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Segunda-Feira 27.set.2021

Ano X - Nº 461

Campo Grande

Prefeito de Campo Grande apela para ‘terraplanismo’ científico no combate a Covid-19

Enquanto a ciência alerta para a ineficácia do medicamento, Marquinhos Trad insiste na Cloroquina

Postado em 24 de Julho de 2020 - Redação Semana On

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Enquanto a comunidade científica internacional e nacional condena de forma esmagadoramente majoritária o uso da hidroxicloroquina no tratamento da Coivid-19, em Campo Grande o prefeito Marquinhos Trad insiste na adoção do chamado “tratamento precoce” da doença, que nada mais é do que o uso deste e outros medicamentos mesmo diante de dados científicos que demonstram sua ineficácia para com a doença e, ainda, graves efeitos colaterais.

Em debate realizado no último dia 22, especialistas criticaram hospitais privados e planos de saúde que têm ministrado o chamdo “kit covid” para tratamento da doença causada pelo novo coronavírus. A receita inclui medicamentos como cloroquina (e seu composto, a hidroxicloroquina), ivermectina e azitromicina, e tem sido aplicada em casos suspeitos ou confirmados de covid-19.

O debate sobre a eficácia do coquetel de medicamentos foi realizado pela Ciência USP. Frederico Fernandes, doutor em pneumologia e médico assistente no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, explicou que a criação sobre o “kit covid” é mais político do que técnico.

O especialista é defensor da autonomia dos profissionais da saúde, mas explica que as entidades médicas precisam apresentar aos seus integrantes notas técnicas sobre a não eficácia daqueles medicamentos contra a covid-19.

“A Associação Médica Brasileira soltou um comunicado absolutamente político acusando os médicos de ‘torcerem pelo vírus’. Eles disseram defender a autonomia do médico, mas não é verdade. Quando estou informado sobre risco-benefício e sei que o risco é maior, o que eu faço é imprudência. Então, erro médico não é autonomia”, afirmou

No último dia 20, a AMB defendeu, por meio de uma nota oficial, a autonomia do médico em relação à prescrição da hidroxicloroquina como forma de combate à covid-19. A associação ainda pediu o fim do que chamou de “politização sobre o medicamento”, que não tem eficácia comprovada para o combate do novo coronavírus.

Frederico explica que o kit é composto por medicamentos indicados para outras doenças, o que significa que pode não ser seguro para o tratamento da covid-19. Ele relata diversos casos de pacientes com quadros graves de arritmia cardíaca após tomarem a hidroxicloroquina.

“O paciente com covid mais idoso pode ter problema cardiovascular e, com uma infecção viral aguda, tudo isso pode levar à arritmia. A gente desconhece a segurança no contexto da covid. Esses kits têm estimulado também o uso precoce de corticoides, o que pode levar à replicação viral”, afirmou.

Izabella Pena, pesquisadora no Whitehead Institute, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Boston, criticou especialmente a presença da ivermectina no “kit covid”. Segundo ela, o uso do medicamento é baseado num estudo australiano que não passou do teste pré-clínico.

“É uma evidencia in vitro, ou seja, fora dos seres vivos. Além disso, foi feita com uma dosagem impossível de circular no sangue do ser humano. Já tem estudos mostrando efeitos colaterais dessa dosagem da ivermectina, como a morte de células. A cloroquina tem mais de 200 testes e a maioria são fúteis, com ensaios científicos sem controles e inúteis. Portanto, você vê vários compostos sendo testados com baixa capacidade de funcionar”, aponta.

Estudo comprovou ineficácia

Um amplo estudo liderado pelos principais hospitais privados do Brasil apontou que a hidroxicloroquina não tem eficácia no tratamento de pacientes internados com quadros leves ou moderados de covid-19. As conclusões foram publicadas na quinta-feira (23) no The New England Journal of Medicine. Segundo o estudo, a administração da hidroxicloroquina, combinada ou não com o antibiótico azitromicina, não melhorou as condições de pacientes com coronavírus.

Os autores ainda verificaram que os pacientes que utilizaram os medicamentos tinham uma tendência maior a apresentar alterações nos exames de eletrocardiograma, apontando arritmia, e de sangue, indicando o risco de lesão hepática. Esse é o maior estudo com a hidroxicloroquina feito até agora no Brasil.

No último dia 17, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) também afirmou que “a hidroxicloroquina deve ser abandonada em qualquer fase do tratamento da covid-19”. Em nota, a entidade destacou que dois estudos internacionais comprovaram que não há nenhum benefício clínico do medicamento para combater a doença causada pelo coronavírus.

Na avaliação da SBI, a substância não é eficaz nem na prevenção nem na cura da covid-19. Um dos estudos citados avaliou pacientes em 40 estados do Estados Unidos e três províncias do Canadá. O grupo que recebeu hidroxicloroquina, em comparação aos pacientes que receberam placebo, não teve redução nos sintomas. Mais da metade deles recebeu a substância um dia depois de sentir mal-estar. Cerca de 43% tiveram efeitos colaterais como dores abdominais, diarreia e vômitos.

Outro estudo não detectou nenhum avanço clínico ou virológico entre aqueles que tomaram hidroxicloroquina e receberam placebo. A pesquisa foi realizada na Espanha, com 293 pacientes e publicada no periódico científico Clinical Infectious Diseases. Após 28 dias de uso do medicamento, 25,7% dos pacientes morreram, ante 23,5% dos que receberam outro tratamento. 

“Com essas evidências científicas, a SBI acompanha a orientação que está sendo dada por todas as sociedades médicas científicas dos países desenvolvidos e pela Organização Mundial de Saúde (OMS) de que a hidroxicloroquina deve ser abandonada em qualquer fase do tratamento da covid-19”, diz a nota da SBI.

A entidade também pede que os órgãos públicos reavaliem orientações de uso de medicamentos comprovadamente sem efeito e que os recursos públicos sejam usados em anestésicos, bloqueadores neuromusculares e aparelhos para o tratamento da doença, em falta na rede pública. 

Enquanto isso, em Campo Grande

Apesar dos avisos dos cientistas, o prefeito de Campo Grande chegou a usar as redes sociais para incentivar o tratamento precoce da Covid-19 e pedir o medicamento hidroxicloroquina ao presidente Jair Bolsonaro.

Em vídeo gravado na rede social do médico Sandro Benites, um dos responsáveis pelo “protocolo” para tratamento precoce na Capital, o prefeito fez o apelo, já que a administração municipal está encontrando dificuldade de encontrar o medicamento. No vídeo, Benites afirma que a Covid-19, "assim como todas as outras, se for atacada de maneira precoce, na fase inicial da doença ela vai ser combatida de uma maneira mais simples, mais eficaz e mais barata".

A ação foi criticada pelo secretário estadual de Saúde, Geraldo Resende, devido à falta de evidências de que os medicamentos sejam eficazes no tratamento da doença. Segundo o secretário, as pessoas que advogam em favor destes medicamentos estão muitas vezes lastreados em informações sem evidências científicas.


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