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Sábado 21.mai.2022

Ano X - Nº 488

Coluna

Shakespeare

Um empreendimento também econômico - Parte 6

Postado em 12 de Setembro de 2014 - Jorge Ostemberg

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“Vão logo, cidadãos gordos e lisos;

A moda é essa. Desde quando olham

Para os que ficam pobres e quebrados?” (Como quiserem, Ato II cena I 55-7).

 

Embora a descrição resumida, aqui colocada, em uma série específica de 3/3 esteja conforme a parte 2 do livro “Shakespeare e a Economia”, que se refere à produção de Henry W. Farnam e não mais de Gustavo Franco, decidiu-se por manter a numeração que vinha, a fim de facilitar memória e localização para os leitores.

Entende-se ser pertinente aqui transcrever o perfil de Farnam, a partir da disposição na própria obra aqui utilizada. Henry Walcott Farnam (1853-1933) foi um economista americano, que lecionou economia política vários anos em Yale, New Haven; ele foi, inclusive, presidente da prestigiosa Associação Americana de Economia, tendo escrito várias obras com o tema economia, além do próprio trabalho com Shakespeare e seus aspectos econômicos.

Farnam, no prólogo de seu tratamento a um Shakespeare a partir do universo econômico, observa que a pedra de ignição que gerou sua produção (de Farnam) no sentido citado, ocorreu quando notou, com suas repetidas leituras na obra do bardo, que: “... em certas peças de Shakespeare alguns trechos tinham clara relação com a economia...”. Ele ainda nota que utilizou um ensaio lido no Elisabethan Club da Universidade de Yale, em 1912 que lhe rendeu, apesar de temeroso no início, uma grande acolhida à ideia de incursão à relação do bardo e a economia, incluindo um convite para fazer parte do clube.

Em uma língua mais essencialmente literária que a de Franco, Farnam expõe que, um pouco alhures à importância final se Shakespeare existiu ou não, o considera, sim, existente e autor genuíno e não outro em seu nome, embora aceite argumentações contrárias, e que o bardo certamente não pensou a “economia política”, notando que somente dois séculos depois é que Adam Smith e Turgot assentariam as noções modernas nesse sentido. Para ele, Shakespeare queria simplesmente “apresentar peças interessantes e divertidas e lotar a casa”; já se comentou quando resumindo texto de Gustavo Franco que o motivo era basicamente dinheiro.

Mas como se encontraria no trabalho shakespeariano, “pegadas” de tema econômico? Farnam responde com analogia; observa que passados séculos, em obras que se destinavam às montagens teatrais, leitores encontram um robusto “espelho à natureza”, resistente ao tempo, capaz de enquadrar com atualidade, inúmeras situações hodiernas; talvez informações “desconhecidas” até mesmo do próprio Shakespeare.

As situações econômicas aparecem contidas, diluídas na construção da peça; são metáforas, alegorias ou invectivas oriundas do universo comercial, em maioria. Ainda há, para Farnam, momentos na obra em que se constroem robustas discussões de teoria econômica, principalmente quando há questões de juros e distribuição de riqueza. Esses dois aspectos, distintos em “O mercador de Veneza”, parecem “incomodar” bastante, Shakespeare. Mas é fácil de inferir que certamente o autor do citado “Mercador...” e outras geniais peças não tenha inferido em momento algum que colaboraria com material, para os economistas e estudiosos ou pensadores da área.

Farnam, ao tocar no aspecto do cenário econômico na obra shakespeariana, observa que em “Tímon de Atenas”, tem-se o retrato de um homem rico e generoso, que justamente pela generosidade excessiva, acaba pobre, e ao recorrer justamente aos amigos que tanto ajudou, vê muitas desculpas, muita ingratidão, que produz nele muita amargura; Tímon seria um personagem capaz de exemplificar muitos casos modernos de ruína pela mistura de amizade aos critérios de ações econômicas.

Farnam analisa “Como quiserem”, outra peça, e conclui que trata-se, em essência, de uma tensão que envolve a política e a economia, quando armam um complô a fim de causar o exílio de um duque e favorecer filho mais velho que causa grande pressão financeira sobre o mais moço, que é obrigado a partir da casa, sem fluência de dinheiro alguma, nem para estudos. Orlando, o moço, parte e é obrigado a lutar para manter dignidade, manter a personalidade perante tantas dificuldades financeiras.

Farnam prossegue enfileirando exemplos de situações econômicas nas peças; lembra que em Coriolano, se trata um episódio de Roma, em que os movimentos políticos iniciam em uma injustiça econômica, a opressão dos plebeus pelos patrícios romanos. Já em Rei Lear, o início é uma distribuição insensata feita pelo rei, de suas propriedades, em que surgem sórdidas disputas de terras. Em Medida por medida, há “uma questão de controle social como muitas que surgem em conexão com a legislação econômica e social nos tempos modernos”.

Nas peças históricas aponta-se que em Henrique V, “o arcebispo de Cantuária faz um relato circunstancial da lei aprovada pelo Parlamento a fim de secularizar uma parte das propriedades da Igreja”; com especificação de detalhes em objetivo econômico da lei, pois o rei precisava fortalecer o exército; a lei poderia causar empobrecimento da Igreja, que como estratégia de livramento, incita Henrique V contra a França. Em Henrique VI, parte 2, há um movimento econômico e social nominado “Revolta de Cade”, que é detalhadamente retratado;  e em Henrique VIII há o relato da excessiva cobrança tributária. E em várias outras peças, aparecem aspectos semelhantes, que revelam condições econômicas da época do bardo, em relação às suas histórias. Vale a pena ler esse trecho em íntegra, que revela a dureza de trato econômico em um momento e situação específicos:

De “As alegres comadres de Windsor”:

BARDOLF: Senhor, o alemão quer seus três cavalos: o próprio duque estará amanhã na corte, e eles irão encontra-lo.

HOSPEDEIRO: Por que há o duque de vir assim em segredo? Não soube de nada dele na corte. Deixe-me falar com os cavalheiros. Eles falam inglês?

BARDOLF: Falam; e eu irei chamá-los.

HOSPEDEIRO: Podem ficar com meus cavalos; mas têm de pagar; vou suga-los. Tiveram minha casa uma semana à sua disposição; tive de recusar outros hóspedes. Eles têm de acertar; vou arrancar-lhes o couro. Vamos.

(Saem)...

E a peça prossegue, sempre em uma tensão em que se foca a exploração inescrupulosa de nobres sobre comerciantes, no caso, de estalagem e animais. Sugere-se que a peça faz referência um direito abusivo existente, e em que, pior, alguns vigaristas se valiam do dispositivo para, aproveitando notícia da presença de um duque ou outro nobre, se passar por criados e praticar roubo de cavalos, uma lesão econômica política contendo outra de furto direto.

No próximo artigo, se abordará o mar e seus empreendimentos, a partir do mesmo tema geral. Prossigamos!

Leia as cinco primeiras partes do artigo.

Parte 1

Parte 2

Parte 3


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