceção.

Para a análise dos atuais postulantes à prefeitura, em alguns casos foi usada a posição do partido deles no GPS Ideológico, pois suas contas pessoais possuíam poucos seguidores e não foi possível fazer a análise da posição delas.

São os casos dos prefeitos Roberto Cláudio (Fortaleza-PDT) e Socorro Neri (Rio Branco-PSB) e dos candidatos Alfredo Gaspar de Mendonça (Maceió-MDB), Abilio Jr. (Cuiabá-Podemos), Nilvan Ferreira (João Pessoa-MDB), José Priante (Belém-MDB) e Fabrício Gandini (Vitória-Cidadania).

Aprovação do presidente caiu em 7 capitais durante a campanha

A aprovação do governo Bolsonaro caiu em sete capitais após o início da campanha eleitoral. Dados do Ibope das 26 cidades mostram que a avaliação ótima/boa apresentou queda acima das margens de erro nas pesquisas realizadas entre a primeira e a segunda quinzena de outubro.

A maior variação em pontos percentuais ocorreu em Salvador e em Rio Branco, ambas com queda de 7 pontos percentuais. Na primeira rodada das pesquisas, a capital baiana já apresentava o menor índice de aprovação do governo (18%). Agora, a avaliação ótima/boa diminuiu para 11%. Com isso, Salvador acentuou a baixa aprovação do governo entre as capitais. Já Rio Branco registrava 48% de avaliação positiva na primeira rodada, percentual que caiu para 41%.

Boa Vista, capital de Roraima, continua com o maior percentual de avaliação ótimo/bom do governo Bolsonaro, mas também houve queda na cidade, com redução de 6 pontos percentuais. Os percentuais de avaliação positiva caíram também acima da margem de erro em Belo Horizonte (- 4 pp), Florianópolis (- 5 pp), Porto Velho (-6 pp) e São Luís (-4 pp).

Somente em Palmas, houve crescimento da avaliação ótimo/bom acima da margem de erro na comparação dos dois períodos. Na primeira rodada, 44% dos eleitores da capital do Tocantins aprovavam o governo Bolsonaro. O índice agora subiu para 50%.

Apesar da queda dos percentuais de ótimo/bom nas sete capitais, em apenas quatro casos foi observado um aumento simultâneo da avaliação negativa (ruim/péssimo) acima da margem de erro. Foi o caso de Vitória, Rio Branco, Florianópolis e São Luís. Nessa última, o percentual de reprovação subiu de 46% para 54%. Na capital do Espírito Santo, a avaliação negativa subiu de 44% para 51%. A avaliação positiva caiu 4 pontos percentuais em Vitória, dentro do limite da margem de erro.

A avaliação ruim/péssimo do governo em Rio Branco passou de 27% para 36%, aumento de 9 pontos percentuais. Já na capital de Santa Catarina, a avaliação negativa subiu de 47% para 53%.

Nas sete cidades em que houve quedas dos percentuais, o governo ainda mantém percentual maior de aprovação em Rio Branco e Boa Vista. Nas demais, ou a curva mudou ou se acentuou a avaliação negativa.

Em Cuiabá, Vitória e São Paulo também houve variação numérica negativa da avaliação ótima/boa, no entanto, no limite da margem de erro considerada para essas cidades. Em Porto Alegre, houve movimento contrário. Foi identificado um crescimento da avaliação ótimo/bom do governo, mas no limite da margem de erro de 3 pontos percentuais.

Para Wladimir Gramacho, cientista político e professor da Universidade de Brasília (UNB), a variação negativa do governo pode estar associada a vários fatores nas diferentes cidades. Para ele, no entanto, dois fatores parecem ser os mais relevantes: as campanhas municipais e a pandemia.

“Em Vitória, Bolsonaro é claramente associado a um candidato que está muito mal na disputa e é associado a um motim que deixou mais de 200 mortos em 2017”, diz Gramacho.

O cientista político lembra ainda a situação em outras capitais cuja queda na avaliação do governo também pode ter relação com a pandemia.

“Em capitais como Florianópolis e Salvador, onde o presidente não enfrenta a oposição de candidatos fortes na eleição, o número de casos de Covid-19 tem crescido muito no último mês, segundo a Fiocruz. Em Salvador, inclusive, o líder nas pesquisas defendeu a vacinação obrigatória contra o novo coronavírus, em posição contrária à de Bolsonaro”, ressalta Gramacho.

Análise

Nesta reta final do primeiro turno da campanha municipal, Jair Bolsonaro transformou a biblioteca do Alvorada em trincheira política. Transmite desde o palácio residencial o seu próprio horário de propaganda eleitoral. Pede votos para aliados e fustiga adversários.

Bolsonaro opera numa realidade paralela. Nela, misturam-se crenças e ideias fixas sobre a pandemia. Bolsonaro acha que teve comportamento exemplar durante a crise sanitária.

Ao lado da delegada Patrícia Domingo, candidata do Podemos à prefeitura do Recife, o presidente fez pose de benfeitor dos pobres. E instou seus seguidores nas redes sociais a punirem os prefeitos que recorreram à política do isolamento social. Atribuiu a esses prefeitos, não ao vírus, a destruição de empregos.

As pesquisas indicam que o bumbo de Bolsonaro destoa da realidade. No estratégico Triângulo das Bermudas (São Paulo— Rio de Janeiro—Belo Horizonte), estão mais próximos da reeleição os prefeitos que lidaram com o coronavírus de costas para Brasília: Bruno Covas (PSDB) e Alexandre Kalil (PSD). Aproxima-se do cadafalso Marcelo Crivella (Republicanos), que deu mais ouvidos a Bolsonaro do que recomendaria o bom senso.

Os prefeitos de São Paulo e de Belo Horizonte enquadram-se naquilo que o presidente chama de turma do "fique em casa". Pesquisas divulgadas pelo Datafolha em outubro revelaram que o esforço não foi castigado, como gostaria o Bolsonaro. Ao contrário.

Quase metade do eleitorado de São Paulo aprovou a atuação de Covas: 46%. A grossa maioria dos eleitores de Belo Horizonte avalizou a forma como Kalil lidou com a pandemia: 70%. No Rio, a atuação de Crivella foi reprovada por 56% do eleitorado.

A seis dias da eleição, informou o Ibope, Covas disparou na liderança em São Paulo. Com 32% das preferências, ele assiste de camarote à guerra que seus rivais travam pela segunda vaga. Kalil, do alto dos seus 62%, flerta na capital mineira com uma vitória já no primeiro turno. Crivella, com exíguos 15%, não sabe se vai ao segundo turno.

Bolsonaro acorrentou-se à derrota nas três praças. No Rio, seu berço eleitoral, o presidente associou-se a Crivella. Em São Paulo, cavalga as pretensões do pangaré Celso Russomanno. Em Belo Horizonte, apoia a candidatura nanica de Bruno Engler.

A pandemia já matou no Brasil mais de 162 mil pessoas. Bolsonaro não enxerga um corresponsável no espelho. Ele se escora no Supremo Tribunal Federal para terceirizar todas as culpas. Alega que a Corte o impediu de agir. Conversa mole.

O Supremo apenas reconheceu, em abril, que os três entes da federação —União, Estados e municípios— têm amparo constitucional para agir na área da saúde pública. Assim, governadores e prefeitos puderam recorrer ao isolamento social e ao fechamento de estabelecimentos comerciais.

Na prática, o que a Suprema Corte fez foi colocar uma coleira nos impulsos anticientíficos de Bolsonaro, que ameaçava editar um decreto para afrouxar o isolamento e reabrir o comércio. Alguns magistrados lamentaram que o governo federal não tivesse feito o que lhe cabia, que era atuar como coordenador nacional do enfrentamento da pandemia.

Bolsonaro nunca levou o vírus a sério. Quando os mortos eram contados em mil, falou em "gripezinha". Quando os cadáveres somavam 5 mil, queixou-se da "histeria". Quando lhe perguntaram sobre os 10 mil corpos, disse "não sou coveiro". Na marca de 20 mil sepulturas, perguntou: "E daí?". Aos 30 mil mortos, declarou que "todo mundo morre um dia".

Nos 35 mil, disse que o Ministério da Saúde pararia de "divulgar números" antes do Jornal Nacional. No recorde de 40 mil, fez um convite aos seus devotos: "Invadam hospitais e filmem leitos vazios". Com 50 mil mortos, continuava assegurando que "a hidroxicloroquina salva". Na ultrapassagem dos 100 mil cadáveres, declarou "vamos tocar a vida".

Uma única morte é uma fatalidade. Meia dúzia, uma tragédia. Mais de 160 mil, uma estatística. Imagine-se quantas covas mais teriam sido abertas sem o isolamento que Bolsonaro abomina!

Nos Estados Unidos, onde o estrago da pandemia é maior, o negacionismo custou o mandato a Donald Trump. Bolsonaro demora a felicitar o vitorioso Joe Biden. Natural. O tombo de Trump não orna com a realidade paralela do Alvorada.

Ironicamente, a primeira providência de Biden como presidente eleito foi constituir um conselho consultivo contra a Covid-19. Esse tipo de preocupação não cabe na ficção do Alvorada.


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