Semana On

Quarta-Feira 10.ago.2022

Ano X - Nº 499

Entrevista

Frei Betto: 'Não falar sobre sofrimentos é uma espécie de veneno'

Em 'Diário de Quarentena — 90 dias em fragmentos evocativos', frade dominicano conta histórias e faz reflexões sobre o presente, passado e futuro em meio ao isolamento causado pelo coronavírus

Postado em 03 de Novembro de 2020 - Davi Rocha – Huffpost

Foto: Divulgação/ João Laet Foto: Divulgação/ João Laet

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Desde que o coronavírus chegou ao Brasil na Quarta-feira de Cinzas, nós nunca mais fomos os mesmos. Duas semanas depois, no meio de março boa parte do País entrou em quarentena forçada. Enquanto muitos faziam pães, cursos livres, se jogavam nas séries da Netflix, outros trabalhavam e estudavam ou trabalhavam e cuidavam da casa e dos filhos. Todos tentaram, de alguma forma, enfrentar o vírus ocupando corpo e mente dentro de casa.

Quando o mundo parou o frei dominicano, escritor e cronista Frei Betto ocupou parte de seu tempo de confinamento com seus projetos literários, incluindo um diário.

Por 90 dias ele registrou seus pensamentos, notícias de um tempo ainda não tão distante, escreveu pequenos contos, crônicas, rememorou momentos do passado. Há reações às falas oficiais do presidente Jair Bolsonaro, sobre a mobilização antirracista que tomou o mundo, reflexões sobre o luto, sobre o negacionismo do vírus e a apresentação de um militante político equivocado, que chama de “militonto”. O resultado é o livro Diário de Quarentena — 90 dias em fragmentos evocativos (Rocco, 2020). É como ler um trecho da retrospectiva do ano que ainda não acabou.

Não é a primeira experiência de confinamento de Frei Betto. Ele já esteve preso pela ditadura militar durante 4 anos. Na ocasião ele escreveu seu primeiro livro, Cartas na Prisão. Também desta época saíram os livros O Diário de Fernando e Batismo de Sangue, este último vencedor do prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, em 1982. Ele é autor de mais de 60 livros, todos disponíveis para venda em seu site freibetto.org

Mas desta vez, como ele mesmo descreveu, se tratou de uma “prisão de luxo”.“Na pandemia, a chave fica do lado de dentro. Basta abrir e sair à rua, aliás como muitos fazem diariamente, seja por necessidade, impaciência ou imprudência. Ainda assim, não conseguem realizar seus sonhos, porque os amigos estão isolados; os bares, fechados; os espetáculos artísticos, cancelados ou adiados.”

Em entrevista ao HuffPost ele explica por que resolveu registrar este momento em diário. “Pra mim foi muito terapêutico, porque eu me ocupei com ele e com outros projetos literários. Você precisa ter uma atividade, seja culinária, espiritual, artesanato, seja um pouco de cada ou várias. É preciso se ocupar. Eu por exemplo acho que essa pandemia não vai acabar tão cedo.”

Em nossa conversa, ainda falou sobre o papel das redes sociais em nossa sociedade (que ele chama de redes digitais), a importância do afeto e da história, a necessidade de todos cuidarem da saúde mental e dos seres humanos se importarem com a fome no mundo.

Também demonstrou preocupação com a ansiedade excessiva que está se criando por causa da vacina e sugere calma: “A vacina mais rápida até hoje foi a da caxumba que levou quatro anos. Nós temos a busca de uma vacina que está na fila há 40 anos, que é a da aids. Então a gente tem que ter paciência”.

 

Você começa o livro em 18 de março e termina no 90º dia de quarentena do coronavírus, no dia 16 de junho de 2020. Agora nós estamos já com mais de 200 dias de pandemia e não temos ainda um sinal concreto de quando ela vai acabar, então gostaria de começar perguntando como está o seu isolamento agora?

Agora eu me autoflexibilizei um pouco. Fui visitar uma irmã em setembro no interior de Minas Gerais e tenho transitado entre dois conventos, fico uma semana em cada um. Tenho feito poucos movimentos externos, mas quando necessário vou a uma farmácia ou ao médico.

O que você acha das pessoas que dizem que nós vamos sair melhores desta pandemia?

Infelizmente eu não partilho desse otimismo. Primeiro porque eu vejo uma onda de autoritarismo muito grande e crescente, daí a minha torcida para o [Joe] Biden ganhar a eleição americana. Não que eu o considere uma maravilha, mas o [Donald] Trump é tão pior e serve como um modelo para governos autoritários. A minha expectativa é de que as coisas possam melhorar um pouco. Mas, por outro lado, quando eu vejo o que aconteceu na Alemanha, com a direita atacando os centros de saúde e discordando do governo das medidas restritivas para evitar a propagação da pandemia, fico achando que realmente nós ainda estamos longe de um mundo solidário.

Eu vejo que nenhuma grande medida foi tomada para realmente diminuir a desigualdade social no mundo, o que é o problema número um, a meu ver. E faço um paralelo, a covid tem matado muita gente, já passou de um milhão de pessoas, porém a fome mata muito mais. A fome mata cerca de 9 milhões de pessoas por ano, são 24 mil pessoas por dia. Por que há toda essa mobilização para exterminar a covid e não há para erradicar a fome?

Isso revela um dado assustador, preocupante. Porque a fome faz distinção de classe e só atinge os mais pobres, enquanto a covid-19 não faz distinção de classe. A humanidade ainda não é sensível à dor e ao sofrimento do outro. Nós não buscamos ainda as causas da desigualdade e da fome. Eu vejo que nós temos uma grande jornada pela frente.

Lendo seu livro, eu percebi que você usa a expressão novo normal no dia 2 de abril. Confesso que, como a pandemia começou há muito tempo e tanta coisa já aconteceu, eu nem lembrava que a gente já falava disso no começo de abril. O que você acha dessa expressão e como você vê as mudanças da pandemia no nosso dia a dia?

Eu creio que o novo normal é continuar tendo cuidados sanitários e higiênicos, como o uso da máscara, que é um fator número 1 para evitar a propagação da covid. Mas esse novo normal é mais na questão do trabalho.

Cada vez mais os funcionários vão poder fazer seus trabalhos em domicílio. Isso significa uma grande economia para o sistema capitalista, na medida em que você, trabalhando de casa, extrapola o horário de trabalho, enquanto as empresas economizam água, luz, energia e alimentação. Você gasta os seus aparelhos em vez de gastar os da empresa, como uma série de vantagens para o sistema. Isso ainda rompe definitivamente aquele mínimo de relações trabalhistas que havia entre funcionários da mesma empresa e funcionários da mesma área de trabalho.

Se o sistema sindical já estava bastante afetado pelo neoliberalismo, agora será muito mais com essa atomização das relações trabalhistas. Cada um com o seu lixo doméstico, cada um com sua casa. Isso vai dificultar enormemente a conquista ou reconquista de direitos trabalhistas importantes.

A uberização veio para ficar em muitas classes de trabalho?

Exatamente. Você uso uma expressão correta: a uberização das condições de trabalho.

E você cita no livro a importância de manter o corpo e a mente no presente. Como manter a nossa cabeça no presente num momento em que estamos cada vez mais ansiosos e com a atenção cada vez mais fragmentada?

Isso vem da minha experiência de prisão. Eu fiquei preso 4 anos e aprendi que algo que faz muito mal ao preso é quando ele fica com o corpo lá dentro e a cabeça aqui fora. Isso vale para a quarentena e este período de isolamento. Uma pessoa que fica em casa, é vulnerável, teme pegar a covid, mas fica lamentando que não está podendo ir à casa dos parentes, ao restaurante, ao cinema e ao teatro… Essa pessoa acaba em depressão. Por isso é muito importante criar esse novo normal dentro do espaço doméstico de confinamento.

A diferença é que agora a prisão é de luxo. Esse diário pra mim foi muito terapêutico, porque eu me ocupei com ele e com outros projetos literários. Você precisa ter uma atividade, seja culinária, espiritual, artesanato, seja um pouco de cada ou várias. É preciso se ocupar. Eu, por exemplo, acho que essa pandemia não vai acabar tão cedo.

Porque a vacina que virá, não há nenhuma garantia de que ela vá aparecer nos próximos 3 ou 4 meses. A vacina mais rápida até hoje foi a da caxumba que levou 4 anos para ficar pronta. Nós temos a busca de uma vacina que está na fila há 40 anos, que é a da aids. Então a gente tem que ter paciência.

Essa questão da vacina tem criado uma esperança muito grande nas pessoas. Muita gente parece achar que vai tomar a vacina no braço e imediatamente vai poder tirar a máscara e voltar à vida que tinha anteriormente. Como você vê isso?

Não é possível achar que a vacina vai resolver tudo assim como um milagre. De fato, inclusive, a gente não sabe como a vacina vai ser tratada. Se ela vai ser tratada como algo como um direito de uso ou como uma mercadoria de um sistema de troca. Ou seja, se o governo assegura a vacina para todo mundo é uma coisa, como acontece com a vacina da gripe, da poliomelite, etc, que são gratuitas. Mas eu imagino que vai haver uma mercantilização brutal da vacina. Além de falsificações, suborno, corrupção.

De qualquer maneira, nós precisamos guiar o novo normal, incorporar na nossa vida que existe uma pandemia e eu tenho que transitar em meio a esse risco permanente, não tem outro jeito. A pandemia está no ar, é um vírus que é muito mais invisível que um fio de cabelo, precisa de um microscópio que aumenta 80 mil vezes a imagem para ser enxergado. O novo normal é aceitar que este dado é real. Eu acho irresponsável essa propaganda toda sobre a vacina, que vai criando ansiedade nas pessoas e a gente sabe que aumentou muito o consumo de ansiolíticos e outros fatores para evitar a depressão nesse período.

No livro você fala que na época da ditadura, os presos com que você teve contato, que falavam mais sobre o que estavam passando, pareciam sofrer um pouco menos. Já os que guardavam tudo para si, sofriam um pouco mais. Ter com quem trocar e cuidar da saúde mental se assemelha um pouco, com suas devidas adaptações, com o que estamos vivendo agora?

O falar é terapêutico. Quando a pessoa não fala sobre seus sofrimentos e sua dor, ela interioriza isso e isso faz mal. É uma espécie de veneno. Ela vai mastigando lentamente aquela dor e sofrimento, aquela frustração. A minha experiência de prisão mostrou isso. Eu fiz vários livros de prisão, o Cartas da Prisão, o Batismo de Sangue, O Diário de Fernando, e isso me fez muito bem. Falar, socializar, mostrar minha experiência. Agora, quando a pessoa se fecha, interioriza, o sofrimento tende a ser muito maior.

E tá aí a importância das pessoas se atentarem para a importância de cuidarem da saúde mental...

E muito. Porque toda a nossa centralidade e o modo como a gente vive está na saúde mental. Os budistas já lá nos 500 anos antes de Cristo ensinavam que o segredo da felicidade é o desapego. Buda dizia que rico não é quem tem muito; é quem não precisa de quase nada. Quanto mais a gente tem desapego, tanto menos a gente sofre. Este é o grande segredo da felicidade: o desapego.

Imagina se eu na prisão ficasse lamentando: ‘não posso ir ao cinema’, ‘não posso ver os amigos’, ‘não posso ver minha família’? Eu iria entrar em depressão. Vi muitas pessoas, muitos companheiros meus, que faziam isso. Tinha um que dormia 18 horas por dia e só se levantava para tomar banho e se alimentar. Era uma maneira ilusória de tentar fazer o tempo passar mais depressa, e o resultado foi a depressão.

No livro o seu diário em muitos dias era baseado em histórias, muitas delas nostálgicas de bons momentos, o que nós vimos acontecendo com muita gente. Você acha que devemos dar mais valor às nossas boas memórias e este momento de 2020 com maior reclusão foi importante para isso?

Eu considero isso fundamental. Eu divido os seres humanos em duas categorias. Os que percebem a vida como um mero fenômeno biológico, quer dizer, eu nasci, preciso estudar, crescer, ter um trabalho para manter os filhos. E aqueles que têm a percepção da vida como um fenômeno biográfico, ou seja, eu faço parte de uma família, de um povo, de uma nação, de uma classe, de um momento histórico no Brasil e no mundo.

Eu creio que a consciência histórica é extremamente importante para o nosso equilíbrio e para alimentar em nós a esperança e a utopia. Sem consciência histórica a gente fica num círculo vicioso. E o neoliberalismo trabalha justamente para desistorizar o nosso tempo. Quando você abre a primeira página da Bíblia, o livro do Gênesis mostra a historização do tempo. Você vê que é uma criação que foi feita em 6 dias, no sétimo Javé foi descansar. Já ali os hebreus tinham uma percepção do tempo como história.

Três pessoas que marcam a nossa cultura justamente eram herdeiros dessa construção hebraica ou judaica: Jesus, Marx e Freud. Jesus que fala de um Deus que tem currículo no reino de César como um projeto civilizatório novo. O Marx, que fala que pra você ter consciência crítica do capitalismo, você precisa recuperar os vários modos de produção e abrir a janela da esperança para o futuro. E o Freud, que diz que na terapia se você pode contar sua vida intrauterina, vai ajudar muito o seu futuro e o seu equilíbrio psíquico. O neoliberalismo percebeu que isso politiza, torna as pessoas dotadas de consciência crítica.

Aquela famosa frase do [Francis] Fukuyama: ‘a história acabou’. Tem um conto no livro, aquele do Nemo, confinado numa cidade, aquilo foi inspirado por isso. No capitalismo eu tenho liberdade para escolher entre várias marcas de macarrão no supermercado, mas eu não tenho liberdade para escolher outro sistema. Esse confinamento é o que ele quer nos incutir. A grande verdade é que as pessoas aceitem trocar a liberdade pela segurança. E aí voltamos ao George Orwell, o 1984.

Às vezes parece que a gente está dentro do livro dele.

Exatamente.

Me chamou atenção que no dia 30 de abril você mandou um texto para os amigos mais próximos sobre como manter a sanidade ficando em casa.

O texto dizia, entre outras coisas frases como: “Por que lamentas estar isolado dentro de casa? Já pensaste naqueles que nem casa têm e são obrigados a conviver com o risco iminente da infecção? Ou será que o teu coração é um cômodo entupido de ego, sem lugar para mais ninguém?” e “Nunca pensaste nas pessoas em situação de guerra, nos refugiados, nos que não têm acesso a nenhum sistema de saúde?”.

Fiquei curioso para saber como eles receberam seu texto.

A reação foi muito boa, gostaram, agradeceram. Os amigos reagiram muito positivamente. Aquilo foi uma orientação de alguém tem quem uma experiência de confinamento para a pessoa evitar a ficar como uma barata tonta com a cabeça fora e o corpo dentro de casa. Isso ainda é muito comum às pessoas.

Isso me trouxe um pouco também a questão do afeto, o brasileiro sempre tem muito abraço, muito beijo, estar muito perto das pessoas. Você tem a ideia do que a falta de afeto por tanto tempo pode nos trazer?

A falta de afeto em qualquer circunstância faz muito mal. Nós somos seres essencialmente amorosos. Nós somos um animal, o que demanda mais tempo para se tornar independente, uns doze anos. Não somos como os répteis que nascem imediatamente autônomos. A nossa identidade é construída pelo amor ou desamor do outro.

Como eu tive preso em cela comum eu aprendi que aqueles que são mais bandidos, mais cruéis, são aqueles que foram menos amados, mais surrados e humilhados quando crianças. Então o afeto é muito importante e a solidão ela não é falta de afeto. A grande riqueza da espiritualidade é quando nós aprendemos a nos relacionar pessoalmente com Deus como amor. Isso traz uma profunda carga afetiva.

Por isso nessas dicas que eu dou, eu digo, ligue para os amigos, ligue para os parentes, que são os nossos recursos hoje. A voz é mais presencial que as redes digitais.

Por falar nas redes, eu gostaria de saber a sua opinião sobre o papel das redes sociais, que você chama de redes digitais, na nossa sociedade atual.

Pois é, as redes são como a política e a religião, servem para libertar ou servem para oprimir. Servem para informar ou para desinformar. Depende de como é usado. Em si, as redes que eu não chamo nunca de sociais, chamo pelo nome técnico de digitais.

Porque elas necessariamente não criam sociabilidade e criam muita hostilidade, mas também são uma ferramenta fantástica de democratização da informação, facilidade de comunicação, disseminação e quebrar o monopólio da informação. Pode ser usado para o mal, para mentir, enganar e produzir o fenômeno aberrante no Brasil que foi a eleição do Bolsonaro.

Quem imaginava no Brasil depois da redemocratização um fenômeno desses? É resultado desses algoritmos e robôs, como uma situação nova que a direita manipula e a esquerda está longe de ter expertise para dominar esta questão.

E voltamos um pouco sobre a história, até porque a ditadura foi há muito pouco tempo, é um evento muito recente.

Muito, muito recente, que deveria ser trabalhado nas escolas e no entanto isso não acontece. Quanto mais se conhece aquilo que passou, menos o risco de repeti-lo. O Marx fala que se a gente não rememora os fatos eles tendem a se repetir. E isso é grave.

E nós vemos agora uma revisão histórica da ditadura do Chile, que começa um processo de uma nova constituição.

Sim, foi um passo ali muito importante.

E já que estamos falando em política, como você vê está vendo as eleições municipais deste ano em meio a uma pandemia?

Eu vejo um perfil eleitoral completamente diferente, com muito cerceamento, seja legal ou situacional pela pandemia. Mas é o que é possível. Precisaríamos recuperar mais liberdades do processo eleitoral. Claro que algumas coisas foram importantes, como evitar o financiamento de capital privado, que facilitava que os mais ricos conseguissem se eleger. Mas houve um estreitamento que tirou o caráter de educação política que o processo eleitoral deveria ter.

Não há uma preocupação dos responsáveis pelo processo eleitoral para que ele seja educativo e formar a consciência de um povo. Todos nós estamos participando do processo, seja se omitindo e legitimando o que está aí. Agora não, mas quando que eu fazia palestras dizia para os jovens: ‘quem tem nojo de política é governado por quem não tem e tudo o que os políticos querem é que a gente tenha bastante nojo’.

E como você vê os jovens hoje e o envolvimento na política?

Você tem muitos setores de jovens engajados, como o Levante Popular da Juventude, o pessoal do MST, do MTST. O sistema quer despolitizar os jovens pois ele sabe que todo jovem é potencialmente revolucionário e isso ameaça o sistema. Hoje o sistema quer direcionar a motivação do jovens para os quatro grandes e falsos valores: poder, beleza, fama e riqueza. Daí um número enorme de jovens deprimidos porque não alcança nenhum dos quatro. E um número grande de suicídios que têm crescido entre crianças e jovens. Pois se coloca o foco onde não deveria, induzidos pelo sistema.

Os jovens também se envolvem muito em causas pelas redes sociais, não necessariamente em política, como vimos recentemente nas manifestações do Black Lives Matter, no movimento LGBT, que não deixam de ser políticas. Como você vê esses movimentos?

Acho que essas lutas identitárias são muito importantes, agora elas precisam avançar para suas dimensões. Primeiro é serem interligadas, é preciso que o movimento LGBTODOS, como eu chamo, seja consciente que a luta indígena também é a luta deles. E que os índios estejam conscientes que as lutas dos LGBTODOS também são deles. Isso é o primeiro fator.

O segundo é associar isso a projetos políticos, pois nós não vamos conquistar direitos setorialmente, parcialmente, não existe isso. Tanto que conquistas como a criminalização da homofobia, agora está aí o Bolsonaro pedindo revisão disso. É preciso ampliar essas bandeiras no sentido de um novo projeto de sociedade, senão elas ficam sempre em uma dependência permanente de segurança.

Você apresenta no livro algumas vezes o conceito de militonto. Eu também já vi muito nas redes sociais uma expressão descansa militante, da pessoa que fica o tempo todo militando sem descansar, sem se cuidar. E me lembrou um pouco o termo militonto.

O militonto é aquele cara que se gaba de estar em várias frentes de luta simultaneamente e acaba não se aprofundando em nenhuma e acaba se desgastando. Eu conheço muitos ex-companheiros meus de lutas, militâncias, de prisão, que hoje estão completamente aburguesados. Por quê? Porque se envolveram tanto que se desgastaram emocionalmente, afetivamente, psicologicamente. Hoje eles encontram comigo e falam: ‘você continua pensando naquelas bobagens, continua de esquerda?’. Isso é o militonto, o cara que não tem foco no processo político.


Voltar


Comente sobre essa publicação...