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Sexta-Feira 17.set.2021

Ano X - Nº 460

Brasil

50% dos negros no Brasil já foram constrangidos pela polícia, diz pesquisa

Estudo do Instituto Locomotiva e da Cufa diz que 54% dos pretos e 29% dos pardos creem que ‘a polícia é perigosa para pessoas como eu’

Postado em 09 de Julho de 2020 - Carta Capital, Catarina Barbosa (Brasil de Fato) – Edição Semana On

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Um estudo divulgado no último dia 8 aponta que 50% dos negros sofreram algum tipo de situação de violência policial no Brasil, enquanto 4 em cada 10 brasileiros de periferia relatam ter sofrido algum constrangimento do tipo. O levantamento é do Instituto Locomotiva, em parceria com a Central Única de Favelas (Cufa), e foi apresentado em transmissão ao vivo de um fórum promovido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Com o tema “Periferia, Racismo e Violência”, a pesquisa ouviu 1.826 brasileiros, entre 29 e 30 de junho, negros e não-negros com pelo menos 16 anos, de todas as classes sociais e regiões no país. Os dados foram relatados pelo fundador e presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles.

Segundo a instituição, somente 5% dos brasileiros acreditam que a polícia no Brasil não é racista, enquanto 52% acreditam que a polícia é muito racista.

Os dados mostram que 29% dos brasileiros adultos declararam ter sofrido algum tipo de constrangimento durante uma abordagem policial. Meirelles frisa que o percentual equivale a 49 milhões de brasileiros, “população maior do que metade dos países do mundo”.

Se considerada a cor da pele, 54% dos pretos e 29% dos pardos ouvidos acreditam que “a polícia é perigosa para pessoas como eu”, enquanto apenas 17% das pessoas brancas concordam com a afirmação. Em relação ao poder aquisitivo, 69% das classes C, D e E também acreditam que a polícia é perigosa para pessoas como elas, e 37% dessas classes já sofreram algum tipo de constrangimento em uma abordagem policial.

De acordo com a pesquisa, 50% dos negros ouvidos afirmaram que já passaram por situações de constrangimento em uma abordagem policial, como desrespeito, agressão verbal, agressões físicas, extorsão, pedido de dinheiro ou de suborno. Se considerada a classe social, o levantamento atesta que os homens negros pobres estão mais expostos ao desrespeito policial do que os homens brancos pobres.

Primeiro, o estudo informa que 64% dos homens negros das classes C, D e E já foram abordados pela polícia.

Em relação aos abusos já sofridos, 42% dos homens negros de baixa renda já se sentiram desrespeitados quando abordados pela polícia, enquanto 34% dos homens brancos de baixa renda sentiram o mesmo. Além disso, 35% dos homens negros pobres já sofreram agressão verbal quando abordados pela polícia, contra 27% dos homens brancos na mesma condição social. Sobre as agressões físicas, 19% dos homens negros de baixa renda declararam já ter sido vítimas, contra 12% de homens brancos pobres.

“Na favela, enquanto o jovem branco ainda tem a cor do poder, o jovem negro tem a cor da pobreza. Os jovens negros da periferia sofrem mais do que os jovens brancos da periferia”, ressaltou o presidente do Instituto Locomotiva.

Segundo a pesquisa, 56% dos negros (considerando pretos e pardos) já sentiram medo ao ver ou interagir com policiais em situações cotidianas. Entre os pretos, esse número sobre para 67%.

Mas a diferença também é notória se apenas consideradas as classes sociais. Enquanto 50% dos entrevistados das classes C, D e E declaram sentir medo ao interagir com forças de segurança, apenas 23% das classes A e B relatam o mesmo.

Entre as situações que provocam mais medo na população mais pobre, estão: passar por policiais nas ruas, ver policiais próximos a sua casa, passar perto de barreiros ou de postos policiais, precisar da ajuda de um policial, ser abusado por policiais e passar pela porta giratória de um banco.

A abordagem policial pode traumatizar as pessoas. Segundo conclusão da pesquisa, as pessoas que passaram por abuso policial passam a ter muito mais medo das abordagens da polícia. É o que dizem 60% dos entrevistados que relatam ter sofrido desrespeito; 64% das vítimas de violência verbal; 62% dos que sofreram violência física; 61% dos alvos de pedido de dinheiro.

A violência física é a principal responsável pelo trauma. Os dados apontam que 62% passam a ter medo da abordagem; 60% têm medo de passar por policiais; 59% relatam medo de precisar da ajuda de um policial; 59% dizem ter medo de ver a polícia perto de sua casa; 58% declararam sentir medo ao passar por barreiros. O trauma pode chegar a 4 vezes mais do que o relatado por pessoas que não sofreram agressão física policial, diz o levantamento.

A pesquisa é publicada pouco mais de um mês depois do assassinato de George Floyd, homem negro de 40 anos que morreu nos Estados Unidos após ser asfixiado por um policial branco chamado Derek Chauvin. O caso motivou protestos antirracistas em todo o país norte-americano. No Brasil, também ocorreram manifestações após o escândalo tomar os noticiários.

Conforme a pesquisa, 91% dos brasileiros souberam do caso George Floyd, 56% afirmam reconhecer casos similares no Brasil, e 83% dizem acreditar que casos como esse ocorrem com frequência.

O rapper e compositor Rappin Hood estava presente na transmissão da Unesco Brasil e contou que, aos 17 anos, voltava de um evento na Barra Funda, bairro de São Paulo, e presenciou a morte de um homem negro no metrô. Depois do caso, sua mãe quis que largasse o rap, mas ele diz ter visto ainda mais um motivo para seguir em luta.

“Eu tenho um garoto de 18 anos. Tenho medo de deixar o meu garoto ir para a rua, quando ele vai sair sozinho, eu sinto medo”, diz. “Será que realmente somos baderneiros? Somos arruaceiros? Vivemos um momento em que a polícia vai abordar uma pessoa num bairro de classe alta, e o morador diz: eu sou rico, aqui você não arruma nada. Enquanto, na periferia, o genocídio da juventude negra continua. Então, essa é a pergunta: quando vamos mudar a polícia brasileira?”, indagou.

Cor, gênero e classe: os desafios da mulher preta

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com base em dados de 2019, aponta que mais da metade dos brasileiros era de pretos ou pardos: 56,10%. As desigualdades podem ser verificadas em diversas estatísticas, contudo, elas são ainda mais gritantes quando se trata da mulher preta.

Na análise de Zélia Amador de Deus, professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), esse desafio se sustenta com base em três vertentes: o preconceito de gênero (vivido por toda mulher), o de raça (que versa sobre a população preta e parda) e o de classe (nos quais estão inseridos os mais vulneráveis).

Quando o assunto é mercado de trabalho para homens e mulheres pretos ou pardos, a discrepância é grande em relação aos brancos e atinge ambos os gêneros. Idem se o assunto é violência. 

O IBGE reúne as populações preta e parda de forma a garantir a sua representatividade em todos os indicadores. Os dados não deixam dúvidas: se a taxa de homicídio por cada 100 mil habitantes em 2017 era de 5,2 entre as mulheres brancas, isso duplica se comparamos às mulheres pretas ou pardas (10,1) e praticamente triplica quando falamos do homem preto ou pardo (185) quando comparado aos homens brancos (63,5).

Segundo o documento "Mapa da Violência 2015: Homicídio de mulheres no Brasil", em 2013, foram assassinadas 4.762 mulheres no país. Se por um lado a taxa de homicídio entre as mulheres brancas caiu de 3,6 por 100 mil em 2003 para 3,2 em 2013, a de mulheres negras, aumentou de 4,5 para 5,4 por cada 100 mil habitantes no mesmo período, ou seja, um crescimento de 19,5%. Isso significa que em 2013 foram assassinadas 66,7% mais negras do que brancas.

Por que a mulher preta é a maior vítima de homicídios?

A professora Zelia Amador de Deus é mulher negra e esteve à frente da política de cotas na Universidade Federal do Pará. Esse ano, ela recebeu o título de título de Professora Emérita pela instituição. Ao analisar a posição da mulher preta na sociedade, Amador explica que uma das forma onde isso se reflete é no assédio. 

 "Ela está sofrendo assédio pelo fato de ser mulher e negra. No primeiro caso é o gênero, no segundo, racismo e ainda por ser pobre, que é o terceiro caso, classismo. Ela sofre a partir desses três pilares", explica. 

Na análise de Amador a melhor política direcionada à mulheres pretas foi a PEC das empregadas doméstica, alvo de muitas críticas durante o governo Dilma. Este ano, o Ministro da Economia, Paulo Guedes, deu outra declaração preconceituosa contra as domésticas considerando que elas não deveriam poder viajar para o exterior. Atualmente, o governo não tem nenhuma iniciativa voltada exclusivamente para o combate à violência da mulher negra.

"A política pública que as afeta foi a PEC das empregadas domésticas porque a maioria delas é de mulheres negras. Hoje então é que não tem porque a Secretaria Especial de Promoção das Mulheres acabou, a Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. acabou. Eram secretarias com status de ministério mas que acabaram. Hoje mesmo é que você não tem políticas públicas voltadas a questão da mulher de modo geral e particularmente voltadas para mulheres negras que é o segmento mais vulnerabilizado", disse. 

O assédio que começa cedo

“Quando eu falo algo, é no intuito de fazer com que aqueles homens imaginem como seria se aquilo fosse com a filha, irmã ou uma grande amiga deles. Será que não conseguem perceber que é errado? Não sei se funciona, mas eu tento”. É assim que Nayara Cristina Câmara de 18 anos, reage às investidas de assédio masculino. 

Já a advogada Lorena Navarro, 32, diz que o assédio a acompanha desde a infância. Ela lembra que a primeira vez que tocaram seu corpo sem o seu consentimento foi em uma festa de rodeio em Paragominas, no sudeste do Pará. E ela tinha apenas cerca de dez anos, quando se deu conta de rapazes tocando suas pernas por baixo da arquibancada onde ela estava com o pai.

"Na hora, eu tomei um susto. Gritei. Mas quando meus pais me perguntaram o que tinha acontecido eu não tive coragem de contar. Já naquele momento, com 10 anos, eu tive vergonha de falar a verdade", lembra Navarro. 

Os relatos de assédio reforçam o que explicou a professora Zélia Amador. Os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2019 – com dados de 2018 – registraram 66.041 casos de violência sexual. Deste total, 81,8% das vítimas eram do sexo feminino e 53,8% tinham até 13 anos. Já as mulheres negras foram vítimas de 50,9% dos assédios.

"Eu passo na rua e os comentários sempre apontam para a minha cor: morena gostosa; mulata linda; negra qualquer coisa e por aí vai. Às vezes eu respondo, outras não, mas o fato sempre me incomoda e muito", conta Nayara Câmara. Ela diz que sabe que o assédio é vivido por todas as mulheres, mas afirma que a cor de sua pele é um incremento para homens assediadores.

Para Flávia Ribeiro, militante do movimento feminista negro e consultora para equidade de raça e gênero é urgente essa percepção de que as políticas públicas devem ser específicas, porque na análise dela quando a política pública é geral, acaba beneficiando as mulheres brancas. Ela faz críticas, à Lei Maria da Penha.

"Até um tempo atrás, as negras sequer eram consideradas como seres humanos. Os dados da violência são parte da herança histórica, que recai sobre elas. Embora sofram a violência de gênero, às mulheres brancas é dado uma dimensão de humanidade que é negado às mulheres negras. Por isso, se analisarmos os dados de violência como estupro, violência doméstica, feminicídio, as negras são as mais vitimadas. Por outro lado, as negras também são a maior parcela entre as mulheres encarceradas. A elas é dada uma pena maior quando rés e, quando vítimas, a pena para o culpado é mais branda, quando comparado com casos em que as mulheres brancas são vítimas", afirma Ribeiro. 

Ela diz ainda que corpos negros, sobretudo, das mulheres, foram hiperssexualizados durante a nossa construção histórica, fruto de um processo de desumanização das negras.

Juliana Keila Jeremias, mestra em psicologia e pesquisadora do Núcleo de Pesquisas sobre Gênero e Masculinidades da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), pontua, no entanto, que não é que as mulheres brancas não sejam vítimas de todas as violências citadas, mas é que a negação do Brasil como país racista dificulta a real necessidade de se combater os índices de violências contra a mulher negra.

“Existe o padrão de entender a mulher negra, desde o período colonial, como objeto para satisfazer o homem. Isso repercute no padrão de violência sexual porque se a mulher é objeto, o corpo dela pode ser violado. Um imaginário totalmente equivocado”, pontua Jeremias.

Ela acrescenta ainda a necessidade de se pensar políticas públicas com base na análise de classes. Segundo dados do Anuário de Segurança Pública 70,7% das mulheres assassinadas tinham apenas o ensino fundamental.

“Na nossa sociedade não dá para pensar muito em raças sem analisar a parte de classe social. Nós temos um número maior de mulheres negras em situação de pobreza. Isso faz com que essas mulheres não tenham acesso, por exemplo, a um nível de segurança que as mulheres brancas e ricas têm. A gente precisa andar mais de ônibus, trabalhar em horários em que saímos às ruas de noite. Não é que essas situações por si só causem a violência sexual, é que os homens, que praticam violência, se aproveitam dessas vulnerabilidades para praticar ainda mais violência”, explica.


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