Semana On

Quinta-Feira 05.ago.2021

Ano IX - Nº 454

Coluna

Em queda livre

Idelber Avelar fala do deslizamento de popularidade do presidente, de pastores surtados e outras cositas mas

Postado em 02 de Abril de 2020 - Idelber Avelar

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Agora sim, temos a primeira pesquisa sobre aprovação do governo Bolsonaro posterior ao seu comportamento assassino no contexto do Covid-19.

A pesquisa é da XP e ouviu 1000 pessoas, por telefone, entre os dias 30 de março e 1˚ de abril. A amostragem leva em conta sexo, região, idade, tipo de cidade, religião, porte do município, ocupação, nível educacional e renda.

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As pessoas que supunham que tinha havido significativa erosão da base bolsonarista estavam ... erradas. Os níveis de ótimo/ bom oscilaram de 30% para 28%, ou seja, dentro da margem de erro da pesquisa, que é 3,2%.

Os níveis de ruim/péssimo, sim, subiram no limite, no teto da margem de erro, de 36% para 42%. Parece que uma pequena parte do terço "do meio" do eleitorado oscilou contra Bolsonaro. Mas a base dele continua lá.

Como a pesquisa discrimina ocupação, será interessante ver, por exemplo, se Bolsonaro perdeu apoio entre os médicos, categoria que foi base sua na eleição. Se não perdeu apoio entre médicos depois de tudo o que aconteceu, aí seria o caso de a gente desistir do país mesmo.

Mas o resumão acima é o que dá para deduzir por enquanto, lendo só os números já tabulados. Base bolsonarista está lá intacta, é o que diz a pesquisa.

INACREDITÁVEL

O discurso de Bolsonaro (no dia 31) tem uma pérola que merece um lugar na prateleira com Dilma. Trata-se de uma das frases mais inacreditáveis que já vi em língua portuguesa:

"A minha preocupação sempre foi salvar vidas, tanto as que perderemos pela pandemia como aquelas que serão atingidas pelo desemprego, violência e fome."

Ou seja, Bolsonaro quer salvar as vidas que ele já dá por perdidas para a pandemia, e ele quer salvar as vidas de quem será "atingido" pelo desemprego. Como, em geral, no Brasil, pelo menos, as pessoas não costumam MORRER de desemprego, e sim passar por um perrengue que exige recolocação no mercado, é impossível não concluir que:

Bolsonaro quer salvar vidas de dois tipos: as que já estão perdidas e as que não precisam ser salvas. Ou seja, o cara fez uma frase maluca para confessar que é um assassino mesmo.

A língua disse o cara, o discurso o falou.

INCRÍVEL

A incrível história do país que tinha um chefe de segurança nacional que postava o número do seu CPF na internet.

HISTÓRIAS DE ZAPISTÃO

Aqui vai uma história de zapistão do Brasil profundo para diverti-los um pouquinho nesta quarentena. Alguns amigos em um grupinho pequeno já a ouviram.

O meu fake no zapistão de bolsolândia usa, evidentemente, um chip com DDD do Brasil Central. Quando quero fazer algo um pouco mais tranqueira--nunca faço nada ilegal, sou um crítico literário formado no meio de juristas--, uso um chip coreano, que é meu chip n˚1 quando estou em Seul.

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Já vários dias depois de o município baixar a ordem de reclusão, tá lá o pastor pilantra fazendo culto. Não necessariamente na sede principal; como muita gente sabe mas intelectuais costumam ignorar, o que mais há em igreja evangélica no Brasil profundo são corredores, saguões, cômodos separados, portinhas.

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Tenho contato com duas fieis que falam comigo (ou seja, com meu fake), preocupadas com a contaminação. Hesito entre (1) expor o pilantra com foto e endereço (da igreja) no meu facebook; (2) entregar o material ao MP e pedir denúncia; (3) esquecer e não fazer nada, e apenas lembrar às fieis que não fossem e que tentassem fazer com que outros não fossem.

Mas uma das fieis tinha o número do telefone que ele usa com a amante. Dica para vocês: pastores em geral têm amantes com um outro número. Consiga esse número. Aí você pilota o jogo.

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Pensei em expor o pilantra, mas aí me veio, fulminante, a lembrança de como Erik Lönnrot agiu no 1˚ crime em "A morte e a bússula", de Borges, e como Eva agiu quando saiu de casa para a capital federal aos 15 anos. Pense como um peronista, pense como um detetive borgeano.

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Pedi à fiel que, no próximo culto, se postasse à porta com um jornal, edição daquele dia; e que dobrasse o jornal de tal forma que a data aparecesse grande na foto. Que ela não se expusesse e mostrasse apenas o antebraço, o jornal, um monte de nucas de fieis, e a cara do pilantra lá atrás, ao fundo mas bem visível, único ser humano inequivocamente identificável na foto. Pedi que me enviasse o jpeg.

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Ato contínuo, coloquei meu chip coreano no telefone. Adicionei o número que o pilantra usa com a amante, anexei a foto, e fiz questão de não dizer absolutamente nada que razoavelmente possa ser interpretado como crime ("ameaça" ou qualquer outra coisa).

Anexei a foto e disse apenas: "Você é um pilantra".

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Avisaram-me depois que os cultos presenciais foram suspensos. É isso aí, pastorzada pilantra, barbas de molho porque estamos de olho.

COMÉDIA EVANGÉLICA

Não, não é um programa humorístico! É o sensacional vídeo dos dois pastores pilantras que expulsaram o Covid-19 dos EUA.

PASTORES SURTADOS

Vocês sabem por que a pastorzada está surtando, tanto aqui nos EUA como no Brasil, certo?

A pastorzada está surtando porque não consegue arrancar dinheiro da choldra via internet. O seu público é formado, em geral, por gente que entrega dinheiro vivo, e que mesmo quando faz transferência bancária, o impulso para fazê-lo veio de algum encontro presencial.

Eles não oferecem serviços essenciais, as aglomerações que arregimentam agora incubam e disseminam vírus e os pilantras só estão pensando nas suas fortunas. Em Brasília, tem pastor fazendo lobby por ajuda estatal a igrejas. Nos EUA, os pastores estão juntando multidões impunemente no sul do país.

Sabem que estão matando gente, mas não largam o osso porque só pensam em dinheiro. Pilantras, falsos profetas.

DIÁLOGO... MAS...

Teístas que me leem sabem que sempre fui do diálogo e das pontes entre teístas e ateus. Não faço piadinha com a fé de ninguém. Não bato bumbo de ateu militante. Como professor de literatura hispânica, tenho que conhecer bem o conjunto de livros que chamamos Bíblia, e curto lê-los.

Agora, o papo com as igrejas que estão matando gente tem que mudar. Na Flórida, 1/4 da população têm mais de 60 anos de idade e gente do mundo inteiro viaja pra lá, especialmente nesta época, em que ainda faz frio em boa parte do hemisfério norte. Depois de muita pressão e reclamação da imprensa, o governador do estado, o Republicano Ron DeSantis, resolveu baixar a ordem executiva da reclusão, mas ...

... os cultos estão liberados porque são considerados "serviços essenciais!"

O pilantra é um lambe-botas de Trump que fala com ele ao telefone todo dia e recebe tudo o que quer em troca da obediência (outros estados não chegam a receber 10% do que pedem). DeSantis só deu a ordem no momento em que Trump já não se opunha. De olho nas eleições, isentou templos da ordem de reclusão.

Ou seja, a ordem de reclusão passa a não valer de quase nada!


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