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Terça-Feira 15.jun.2021

Ano IX - Nº 447

Poder

O que Guedes quer esconder, no caso BTG-Pactual

Em operação inédita, Banco do Brasil concedeu 88% de desconto à instituição fundada pelo ministro, na venda de carteira de títulos de crédito. Agora, BB mantém dados cruciais da transação em sigilo, e BTG obtém na Justiça censura sobre o episódio

Postado em 04 de Setembro de 2020 - Erick Gomes (Brasil de Fato), RBA - Edição Semana On

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O ineditismo e a nebulosidade na venda de uma carteira de títulos de crédito do Banco do Brasil (BB) ao BTG Pactual, em julho deste ano, causou estranheza no mercado financeiro e até aos servidores do banco.

O BB nunca havia operacionalizado direitos de crédito (FIDC-NP) a uma instituição privada. O valor chama a atenção: a carteira, cujo valor contábil é de R$ 2,9 bilhões, foi cedida por R$ 371 milhões – ou seja, por cerca de 12% do valor total.

Os títulos cedidos são sobre dívidas que o banco contrai de devedores (indústria, comércio ou pessoas físicas) e transforma em produto no mercado financeiro. A maior parte da carteira em questão, segundo o BB, é de títulos “podres”, quando a dívida já tem mais de cinco anos e dificilmente será paga ao banco.

Diante dos valores nunca praticados na instituição, a Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil (ANABB) reagiu à transação, cobrou esclarecimentos da direção do banco, internamente, e também pediu investigação ao Tribunal de Contas da União (TCU).

A economista Érika Gallo, especialista em Economia Monetária e Financeira e doutoranda do Instituto de Economia da Unicamp, afirma o que mais preocupa neste caso é a obscuridade da carteira – afinal, quem são os devedores? Segundo ela, a resposta não dada é o que poderia dizer se a operação atende a interesses privados ou não.

“A gente não sabe qual é a composição dessa carteira. Ele [Banco do Brasil] só falou que a maior parte é de título podre, mas a maior parte quanto? Quem são os devedores? Não está aberta essa informação ao público. Então, não sabemos até que ponto é difícil de receber, porque uma coisa é você vender uma carteira de títulos de pessoa física – a pessoa perdeu o emprego, até arranjar outro vai demorar -, outra coisa é ter título de crédito de empresa, que é relativamente ok”, explica.

A economista questiona se os títulos realmente são “podres”. Ela diz estranhar o fato de o BTG comprar algo que poderia gerar grande prejuízo. “O BTG, sendo um banco privado, compraria realmente uma carteira com 80% de título ‘podre’? Acredito que não. Acredito que os analistas de risco do BTG são muito profissionais e acho muito difícil eles terem feito esse tipo e negócio”.

Quando anunciou a venda, o Banco do Brasil reforçou que a prática inédita deve se tornar rotineira. Para Érika, trata-se de um passo largo rumo à privatização total prometida pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, um dos fundadores do BTG.

“São fundamentos que o Guedes está tentando colocar. O plano é vender o Banco do Brasil, privatizar 100% dele. Quanto menos dívida o banco tem, mais fácil de você vender. Nenhum outro banco vai querer comprar um banco cheio de dívida”, pondera.

A economista ressalta que a ação de Guedes é contrária ao interesse público. “Ele está tentando melhorar a saúde financeira do banco. Ele está fazendo isso não para melhorar o Banco do Brasil, mas para apontar para o mercado que o Banco do Brasil vale a pena ser comprado”.

Presidente da OAB manifesta solidariedade ao GGN após censura judicial

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz, usou o Twitterpara manifestar apoio aos jornalistas Luis Nassif e Patrícia Faermann, do GGN, que estão sendo processados pelo banco BTG Pactual.

Por ordem judicial, o site precisou retirar do ar, no último final de semana, 11 reportagens exclusivas, publicadas nos últimos meses, sobre negócios envolvendo o banco.

“Questionar a venda de créditos avaliados em 3 bilhões por 371 milhões é absolutamente legítimo, para não dizer obrigatório. Os brasileiros têm direito a uma explicação e os jornalistas que suscitaram a questão, Luís Nassif e Patricia Faermann, merecem apoio, jamais censura”, escreveu o presidente da OAB.

Em sua sentença, o juiz da 32ª Vara Cívil do Rio de Janeiro afirmou que a imprensa deve ser livre, mas não para “causar danos à imagem de quem quer que seja”. Sem entrar no mérito das denúncias feitas pelo GGN sobre o BTG, ele ainda anotou que o “pequeno jornal”, como definiu o site, “transbordou os limites da liberdade de expressão”. O GGN vai recorrer da decisão.

O GGN recebeu apoio de jornalistas, políticos, acadêmicos, artistas, influenciadores e sites da imprensa independente. A ABI (Associação Brasileira de Imprensa) manifestou solidariedade e entrará no processo nas instâncias superiores como “amicus curiae”.

ex-presidente Dilma Rousseff e o governador Flávio Dino afirmaram que a decisão é genérica e inconstitucional. O ex-presidenciável do PT, Fernando Haddad, disse que a grande mídia deve defender a liberdade de imprensa e dar continuidade às reportagens sobre o BTG enquanto a Justiça não revisa a decisão do magistrado do Rio.

Adnet ‘explica’ caso BTG: ‘Estão roubando de braçada’

“Estão roubando de braçada no Brasil”, afirmou o humorista Marcelo Adnet em seu programa Sinta-se em Casa, da Globoplay, na terça-feira (1º), com uma imitação do ex-governador do Ceará e ex-candidato à presidência pelo PDT Ciro Gomes.

“Isso não é o camarada que pula o muro, porque está com fome e rouba a galinha do vizinho para comer. Isso é comprar papéis do Banco do Brasil, que têm o valor de R$ 3 bilhões, com ‘b’ de bananada, e comprar por um pouco mais de R$ 300 milhões, com ‘m’ de mariola. Isto é, estão roubando de braçada no Brasil. Eu tenho dito isso e nós temos que repercutir isso. Cria aí, turma boa, uma hashtag simples: #Paulo Guedes, por que será que o seu banco comprou por 300 e poucos milhões papéis públicos do Banco do Brasil, que pertence ao povo soberano brasileiro, de 3 bilhões de reais…”, disse Adnet.

O “verdadeiro” Ciro Gomes já havia se manifestado na segunda-feira (31) sobre a operação altamente lucrativa. “Sabe quantas vezes na sua história o Banco do Brasil fez isso? Nunca”, disse Ciro Gomes.


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