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Domingo 25.jul.2021

Ano IX - Nº 453

Coluna

O Cavaleiro das Trevas e o abismo na porta principal

Há sempre um abismo na porta principal de cada Gotham City que habita o ser humano

Postado em 21 de Maio de 2020 - Clayton Sales

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Certa vez, um homem bêbado esbarrava nas pilastras de um terminal de ônibus em pleno início de madrugada carregando o peso de sua miséria. Quando o sujeito se sentou em um dos bancos, calhou do ônibus que eu esperava na época demorar para sair. Ao meu lado, ele começou suas lamentações com o desespero dos desgraçados submersos nos gargalos etílicos da noite. Uma delas, porém, merece menção. Ele disse que sua família o esperava em casa, mas tinha vergonha de voltar ao lar no estado em que se encontrava. Então, pediu-me um cigarro (eu fumava nessa época) para abafar o forte hálito alcoólico. Cedi um cigarro e o homem quase devorou o fumo de tanta vontade. Depois, retomou a sessão de lamúrias, afirmando que sempre foi ótimo pai e marido, mas que o mundo o condenava por ser um bêbado. Os próprios parentes o rejeitavam por causa disso. Ele me perguntou: "Por que que eu bebo, então? A bebida debocha de mim, zomba da minha cara, mas eu não consigo parar. Por quê?"

Na hora, captei uma estranha profundidade nessa questão. Principalmente, proveniente de um cidadão fora de seu juízo normal a quem não tive nem capacidade de responder de imediato. Imaginei o sorriso travesso de um espírito falsamente bondoso e prazeroso escondendo as piores armadilhas. Isso há quase 20 anos. Hoje, olho por outro prisma: essa tal de ética é a espada flamejante anjos implacáveis prontos a exterminar o que alguém investido de alguma autoridade moral "inquestionável" determina que é o mal? Quais são os limites e diálogos entre bem e o mal? Esses polos oponentes nunca se mesclam?

Para um exercício especulativo que tenta responder a essas indagações, recorro a uma diversão de quarentena: o filme "Batman – Cavaleiro das Trevas" (2008) de Christopher Nolan. Ao contrário da "pureza" lustrada com o pano da "virtude americana" do Superman, uma espécie de Destino Manifesto de capa e visão de raio-X, Batman (Christian Bale), sua indumentária escura e sua infindável riqueza financeira provocam nós complexos em certas estruturas morais que possuímos. Por várias vezes, na trama, ele abre mão de uma ação teoricamente correta em nome de um resultado maior e supostamente mais nobre, algo aristotélico como escolher entre a mentira necessária à felicidade e a verdade preciosa ao caráter. Como escolher entre salvar da morte seu grande amor Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal) e o promotor de justiça Harvey Dent (Aaron Eckhart), fundamental para o combate ao crime em Gotham City, alguém denominado por Batman de "verdadeiro herói". 

O tal promotor, bastião da justiça que botou "metade dos criminosos da cidade" na cadeia, é alvo de instigante percepção. Despojamento, coragem e oportunismo materializados em forma de homem engravatado, o representante da lei é possuído pelo mesmo demônio da indignação egoísta contra uma injustiça imediata. Então, esse agora angustiado promotor se transforma no vilão Duas-Caras, embora ele já tivesse esse apelido por causa de sua índole dúbia. Literalmente, ele tinha dois "semirrostos", um hemisfério normal e a outra metade facial devorada pelo fogo. Sua vida é curta, mas sugere situações que o homem vive hoje, em que a dicotomia entre fazer o bem e ser recompensado por isso é um conflito perturbador. Duas-caras parece um opositor patético, mas a pena pode ser uma rapineira antessala para a tirania, como ele demostrou ao falar em "ser homem decente em um tempo indecente" enquanto apontava a arma para uma criança. 

Todos na trama se deparam com autoquestionamentos. A polícia do comissário Jim Gordon (Gary Oldman), além do próprio, que causa a tristeza de esposa e filho, forjando a própria morte, mas ressurgindo depois. Talvez, uma mensagem de que o Estado protetor deva ser mais tolerado pela sociedade quando cometer erros ou transgredir as próprias leis que deve defender, pois é sempre para um suposto "bem maior". Gordon revela as fragilidades da engrenagem democraticamente constituídas para a garantia da ordem e tranqüilidade de um lugar. O mordomo Alfred (Michael Caine), representação sóbria da lealdade, bom senso e experiência, sonega a verdade a Bruce Wayne ao queimar um bilhete de Rachel em que ela declara sua paixão e intenções matrimoniais a Harvey Dent/Duas-Caras. Lucious (Morgan Freeman), símbolo de uma ética acima de qualquer suspeita, aceita a "recompensa" de Wayne/Batman por ter concordado em usar seus conhecimentos para um grampo em massa dos celulares de toda a Gotham City. Enfim, todos ostentam conflitos e os carregam com gradações distintas de aceitação.

Menos ele: o Coringa. Interpretado de forma perturbadora pelo saudoso Heath Ledger, Coringa pratica sua vilania de modo peculiar se comparado aos aos antagonistas até então habituais desse tipo de filme. Certas passagens da história remetem a forma com que o Satan desafia ao poder de Deus nas páginas da "Bíblia", questionando suas atitudes, cobrando o exercício de sua tão propalada bondade e saber, zombando de efeitos colaterais após uma determinada prática divina. Psicótico, frio e cômico, Coringa embaralha as cartas que compõem o senso moral, aquele que leva a cobrar legitimamente a solução para um crime hediondo, ao mesmo tempo que leva pessoas às ruas para clamar pelo linchamento tão criminoso quanto o crime hediondo que se deseja vingar. Ele pode ser uma analogia do próprio Diabo, não no que se refere ao seu poder, mas à capacidade de causar distúrbios na consciência. No final, Coringa perde. Claro, trata-se de uma produção hollywoodiana, mas sua derrota é assimilada com sonoras e mórbidas gargalhadas. Um deboche que deixa (literalmente) no ar a sensação de que a humanidade é um mar de pequenas, porém, irritantes injustiças. Coringa perde ganhando, pois Batman é obrigado a sacrificar sua reputação e Gordon é obrigado a manter a imagem heroica do facínora Duas-Caras.

Balbuciei ao bêbado um pálido "não fica assim, sua família te ama". Ele foi letal: "se amasse, eu não estaria aqui contando minha vida a um estranho". O fantástico grupo vocal Boca Livre já interpretava em acordes, letra e harmonia, essa coisa mística que as tiras da DC Comics e o filme de Christopher Nolan fazem emergir. Os versos são de Jards Macalé e Capinam e dizem: "Já não se fala de amor em Gotham City". Afinal, assim como Batman, Gordon, Dent, Lucious e Alfred, há sempre um abismo na porta principal de cada Gotham City que habita o ser humano. 


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