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Segunda-Feira 21.jun.2021

Ano IX - Nº 448

Coluna

Bye, bye Brazil...

Idelber Avelar fala de Moro, Mike Pence e da reação internacional ao caos ambiental no Brasil

Postado em 07 de Outubro de 2020 - Idelber Avelar

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Confere, sim, que o Sr. Moro estaria desejando, e sendo pressionado pela família e pela esposa Rosângela, a sair do Brasil. Até aí tudo bem. O Sr. Moro não é fugitivo da justiça brasileira – pelo menos não por enquanto –, que eu saiba tem visto válido aos EUA, e não deve satisfações a ninguém acerca de para onde viaja, a não ser à sua própria família. Esse foi o motivo pelo qual ainda não comentei o que queria comentar, que é, sim, de interesse público e se segue a essa notícia.

A esposa e outros familiares estariam pressionando para que o Sr. Moro “aceitasse dar aulas de Direito”, e ele mesmo estaria “considerando” dar aulas “em outro país”.

Olha … É difícil descrever, sem tascar uma carteirada, quanta arrogância e pretensão são necessárias para se formular o insulto à minha profissão contido no parágrafo anterior.

Sabemos que “outro país” para ele significa Estados Unidos – vaga para ele dar aulas na Estácio do Paraguai de repente rola, antes de o Paraguai fechar a fronteira em definitivo –, mas o que ele e família parecem não saber é que … meu deus, em que planeta eles imaginam que o Sr. Moro está qualificado para lecionar Direito nos EUA?

Não se trata de falar inglês. Em casos de notório saber, é ok para uma universidade anglófona norte-americana (Canadá incluído) trazer, digamos, o ex Presidente Pepe Mujica ou o escritor chinês Mo Yan para ser professores, mesmo que não falem uma palavra de inglês. Universidades estão cheias de tradutores, obviamente.

A questão é que o Sr. Moro, apesar de ser um dos personagens protagônicos da história brasileira da última década e, isso ninguém lhe pode tirar, um dos grandes responsáveis pelo estado em que se encontra a pólis (mais responsável que ele talvez só o ex Presidente que ele mandou prender), não é figura de notório saber em área nenhuma. Não fez nenhuma contribuição acadêmica, já confessou ter assinado um plágio, já processou criminalmente um colega de universidade pelo “direito” de lecionar só às sextas, não leu muito Direito Internacional nem Filosofia do Direito ou sequer Direito Penal dos EUA ou de lugar nenhum que não seja a bendita Mani Pulite, que dirá ter ESCRITO algo sobre qualquer uma dessas coisas.

No sistema universitário dos EUA, o currículo do Sr. Moro inclui a confirmação, “como grande honra”, de uma participação em mesa-redonda pública promovida por um dos mais tradicionais centros de estudos latino-americanos do país, e a posterior fuga dessa mesa-redonda, de um professor de literatura que ia falar a língua dele.

O que faz a família de Moro, e o Moro, pensarem que ele é um candidato forte a algum emprego de professor no sistema universitário dos EUA, meu deus?

Amigo, cavouque ou não cavouque o carguinho no governo Dória, isso sim, pode estar aberto para você. Mas, no magistério, se quiser começar a sério, o lugar seu é esse mesmo em que você está, Penal I e Penal II na Estácio. Depois vai subindo.

Ora, a galera acaba de chegar e já quer sentar na janelinha? Que falta de noção! Há pessoas que precisam baixar a bola um pouco.

VAMOS DEIXAR CLARO QUEM É O VICE-PRESIDENTE DOS EUA, MIKE PENCE

De toda a onda conservadora cristã com toques de teocracia que se fortaleceu nos EUA nos últimos trinta anos, o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, é quem sobrou disponível e minimamente votável para compor a chapa com Trump em 2016, porque mesmo na comunidade teocrata ficou difícil vender Trump como cristão legítimo.

Além de ser a rapa do tacho que sobrou na direita teocrata, Mike Pence foi, como deputado e como governador de Indiana, um sujeito dedicado a duas causas:

1. impedir que as mulheres que possam cuidar de seus úteros como bem entenderem.

2. impedir que pessoas gays e lésbicas tenham os mesmos direitos que todos, e que pessoas trans não tenham que viver entocadas, invisíveis, sem direito nenhum.

O resto (armas, política fiscal etc.) vem como penduricalho que lhe permite manter os reais objetivos bombando, sempre com as mesmas citaçõeszinhas manjadas da Tanakh, só Levítico e Deuteronômio, sempre com os mesmos dois livrinhos descolados da obra e transformados em consigna absoluta (quer punhetar com Deuteronômio, teocrata? Que tal 15:11? Ficas gritando as regras do Levítico? Que tal lembrar de Levítico 19:18?).

Esqueçamos o fato de que essa direita teocrata se autointitula “cristã”, mas sua prática passa longe de qualquer fidelidade ou sequer relação com a palavra do Nazareno, seja via Mateus, João, Marcos ou Lucas, seja via qualquer apócrifo que se queira.

Mike Pence é o que sobrou com menos amor próprio para representar esse bloco na chapa de Trump, o mais anticristão dos presidentes. Ele topou, porque isso lhe servia para avançar os dois objetivos que tem na vida: impedir que as mulheres tenham direitos reprodutivos e impedir que LGBTs tenham direitos civis.

Imagine a miséria que é um ser humano desses.

Debates entre candidatos a vice-presidente costumam importar pouco eleitoralmente. Como a chapa Biden-Harris está liderando, tudo o que Kamala precisava fazer era manter a dianteira, o que ela fez bem ontem à noite, creio eu.

Pareceu-me que aqui no FB valia mais a pena lembrar a todas e todos quem é Mike Pence.

NAU DESGOVERNADA

É difícil descrever a nau desgovernada que são os Estados Unidos hoje. Pense se isso seria imaginável uns anos atrás: são 215.000 mortos e mais de 7,7 milhões de infectados. Só na Casa Branca, só na última semana, e somente entre os principais membros do círculo de Trump, são 17 infectados, mais que toda a República do Vietnã no mesmo período. Trump já pode parar de chamá-lo de “Chinese virus”. Agora é “the White House virus”.

Depois de três dias recebendo um tratamento que custaria a qualquer outro americano, mesmo com seguro, algo em torno de meio milhão de reais, Trump se deu alta, mas voltou infectado e sintomático a uma construção fechada – enorme, mas fechada – sem máscara. Chegou infectado e saiu para acenar a apoiadores com o carro cheio de agentes do Serviço Secreto. A ala oeste do prédio, em que funciona o governo, está semivazia. Alguns infectados, alguns trabalhando em casa.

Há vários Senadores Republicanos com Covid, muito provavelmente infectados pelo próprio círculo de Trump. Tudo indica que muitos se infectaram na cerimônia de apresentação de Amy Barrett, a nova Ministra da Suprema Corte a ser confirmada, reunião com aglomeração e sem máscaras no jardim da Casa Branca.

Trump tuitou TRINTA vezes nas últimas 24 horas, a maioria delas apresentando publicações de malucos conspiratórios que acusam Obama de tê-lo espionado ilegalmente (é mentira), ou batendo bumbo com matérias de rádio ou de blogs de extrema-direita sobre, por exemplo, um eleitor qualquer da Carolina do Norte que solicitou uma cédula para a esposa morta em 2018. Faz tudo isso para alardear que as eleições realizadas sob seu próprio governo serão fraudadas contra ele.

Enquanto isso, suspendeu as conversas para a aprovação do pacote econômico de estímulo, que todo mundo concorda que é necessário para alavancar a economia agonizante, e botou uma mordaça total em seu quadro de saúde: não sabemos quando se infectou, a qual temperatura sua febre chegou e por quanto tempo precisou de oxigênio. Não se sabe nada. O médico que se submeteu a isso tem agora, claro, a credibilidade arruinada.

É uma nau sem rumo; está mentindo ou chutando quem lhes disser que sabe o que vai rolar nesta nação comandada por um hospício.

PARTIDO DO BOI

Uma cacetada no Partido do Boi e, por extensão, no bolsonarismo. Por mais que os efeitos da porrada demorem a ser sentidos.

A gestão do Ministério do Meio Ambiente é tão genocida e ecocida que atrapalha até os negócios do Ministério da Agropecuária; isso deve ser um feito inédito para as nações civilizadas.

***

BRUXELAS — O Parlamento Europeu aprovou relatório que diz que o acordo de livre comércio União Europeia-Mercosul não pode ser ratificado pelo bloco "como está" e ressalta a importância do compromisso dos países com a "implementação do Acordo de Paris" para sua aprovação.

Uma emenda ao relatório que citava "preocupação com a política ambiental de Jair Bolsonaro" chegou a ser aprovada, mas a menção ao presidente brasileiro foi retirada no texto final.

Na versão que prevaleceu no Parlamento, é dito que "o acordo UE-Mercosul não pode ser ratificado como está".

DOSSIÊ AMAZÔNICO

O New York Times publicou um dossiê impressionante sobre a Amazônia. O link está em inglês mas, ao chegar lá, há a opção de se ler tudo em português.

São 14 textos de amazonistas da antropologia, da biologia, da botânica, da sociologia e de outras disciplinas, incluídos líderes indígenas. É um show de caderno. Copio um trecho do texto de Philip Fearnside sobre as barragens:

"Os fluxos desses rios podem gerar muita eletricidade, então não é de se espantar que a bacia do rio Amazonas seja vista por governos, especuladores e indústrias como uma fronteira vasta e inexplorada para energia hidrelétrica e o desenvolvimento que as barragens atraem. Pelo menos 158 barragens operam ou estão em construção na bacia do rio, e outras 351 foram propostas, de acordo com um estudo publicado ano passado na revista Nature Communications.

[...]

Todos os anos, o Ministério de Minas e Energia do Brasil publica um plano de energia que inclui grandes barragens de pelo menos 30 megawatts de capacidade instalada a serem concluídas em 10 anos. O plano mais recente, que vai até 2029, lista três barragens: a Tabajara em Rondônia, a Castanheira em Mato Grosso e a Bem Querer em Roraima.

Essa última barragem bloquearia o Rio Branco, assim chamado por sua cor, causada pela alta carga de sedimentos que carrega. Esses sedimentos criaram e mantêm o Arquipélago das Anavilhanas, um parque nacional cujas 400 ilhas no Rio Negro a jusante da confluência com o Rio Branco formam um dos maiores arquipélagos ribeirinhos do mundo. Seus ecossistemas pantanosos dependem dos sedimentos do Rio Branco e são considerados de importância internacional por sua diversidade biológica.

Em conjunto com este projeto, o mais recente 'Plano Nacional de Energia' do Brasil, que vai até 2050, inclui a barragem do Chacorão, no rio Tapajós, que inundaria parte das Terras Indígenas Munduruku, além das barragens do Tapajós e seu afluente Jamanxim, que inundaria parte de Sawré Muybu, outra área Munduruku que até agora não teve a designação de Terra Indígena justamente para dar lugar a essas barragens."


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