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Quinta-Feira 24.jun.2021

Ano IX - Nº 448

Coluna

A grande temporada de ursos

Estamos carregando mais do que um ‘urso grande e peludo’ nas costas - uma analogia para a depressão. Mas quem se importa?

Postado em 07 de Outubro de 2020 - Theresa Hilcar

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Há dias venho procurando a palavra que defina este estado de coisas. Desde o amanhecer até a hora de dormir tento descobrir o nome deste sentimento que me engole o peito. No áudio da meditação da manhã ouço a mesma pergunta todos os dias. “Por que você acordou hoje? ”, diz a voz feminina e doce. Mas não sei responder. Só consigo pensar em coisas como porque sim, porque tenho de acordar, levantar e tocar o dia.

Lamento desapontar a leitora que tanto cobra de mim textos mais leves. Meu tempo não é de leveza. Na pandemia, os dias, as semanas e os meses se tornaram praticamente simultâneos. Entre hoje, ontem e o mês passado nem noto diferença. Estou numa espécie de piloto automático.

As notícias continuam, os artigos se escrevem, o café se coa, a pasta de dente acaba, o lixo tem que ser descartado, o cabelo cresce e embranquece: os fatos, enfim, não deixaram de existir. Tornaram-se, entretanto, iguais, pontuados, estáticos, mal se movendo entre o quarto, a cozinha e o banheiro.

Olho para trás, para todos esses meses, semanas e dias desfeitos na inatividade e no silêncio. O tempo já não passa, já não corre e já não para. Pelo menos, é isso o que sinto desde que tudo isto começou. Há seis, sete, oitos meses ou um ano? Não sei mais.  Fico tanto dentro de casa que, na verdade, o próprio tempo parece ter virado espaço.

E o espaço é uma espécie de passeio interminável numa roda gigante. Há momentos em que estou lá em cima e outros em que imploro para descer. Alguns chamam isto de medo e ansiedade. Na psicologia o medo é a resposta emocional à ameaça iminente real ou percebida, enquanto a ansiedade é a antecipação de ameaça futura. 

Faz sentido. Mas nenhuma dessas palavras definem o momento. O meu e o de tantas outras pessoas, centenas e milhares que passaram a conviver com sentimentos de angústia, solidão, desespero, além da incerteza do amanhã. Li em algum lugar que nem mesmo os especialistas em saúde e economia podem afirmar como será a sociedade do futuro, a não ser pela necessidade de se reinventar.  Sinceramente, não sei como. Isto é possível.

Como substituir o sentimento de abandono que sempre vem acompanhado de uma sensação de vulnerabilidade e impotência? Como impedir as vozes que ouço diuturnamente dizendo que as coisas não ficarão melhores; que não há saídas possíveis e que a vida, tal como conhecemos não irá mais existir?

Muitos falam que depois de tudo (embora sinceramente não sei o que envolve o “tudo”) as pessoas sairão melhores. Há quem fale até em equilíbrio do planeta. Não imagino como o vírus, as queimadas, a intolerância, a inépcia, o egoísmo e a violência podem melhorar o ser humano. Acredito até que o caos propicia o aparecimento dos vários sinônimos da boçalidade. Enquanto uns usam máscaras, outros as deixam cair.

Mas estou divagando. Perdoe a minha falta de tato, caro leitor. Na verdade, estou procurando a palavra que possa definir este e todos os momentos iguais a este. Estamos carregando mais do que um “urso grande e peludo” nas costas -  uma analogia para a depressão. Mas quem se importa?

Quem vai nos livrar do urso que nos arrasta para sua jaula conjunta, se alimenta dos nossos sonhos, dos nossos desejos, que dilacera com as unhas afiadas qualquer tentativa de nos movermos? Quem irá nos proteger deste monstro que faz meio dia virar noite e meia noite virar dia?

E em tempos tão propícios para mantê-lo acordado a única palavra que consigo descobrir é a desesperança. Que também responde por desamparo.


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