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Quarta-Feira 29.set.2021

Ano X - Nº 461

Brasil

O Brasil vive a banalização da morte?

Mesmo após 120 mil mortes, aprovação do governo e de Bolsonaro na gestão da pandemia crescem

Postado em 27 de Agosto de 2020 - Dri Delorenzo e Fabíola Salani (Fórum), Igor Carvalho (Brasil de Fato), Edison Veiga (DW) – Edição Semana On

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Apesar das quase 120 mil mortes por coronavírus no país e quase 4 milhões de casos, a atuação do governo federal na gestão da pandemia é considerada ótima e boa por 35,1% da população, regular por 28% e ruim e péssima por 34,1%. Ou seja, é mais bem avaliada do que mal na opinião dos brasileiros. Este é um dos dados revelados pela 5ª Pesquisa Fórum, realizada em parceria com a Offerwise sob consultoria de Wilson Molinari. O levantamento ouviu a opinião de mil pessoas, em todas as regiões do país, entre os dias 21 e 24 de agosto.

Chama a atenção ainda que houve um crescimento na avaliação positiva (ótimo e bom) entre a última edição da Pesquisa, realizada em julho, e esta, de agosto. No mês passado, 28,2% achavam a gestão do governo ótima e boa. O regular manteve-se estável, eram 29,3% em julho. Já a rejeição diminuiu, eram 39,2% que consideram a atuação ruim e péssima na edição anterior.

Vale lembrar que no início da pandemia, quando as ações do governo eram lideradas pelo então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, a aprovação era bem maior, chegava a 46,5% de ótimo e bom. Entre abril e maio, houve uma queda na avaliação positiva, que se manteve estável em junho e julho, mas agora voltou a subir, mesmo sem um titular na pasta, comandada interinamente pelo general Eduardo Pazzuello.

Se não bastasse a melhora na avaliação do governo federal na gestão da pandemia, a avaliação de Jair Bolsonaro também apresentou elevação se comparada à última edição da Pesquisa Fórum. Em julho, 29,1% dos entrevistados diziam que a atuação do presidente era ótima e boa, em agosto são 37%. No mês passado, 22,2% consideravam regular, este mês são 21,8%. Já o ruim e péssimo eram 45% e agora são 38,9%.

O que explicaria a retomada da aprovação mesmo sem o país ter vencido o vírus?

Em abril, na mais alta avaliação do governo, Bolsonaro convocou cadeia de rádio e TV para dizer que a doença não passava de uma “gripezinha” e que só deviam ficar em casa os idosos e as pessoas com comorbidades. Depois disso seguiu na mesma linha, com declarações como “e daí” e “não sou coveiro”. Passou a defender o uso de cloroquina no tratamento da covid-19, o que não encontra respaldo científico até o momento.

Em agosto, Bolsonaro retoma a mesma avaliação que tinha no início da pandemia e o governo federal realiza uma cerimônia para anunciar que o Brasil estava vencendo a Covid.

O que tende a explicar a melhora das avaliações do governo e de Bolsonaro é o pagamento do auxílio emergencial.

Esta mesma edição da Pesquisa Fórum mostra que 13,8% dos entrevistados melhoraram sua avaliação em relação a Bolsonaro por causa do benefício. Eles representam 35,8% daqueles que recebem os recursos.

Em abril, Anvisa alertou Bolsonaro que cloroquina não deveria ser usada contra covid

No dia 9 de abril, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) enviou ao Ministério da Saúde e ao Comitê de Crise para Supervisão e Monitoramento dos Impactos da Covid-19 uma nota informativa desaconselhando o uso de hidroxicloroquina no tratamento para coronavírus.

“Recomendamos ao Ministério da Saúde e Comitê de Crise para Supervisão e Monitoramento dos Impactos da Covid-19 que os comprimidos de hidroxicloroquina fabricados pelo Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército e pelo Instituto de Tecnologia em Fármacos - Farmanguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz, sejam destinados exclusivamente às indicações terapêuticas já aprovadas por esta Anvisa e que constam na bula do medicamento”, aponta a nota assinada pelo diretor da entidade, o almirante Antônio Barra Torres.

Ainda de acordo com a nota, a Anvisa demostrava preocupação com o atendimento das pessoas que realmente necessitam do medicamento. No documento, a agência afirma que o estoque de hidroxicloroquina à época, 8,8 milhões de comprimidos, “equivaleria a aproximadamente 3 (três) meses de tratamento dos pacientes malária, lúpus ou artrite reumatoide, ou seja, daquelas indicações terapêuticas aprovadas em bula.”

Dias antes, em 27 de março, o governo brasileiro havia anunciado que a hidroxicloroquina seria liberada para uso em pacientes com a covid-19, desde que apresentassem uma receita assinada por um médico. Em seu site, a Anvisa divulgou uma nota, no dia 31 de março, com as regras para o uso do medicamento.

“O Ministério da Saúde (MS) divulgou que disponibilizará os medicamentos cloroquina e hidroxicloroquina para uso em pacientes com formas graves da covid-19, a critério médico. A decisão foi baseada em estudos promissores que demonstram o potencial benefício do uso em pacientes graves”, afirma a Anvisa na nota, obtida pelo coletivo Fiquem Sabendo.

Para o deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP), ex-ministro da Saúde, o documento não poderia ser ignorado pela presidência da República.

“Mais um crime de responsabilidade de Bolsonaro: ignorou uma nota técnica da Anvisa que não recomendava o uso da hidroxicloroquina. O governo transforma o debate da cloroquina em um ato político, contudo é científico. Ao ignorar a Anvisa, o governo mostra que seu compromisso não é com a vida, mas sim, com a produção de fake news [notícias falsas]".

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) é o principal defensor da hidroxicloroquina no país, mesmo sem comprovação científica da eficácia do medicamento. Pelo contrário, pesquisas no Brasil e em outros países mostram que o medicamento não deve ser utilizado no tratamento da covid-19.

No último dia 6 de agosto, Bolsonaro afirmou que, se for necessário, solicitará aos EUA mais unidades do medicamento.

 "Aceitei do presidente Trump a doação de 1 milhão de comprimidos, que ainda não foram distribuídos porque a cartela deles tem 100 comprimidos. E se o Trump, nós tivermos necessidade aqui de mais comprimidos, pode ser que haja mais necessidade, eu não tenho problema nenhum de ligar para o presidente norte-americano, se tiver mais, manda para nós, a gente manda um avião buscar ou ele manda um avião para cá e a gente distribui esse material aí", disse.

Banalização da morte

Há mais de três meses, em 19 de maio, o Brasil registrou pela primeira vez mais de mil mortos em 24 horas em decorrência da covid-19. Desde então, a situação epidemiológica do país, que já soma oficialmente mais de 113 mil óbitos pela pandemia, estabilizou-se em um trágico platô.

Se a situação sanitária parece longe de estar sob controle, por outro lado os discursos são de retomada de economia: há dois meses as atividades vêm sendo gradualmente reiniciadas em todo o território nacional, o isolamento social se afrouxa, e está sendo discutida a reabertura das escolas.

Para o antropólogo, cientista social e historiador Claudio Bertolli Filho, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e autor do livro História da Saúde Pública no Brasil, o país vive um cenário de "banalização da morte”.

Ele entende que isso é decorrente de uma dimensão política — a maneira como o governo federal conduziu e conduz a situação —, de uma aceitação social — o discurso de que "demos azar" ou de que quem tem comorbidades iria "acabar morrendo mesmo” —, e por fim, de aspectos culturais.

"O presidente Jair Bolsonaro é fruto da sociedade brasileira, que, historicamente, banalizou a morte, desde aquele papo que ‘bandido bom é bandido morto'", diz Bertolli Filho. "Há ainda uma tendência de nossa cultura, para sobrevivermos psicologicamente, a enfrentar o momento pandêmico negando as mortes, mostrando-nos imunes a elas."

"É quando rejeito pensar que aquele que morreu é parecido comigo e eventualmente poderia ser eu próprio. Quem morreu é ‘o outro', o ‘da periferia', o que ‘tinha comorbidades', o que ‘não seguiu as normas sanitárias'", exemplifica o acadêmico.

Já para o historiador e sociólogo Mauro Iasi, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor de Política, Estado e Ideologia, a sequência diária de mortes, transformadas em estatística, acaba naturalizando-as à população.

"Quando nos vemos diante de um número elevado de mortes, como em um acidente, por exemplo, isso nos choca pela quebra desta aparente casualidade. No caso da pandemia, o ritmo diário das mortes, sua matematização pelas estatísticas, tende a devolver o fenômeno para o campo da casualidade, naturalizando-o", argumenta ele.

Iasi exemplifica citando as mortes provocadas anualmente pela ação da Polícia Militar no Brasil — 5.804 em 2019. "A rotinização do fato faz com que se banalize o fenômeno, como parte da vida e, portanto, abrindo espaço para sua negação."

Pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), o jornalista, economista e cientista político Bruno Paes Manso compara a sensação transmitida pelas mortes do coronavírus àquela em relação as vítimas de homicídio no país.

"Os grupos que morrem são vistos como aqueles que, de alguma forma, tinham justificativa para morrer. No caso dos homicídios, são as pessoas ‘que procuraram seu próprio destino'. [Para a opinião pública] a vítima é culpada da morte: são negros, pobres, moradores de periferia, suspeitos de serem traficantes", comenta. "Existe uma certa ilusão de que as mortes se restringem a determinados grupos vistos pelas pessoas como aqueles que ‘podem morrer'. Isso gera não a banalização, mas uma tolerância a esse tipo de ocorrência."

Ele acredita em uma lógica um tanto parecida nos óbitos decorrentes do coronavírus. Na racionalização, aponta o pesquisador, a opinião geral é de que a doença não atingiria os próximos, mas sim aqueles vistos como "o outro": o idoso, aquele com comorbidades, os de alguma forma mais vulneráveis. Este raciocínio é balizado pelo que ocorre nas principais cidades — em geral, os distritos com maior número de mortos estão localizados nas periferias.

Desamparo

"O medo da morte iminente que vem junto com a pandemia mobiliza tanto conteúdos de medo e de desamparo, quanto uma espécie de negação coletiva, já que não existe nenhuma figura real de autoridade, nem na ciência, nem na política, que dê conta de ‘funcionar' como figuras paternas ou maternas que possam cuidar ou proteger contra a morte", analisa a psicóloga Nancy Ramacciotti de Oliveira-Monteiro, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "Até porque, em todo o mundo, por enquanto, ninguém sabe ainda como vencer essa ameaça comum a todos os seres humanos, com exceção da esperada chegada de vacinas."

Ela lembra que o fato de essas mortes serem divulgadas diariamente por meio de estatísticas numéricas também dificulta a "identificação" por parte da população. Isso só não ocorre, pontua a professora, quando as mortes chegam a círculos próximos ou vitimizam alguma celebridade.

Para o psicólogo Ronaldo Pilati, professor da Universidade de Brasília (UnB), o fenômeno não pode ser chamado de "banalização", mas sim de "minimização". Ao recordar da comoção que houve no Brasil quando a Itália registrava cerca de mil mortes em um dia, por exemplo, ele ressalta que era um momento em que os brasileiros estavam "mais atentos e conectados à questão", já que o mês de março foi quando diversas medidas de quarentena e isolamento social foram implementadas de fato.

"Com o passar do tempo e a maneira ineficiente com que o Brasil enfrentou a pandemia, houve uma mudança de comportamento", observa. "Não houve enfrentamento coordenado [da questão] e isso confirmou a expectativa de desamparo que o brasileiro tem quando depende do Estado para a resolução de problemas."

No livro Death Without Weeping: The Violence of Everyday Life in Brazil, a antropóloga americana Nancy Scheper-Hughes relata como mães brasileiras de favelas com altos índices de mortalidade infantil acabam lidando com os óbitos de seus filhos. Para a pesquisadora, a impotência faz com que essas mulheres acabem se conformando com a partida daqueles "mais fracos", exercendo uma espécie de triagem para favorecer os bebês mais saudáveis, com mais "talento para viver".

Professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o antropólogo e sociólogo Marko Monteiro concorda que essa sensação é decorrente da desigualdade social brasileira. "Convivemos com a morte historicamente, desde a formação do país, a maneira violenta como foi construída a nação. Nossas ações cotidianas são permeadas por violência”, resume. "A banalização é consequência disso: os números mostram que quem está morrendo mais são as pessoas de áreas periféricas, negras, sem acesso… São os fatores modificáveis."

"Então temos mecanismos sociais e psicológicos para conviver com essas mortes, que muitos consideram inevitáveis. É a clássica atitude do ‘eu não sou coveiro', do ‘e daí?'… Por que isso ressoa em muita gente? Porque há a ideia de as mortes eram inevitáveis, que essas pessoas morreriam de qualquer jeito", afirma.


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