Semana On

Domingo 19.set.2021

Ano X - Nº 461

Coluna

Pequena crônica do cinema em Mato Grosso do Sul

O Estado pode conceber grandiosas ideias para fomentar e fortalecer seu audiovisual

Postado em 07 de Outubro de 2020 - Clayton Sales

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Quando assisti a "Avatar" em 2009, aquela primeira experiência com a projeção em 3D me causou pelo menos meia-hora de desconforto. Meus olhos precisavam de urgente recondicionamento. Décadas assistindo a filmes de um modo já naturalizado pelo meu sistema cognitivo e, de repente, chega essa novidade para bagunçar a engrenagem. Era a imagem que avançava sobre mim, como uma fantasmagoria atrevida. Algo que ocupava o espaço entre minhas vistas e a grande tela. Em 2018, na noite de abertura do Festival Cine Novo Oeste, em Campo Grande (MS), vivenciei sensação semelhante, mas não com os olhos e sim com os ouvidos. Foi exibido o média-metragem "Alma do Brasil" (1931), de Líbero Luxardo, a primeira produção cinematográfica realizada no que atualmente é Mato Grosso do Sul. A obra dramatiza o episódio histórico da Retirada da Laguna com os recursos audiovisuais disponíveis à época no interior do Centro-Oeste brasileiro. Por isso, é originalmente um filme mudo, pois não havia a possibilidade tecnológica de sincronizar som às imagens do cinematógrafo ao alcance dos realizadores. O cinema regional estava saindo do útero e ganhando sua primeira luz.

Trilhas sonoras foram colocadas posteriormente e vídeos no Youtube contém "Alma do Brasil" com soundtracks variadas, algumas de gosto discutível e nitidamente amadoras. Porém, a experiência que o festival proporcionou foi a mesma que marcou exibições de obras como "Viagem à Lua" (1902) e "Metrópolis" (1927): com uma orquestra executando os temas musicais ao vivo na "sala" de cinema. No caso de "Alma do Brasil" daquela ocasião, a tarefa foi executada magistralmente pela Orquestra Municipal de Campo Grande, sob a regência do maestro Eduardo Martinelli. Nos dez minutos iniciais, foi difícil encaixar na mente a projeção da película na grande tela e o som da orquestra. Era, de certo modo, uma trilha sonora em 3D. Depois de algum esforço, evitando olhar ao máximo para os músicos, consegui direcionar minha concentração para o filme e o resultado foi fascinante. Os temas instrumentais pareciam ter uma emoção mais vigorosa, gostosamente agressiva. Eu sabia que muitos clássicos da sétima arte chegaram ao público desse modo, com pianistas, com rudimentares efeitos sonoros também postos ao vivo ou com narradores, mas, naquela exibição, foi possível ter uma noção empírica. A experiência também serviu para ratificar o quanto o fazer cinematográfico sempre foi um misto de inspiração artística e empenho logístico. Dá muito trabalho.

A história de "Alma do Brasil" carrega os valores ufanistas de seu tempo, com a visão nacionalista sobre a Guerra do Paraguai, o heroísmo beatificado dos soldados brasileiros, uma "conciliação" entre o militar branco e o escravo negro na caminhada penosa, e a semântica do paraguaio como gente desalmada. A extensa duração dos intertítulos, letreiros que servem como narração verbal dos filmes mudos, talvez seja fruto da noção do ritmo médio de leitura da época. A atuação fortemente teatralizada do elenco demonstrava o quanto ainda se buscava um caminho interpretativo para o então adolescente cinema. Mas isso tudo pouco importou. Nessa dança entre o antigo e moderno, entre a orquestra que executa a trilha na sala - neste caso, na praça - de cinema e o óculos 3D, penso que eu me acostumaria melhor com o que aconteceu no festival. Prefiro a música em alto relevo, avançando sobre mim. Com o tempero orquestral da modernidade proporcionando a paisagem sonora para as imagens da saga ulissiana pelas terras de Guia Lopes da Laguna, foi possível conhecer o brotar do cinema no que hoje é Mato Grosso do Sul.

Cinema que também produziu obras como "Paralelos Trágicos" (1967), dirigida por Abboud Lahdo e baseada no livro do irmão Bernardo Lahdo. Filmada em Campo Grande, a primeira produção rodada na cidade é uma trama ácida que critica a política, a religião e a polícia, o que era perigoso se considerarmos que o país estava chafurdado na ditadura militar. De início, a censura foi implacável com o longa-metragem, acusado de subversivo, imoral e ofensivo ao Brasil. Depois de muita insistência, a produção foi liberada para exibição. Infelizmente, um incêndio no cinema Acapulco destruiu as cópias do filme, restando apenas a importante referência dessa obra para o audiovisual de Mato Grosso do Sul. Conheci Abboud Lahdo em 2005, quando ele foi convidado para assistir a uma banca de trabalho de conclusão de curso de Jornalismo cujo tema era o cinema em Campo Grande. Era um documentário produzido por formandos e eu compus a trilha sonora. Após os comentários da banca examinadora, o cineasta pediu a palavra, teceu emocionados elogios ao trabalho, agradeceu pela homenagem e, para minha surpresa, perguntou onde eu estava, olhou na minha direção e parabenizou pelos temas que compus no violão para o filme acadêmico. Eu me senti um Gustavo Santaolalla pantaneiro.

Pela sua juventude como Estado e pelas dificuldades que o cinema brasileiro jamais deixou de atravessar, mesmo nos seus momentos redentores, Mato Grosso do Sul é terra de gente capaz em diversos aspectos. Há o cinema folclórico de Fábio Flecha, o cinema pungente de Miguel Horta, o cinema imersivo de Filipi Silveira, o cinema aterrorizante de Larissa Anzoategui e Ramiro Giroldo, o cinema histórico-cultural de Marinete Pinheiro. Há produtoras como Vaca Azul, Astaroth e Render Brasil. Há nomes importantes como Cândido Alberto da Fonseca e seu lendário documentário "Conceição dos Bugres" (1980), sobre a artesã que simboliza a cultura da região, e Joel Pizzini com seus trabalhos poéticos como "Caramujo-Flor" (1988), baseado nos versos de Manoel de Barros. Há cineclubes, eventos como o tradicional Festival de Cinema do Vale do Ivinhema e mostras organizadas pelo poder público, como as que integram as programações do Festival de Inverno de Bonito e Festival América do Sul Pantanal, em Corumbá, além das atividades do Museu da Imagem e do Som. Existe vida cinematográfica em Mato Grosso do Sul porque existem contextos, personagens e narrativas prontos para serem descobertos e transformados em arte. E porque existem pessoas com amor e iniciativa para alavancar esses projetos. Afinal, se gente do nosso Estado foi capaz de exibir "Alma do Brasil" com orquestra ao vivo numa praça para celebrar as raízes do cinema regional, é sinal inequívoco que Mato Grosso do Sul pode conceber grandiosas ideias para fomentar e fortalecer seu audiovisual.


Voltar


Comente sobre essa publicação...