Semana On

Segunda-Feira 20.set.2021

Ano X - Nº 461

Coluna

‘Respeita as mina’ e viva os movimentos feministas!

A revolução é feminista! Sim, senhor jogador, quer você e seus amiguinhos queiram ou não!

Postado em 21 de Outubro de 2020 - Régis Moreira

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Tenho estado muito irritado com homens que interrompem mulheres na hora das falas das reuniões, dos cafés, em casa, em qualquer lugar, o homem acha – geralmente hétero branco cisgênero, que se coloca num lugar do patriarcado, que ainda acha que tem esse domínio do pater dei, esse domínio desatualizado e cafona de homem, que interrompem mulheres. Rasgando o verbo: macho que interrompe na hora que a mulher vai falar. Bem na hora que a mulher vai falar ele interrompe. Na hora que o amigo dele vai falar: coleguinha branco, hétero, cisgênero, parça de futebol, ele não interrompe não, passa até pano, seja lá qual for a bobagem que o outro diga. Mas a mulher abriu a boca, ele vai lá e corta, vai falando em cima, dando ideias, interrompendo a fala de nossas parças mulheres. Eu também já devo ter feito isso também. O machismo é estruturante em nossa sociedade, mesmo quando temos consciência e nos colocamos numa postura contrária. Estou falando pra gente refletir. Faço a mea culpa e peço perdão pelas vezes que já fiz. Chega de interromper as mulheres!

Você mulher, já foi interrompida muitas vezes, né? Por isso digo e repito aos colegas machos: hei, colega, a sua ideia não é tão brilhante assim. Você não é tão genial assim. E mesmo que fosse, a sua ideia não existe sozinha, vivemos em sociedade, portanto, é também uma questão de educação. Dá pra esperar a nossa colega acabar de falar. Aguarde a mulher falar até o fim. Espere sua vez. Espere ela terminar, depois você fala. Eu sei que a gente está neste país em que se falam as maiores bobagens e as maiores violências contra as mulheres, contra o movimento feminista, seja pelo macho do poder, seja pelo jogador, seja lá que macho for, porque macho se acha no poder, mesmo que não esteja e não seja superior a ninguém. Violenta-se as mulheres com estupros, condenam a menina, a deputada, a prostituta, a moça da boate, a jovem que usava shorts parecidos com os da Anitta, a estudante, a jovem que só pelo fato de existir, o macho acha que está provocando e que lhe dá o direito de violentá-la. Temos que falar mais sobre isso! Dar um basta!

As mulheres foram caladas durante anos, séculos, historicamente muitas foram reclusas como propriedades dentro das casas, vistas como útero, que servia só para procriação dos filhos. Os grandes machos que se consideravam “os sábios”, achavam que somente eles tinham direito à polis, a uma vida política. Depois tivemos as mulheres dentro de casa submetida a uma imagem de jovem, fértil, linda e santa. Às mulheres negras era negada a própria existência. A educação ainda replica esses modelos arcaicos: “senta com a perna fechada, querida!”, “não diga palavrões, amorzinho”, “não ria tão alto”... e a educação em muitas casas e escolas vão fazendo um terror em cima da mulher, treinando a menina para ser submissa ao homem. Até hoje vemos isso, e agora com a colaboração de pastores, padres e líderes religiosos arcaicos e misóginos. Tem gente que ainda acredita, em pleno século XXI, ano 2020, que a mulher tem que ser submissa ao homem. Assusta perceber que ainda encontramos na maioria dos cargos, no trabalho, cargos públicos e políticos, representatividades da sociedade civil... a maioria ainda estão ocupados por homens.

Na idade média, a mulher que não era santa, que não era “bela, recatada e do lar” era levada para as fogueiras da “santa inquisição”, da “santa igreja católica”, que queimava, pois eram consideradas bruxas. As santas eram as que submetiam aos mandos e desmandos dos homens. Depois de velhas, era negado a elas o direito de envelhecer em família. Depois de darem luz aos filhos, produzido a prole para trabalhar nas fábricas e na lavoura, tinham como destino os mosteiros. Levavam as mulheres velhas para os mosteiros, para evitarem que elas, caso os homens da casa viessem a falecer antes, fossem impedidas de administrarem seu lar. Sim, eram impedidas de administrar suas próprias casas, para não correrem o risco de colocarem o machista em risco, queriam se perpetuar no poder, desqualificando e impedindo as mulheres de autonomias libertárias. O poder não podia ser matriarcal. Absurdo! Mas ainda vemos rescaldos disso atualmente, em casas em que tantas mulheres que são submetidas a situações semelhantes.

Vemos rescaldos disso nos homens que interrompem as mulheres na hora que ela vai falar!  Tem sido insuportável para mim constatar esse desrespeito às mulheres, em diversos campos. Vimos isso na campanha presidencial entre Hillary Clinton e Donald Trump; no Roda Viva de Manuela D’ávila; nas reuniões de trabalho, nos cafés, nas casas... a interrupção machista sobre a fala das mulheres é frequente e precisamos parar com isso.  Existem algumas nomenclaturas utilizadas para identificar diversos momentos destas malditas heranças patriarcais sobre os discursos das mulheres:

- O Manterrupting, diz respeito quando um homem interrompe constantemente uma mulher, de maneira desnecessária, não permitindo que ela consiga concluir sua frase. A palavra é uma junção de “man” (homem) e “interrupting” (interrupção) e, em tradução livre, quer dizer “homens que interrompem”;

- O Mansplaining, quando um homem dedica seu tempo para explicar algo óbvio a uma mulher, de forma didática, como se ela não fosse capaz de entender. O termo é uma junção de “man” (homem) e “explaining” (explicar);

- E o Bropriating, que é o termo que designa situações em que um homem se apropria da mesma ideia já expressa por uma mulher, levando os créditos por ela. O termo é uma junção de “bro” (de brother, irmão, mano) e “appropriating” (apropriação).

Todas essas formas de desqualificação das mulheres revelam o medo de muitos homens perderem o poder que lhe foi atribuído historicamente. Mas isso é absolutamente inadmissível, violento e não dá mais para ser tolerado em nossos dias. E além de tudo, é cafona pra caramba. Ser machista é muito cafona! Negar o machismo e se negar enquanto homem machista também é CA-FO-NA!

Um artigo recente da colunista Avivah Wittenberg-Cox na revista Forbes as considerou "exemplos de verdadeira liderança". "As mulheres estão se colocando à frente para mostrar ao mundo como gerenciar um caminho confuso para a nossa família humana", escreveu. As mulheres representam 70% dos profissionais de saúde em todo o mundo. Já no mundo político, em 2018, elas eram apenas dez dos 153 chefes de Estado eleitos, de acordo com a União Interparlamentar.

Estou tratando do discurso ainda desmerecido e desrespeitado das mulheres, porém existem vários outros discursos anulados, das pessoas LGBTQIA+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, Queers, Intersexuais, Assexuais e outros mais), pessoas negras, pobres, pessoas em situação de rua, indígenas, pessoas idosas, deficientes, pessoas com problemas mentais, que são considerados alienadas... e por aí vai. Pessoal, se enxerga! Porque a população que você considera diferente, tem muito a contribuir! Historicamente, os grandes gênios foram parar nos pátios dos manicômios, as grandes mulheres foram para na fogueira, ou em processos de impeachment, desmerecidamente tiradas do poder e muitas vezes foram mortas, social ou fisicamente por violências de misoginias, feminicídios, transfobias, lgbtqia+fobias e outras intolerâncias.  

Parem de ser machistas! Basta! Isso está complemente desatualizado! Ninguém suporta você machista assim! Você está muito fora de qualquer possibilidade de convívio! Mude! Prestemos atenção quando formos paquerar, arrumar nossos crushs, amigos, parceiros para a vida... e quando formos educar nossas filhas e filhos. Que esse modelo de homem das cavernas, que fique nas cavernas! Lá no período paleolítico. Que fique na idade antiga, na idade média, que fique no passado!          

Ainda há muito a ser conquistado pelas mulheres e sou parceiro na luta, por isso tomei a liberdade de tratar do assunto, do meu lugar de fala, direcionado aos homens com os quais convivo por aí, muito mais por obrigação, que por opção, que fique evidente. Só acredito numa transformação substancial da sociedade, quando todos os cargos de liderança estiverem nas mãos delas. É uma reparação histórica, que vem acontecendo, quer queiram ou não, os machistas de plantão.  

O que nos dá alento, é vermos mulheres emancipadas deste falso e perverso poderio masculino, criando novos espaços em diversos setores. Só para citar um importante exemplo dessa postura das mulheres, os países que melhor enfrentaram a pandemia da Covid-19 são os liderados por elas. Da Nova Zelândia à Alemanha, Taiwan ou Noruega, alguns países liderados por mulheres vivenciaram menos mortes pela covid-19. Tais lideranças implementaram atitudes e medidas efetivas frente a atual crise da saúde. Aproveitemos as eleições e comecemos já a mudar esse cenário. Por mais mulheres no comando! Precisamos eleger mulheres para reparar, reverter esse erro histórico. A revolução é feminista! Sim, senhor jogador, quer você e seus amiguinhos queiram ou não!


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