Semana On

Quarta-Feira 16.jun.2021

Ano IX - Nº 447

Poder

PF quer saber se foi burrice ou má fé governo federal bancar sites pró-AI-5

Investigação tem indícios de que o governo financiou páginas e pessoas que propagaram manifestações contra a democracia e pelo fechamento do Congresso Nacional e do Supremo. Relatório parcial aponta envolvimento do Palácio do Planalto

Postado em 25 de Setembro de 2020 - Leonardo Sakamoto (UOL), Bela Megale (O Globo), Paulo Roberto Netto (Estadão) – Edição Semana On

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A Polícia Federal investiga indícios de que o governo Bolsonaro financiou páginas e pessoas que propagaram manifestações contra a democracia e pelo fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal na internet. Relatório parcial, revelado pelo jornal O Globo, aponta envolvimento do Palácio do Planalto através de publicidade oficial.

"A investigação tem o objetivo de checar se essa ocorrência se deu por culpa ou por ação ou omissão deliberada de permitir a adesão da publicidade do governo federal, e a consequente monetização, ao conteúdo propagado", escreveu a delegada Denisse Ribeiro, que cuida do caso, de acordo com reportagem de Bela Megale e Aguirre Talento.

Traduzindo: a PF quer saber se o governo Jair Bolsonaro foi burro o bastante para colocar, por engano, dinheiro público em páginas que promoviam atos que pediam um novo Ato Institucional número 5. Ou foi apenas criminoso para fazer isso de forma consciente e objetiva.

Pois as mesmas ferramentas usadas para evitar a presença de propaganda do governo federal em sites que promovem a pedofilia também podem ser empregadas para evitar anúncios naqueles que incentivam o ataque a instituições da República. Não é feitiçaria, é tecnologia.

Considerando isso, a equipe do governo pode ter sido incompetente, o que é grave, ou deliberadamente criminosa, o que comprovaria que a sede do Poder Executivo se tornou a festa da fruta.

Acusado de manter um "Gabinete do Ódio" nas instalações do Palácio do Planalto para difundir desinformação e atacar críticos ao seu governo, Bolsonaro já havia promovido atos golpistas com sua participação ou com postagens de apoio em redes sociais.

No dia 19 de abril, o presidente discursou em uma manifestação que pedia um AI-5, em frente ao Quartel General do Exército, em Brasília. Sendo que, no dia 15 de março, ele já havia se dirigido, com carinho, a uma multidão que pedia golpe militar e fechamento do Congresso Nacional e gritava "AI-5! AI-5! AI-5!" em frente ao Palácio do Planalto.

Confirmando-se o financiamento da publicidade de atos antidemocráticos, o presidente sobe mais um degrau em sua escada de crimes de responsabilidade.

Há várias formas de atacar a República. O desmonte nas instituições de monitoramento e controle que Bolsonaro tem realizado cuidadosamente é outra delas. Com isso, já digeriu o Coaf, a Receita Federal, a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República, o Incra, a Funai, o ICMBio, o Ibama. A terra arrasada gerada por seu governo nessas duas últimas podem ser comprovadas do espaço, através das chamas que consomem o Pantanal e a Amazônia.

Com o crescimento de sua popularidade causada pelo auxílio emergencial, a aquisição do apoio do Centrão no Congresso Nacional e sua proximidade com o procurador-geral da República, não se vislumbra a possibilidade, no curto prazo, de um processo por crime de responsabilidade ter sucesso.

Isso não significa que não dê azia, angústia e vergonha vermos indícios de que o presidente da República queimou a Constituição.

O esgarçamento institucional, resultado disso, é irreparável. Além de uma montanha de mortes pela covid e desemprego, Bolsonaro vai entregar uma democracia menor quando sair. Se sair, é claro.

Eduardo e suas bravatas

Em depoimento de cerca de sete horas prestado à Polícia Federal no último dia 22, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) foi perguntado sobre uma declaração que fez em maio, quando disse que não era mais “uma opinião de se, mas quando” haveria uma ruptura institucional no País. A fala foi dita em uma live do site Terça-Livre, do blogueiro Allan dos Santos, um dos investigados no inquérito sobre os atos antidemocráticos e que saiu do Brasil.

“Eu até entendo quem tenha uma postura mais moderada, vamos dizer, para não tentar chegar em um momento de ruptura, um momento de cisão ainda maior, um conflito ainda maior. Eu entendo essas pessoas que querem evitar esse momento de caos, mas, falando bem abertamente, opinião do Eduardo Bolsonaro, não é mais uma opinião de se, mas de quando isso vai ocorrer”, disse o filho do presidente Jair Bolsonaro, na ocasião.

Segundo envolvidos na investigação, o deputado afirmou que aquele foi um momento de tensão e que essa declaração não caberia hoje. No mesmo dia da entrevista, Allan do Santos e outros apoiadores do presidente Jair Bolsonaro tinham sido alvos de buscas da PF no âmbito do inquérito das fake news.

A delegada Denisse Dias Ribeiro, que conduziu o depoimento e que está à frente das investigações, levou cinco folhas de perguntas para o deputado. O depoimento de Eduardo tem cerca de dez folhas.

Os ‘ovos” do Carluxo

O vereador Carlos Bolsonaro reclamou nas redes sociais sobre a divulgação de depoimentos colhidos pela Polícia Federal no inquérito que apura o financiamento e organização de atos antidemocráticos.

“Atos antidemocráticos são meus ovos na goela de quem inventou isso! Milhares vão às ruas espontaneamente e devido a meia dúzia esculhambam toda a democracia. Tentam qualificar a vontade popular como algo temerário”, reclamou Carlos Bolsonaro. “DEPOIMENTOS SIGILOSOS vazados ilegalmente mais uma vez para manter uma narrativa de desgaste diário. A biografia e os bilhões de reais perdidos fazem isso com a vontade de uma nação! PQP!”.

Carlos Bolsonaro já foi ouvido pela Polícia Federal no inquérito. Em depoimento, ele disse que nunca utilizou verba pública para manter canais e perfis em redes sociais e que não é ‘covarde ou canalha’ para contratar ‘robôs’ para difundir conteúdo e omitir essa informação.

“Perguntado se se utilizou de robôs para impulsionamento de informações em redes sociais envolvendo memes ou trabalhos desenvolvidos pelo governo federal, respondeu que “jamais fui covarde ou canalha ao ponto de de utilizar robôs e omitir essa informação”, disse ele.

Intervenção militar

O Estadão revelou trechos do depoimento do tenente-coronel Mauro Cid, assessor de Bolsonaro, que foi confrontado com conversas mantidas com o blogueiro Allan dos Santos.

Segundo os investigadores, Allan dos Santos enviou no dia 31 de maio um link de reportagem ao militar sobre grupos denominados ‘antifas’ – à época, os manifestantes protestavam contra o governo Bolsonaro.

No dia seguinte, 1º de junho, o militar respondeu: ‘Grupos guerrilheiros/terroristas. Estamos voltando para 68, mas agora com apoio da mídia’.

Allan dos Santos replicou: ‘As FFAA (Forças Armadas) precisam ENTRAR URGENTEMENTE’, ao que o tenente-coronel respondeu com um ‘Opa!’. Mauro Cid foi questionado pela PF e disse que o seu ‘Opa!’ era ‘apenas uma saudação, como, por exemplo, Bom dia!’, e não tinha relação com as mensagens do blogueiro.

O teor da conversa com o tenente-coronel Mauro Cid contradiz depoimento do próprio Allan dos Santos à Polícia Federal, em junho. Na oitiva, o blogueiro afirmou que é ‘crítico à intervenção militar’ e que não participa ou organiza atos antidemocráticos. Allan disse que sua participação nos eventos ‘se restringe a atividade profissional como jornalista’ e não como manifestante.

Depoimentos colhidos pelos investigadores também apontam que Allan dos Santos criou um grupo de WhatsApp com objetivo de organizar reuniões semanais com deputados bolsonaristas em sua residência, no Lago Sul, em Brasília, ‘para discutir temas relacionados ao governo federal com pessoas que estão dentro do governo’.

As informações foram confirmadas pelo assessor especial da Presidência, Tércio Tomaz, apontado como integrante do ‘Gabinete do Ódio’.

Tércio Tomaz afirmou que ‘nunca’ participou dos encontros, mas que continuou no grupo ‘como forma de se informar de temas de interesse’.

“Indagado quem participava desse grupo, respondeu que se recorda de Paulo Eduardo Martins, Daniel Silveira (Deputado federal pelo PSL-RJ) e outras pessoas de baixo escalão do governo”, apontou a PF. Silveira prestará depoimento nesta segunda, 21.

As reuniões na casa de Allan dos Santos com parlamentares da base do governo também foram confirmadas pelo deputado federal Paulo Martins (PSC-PR), ouvido no último dia 15. Ele disse à PF que integrou um grupo no WhatsApp chamado ‘Gengis House’ e que ‘acredita ter participado’ de um único encontro na residência do blogueiro, no ano passado.

Estavam presentes, segundo o parlamentar, os deputados Bia Kicis (PSL-DF) e Filipe Barros (PSL-PR), ‘além de outras pessoas, mas não se recorda no momento’.

“Indagado sobre os assuntos que eram tratados nessas reuniões, respondeu que tratavam sobre pautas conservadoras e articulações políticas para viabilização de tais pautas”, apontou a PF. Paulo Martins citou a ‘reforma da previdência’ como exemplo. “Indagado sobre quais assuntos eram tratado nesse grupo de WhatsApp, respondeu que eram abordados temas políticos, de comunicação, de acontecimentos e assuntos de interesses gerais que tinham repercussão”.

Allan dos Santos é investigado no inquérito que apura o financiamento e organização de atos antidemocráticos. Ele alegou em julho ter deixado o Brasil. Investigadores suspeitam que ele tomou voo que saiu de São Paulo com destino ao México no dia 27 de agosto – não é confirmado se o país era o destino final do blogueiro. À época, o blogueiro havia sido alvo de buscas e teve as redes sociais bloqueadas por ordem do ministro Alexandre de Moraes.


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