Semana On

Quinta-Feira 05.ago.2021

Ano IX - Nº 454

Coluna

A vida ingovernável

Quando passar essa noite, vamos pendurar nossos melhores sonhos em um varal, deixar quarando, vamos plantar modos de alegria no quintal, até brotar uma vida que possa ser menos ope-racional

Postado em 02 de Abril de 2020 - Ricardo Moebus

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O governo pleno sobre toda a vida, humana ou inumana, como projeto civilizacional que nos assombra e nos assalta desde vários séculos, dá agora seus sinais mais claros de esgotamento, dá seus sinais de falência de múltiplos órgãos. Órgãos governamentais, órgãos econômicos, órgãos nacionais ou internacionais.

Civilização arrogante, dos órgãos e inorgânica, ameaçando ruír, desabando perante o gigante, microscópico. 

Esta mínima partícula vital, este micropingo de vida viral, capaz de desterritorializar constantemente seu próprio código original.

Nômade das estepes da Ásia central, montado em seu novo poderoso cavalo chamado Homem, Pégasus voando ao redor do mundo, sendo também seu alimento e seu berço natal.

Deslocando seu mais íntimo roteiro sequencial, seu próprio RNA, armado de nada mais que tal.

Esse modo supra-simplista de viver, tão anterior à vida que se julga superior, DNA desamparado, se vendo sempre em batalha contra o natural.

Segue esta ínfima vida, escapando a toda tentativa de captura ou disciplina ou contorno pela civilização do pesadelo controle total.

Deslocando sua “máquina de guerra” invisível, circulando por todos os caminhos, transformando-se no próprio caminhar, um mestre do Tao.      

“Corpo sem órgãos” viral, atingindo em cheio somente a espécime que se auto-proclama o centro da evolução final.

Antropoceno saindo de cena?

Febre planetária se convertendo em febre humana feito malária?

Talvez sim, talvez não, mas será preciso revermos os processos desta desenfreada produção.

A esfera global segue girando, orbitando seu ritmo na sua mesma dança de shiva universal.

Mas o mundo, este humano, desacelera, freia, paralisa, congela como se na era glacial.

Mas o susto não será desta vez para todos fatal.

Muitos teremos outra chance de refazer a vida humana de outro modo, quem sabe até mais solidário e cordial?

Ou então aprofundar o ataque contra nós mesmos, e o abuso de uns sobre os outros, e sobre o próprio planeta, esperando o próximo caos.

Caos, este primeiro Deus primordial, origem pai-mãe de tudo que existe ou já existiu, virá nos cobrar a conta afinal?

A decisão coletiva e individual pesa sobre nossas cabeças, como um punhal.

Quando passar essa noite, vamos pendurar nossos melhores sonhos em um varal, deixar quarando, vamos plantar modos de alegria no quintal, até brotar uma vida que possa ser menos ope-racional.

Talvez a saída, ou a entrada, seja uma vida com menos, de tudo que sobra e nos maltrata.


Voltar


Comente sobre essa publicação...