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Segunda-Feira 06.dez.2021

Ano X - Nº 470

Coluna

O inferno são os outros

É melhor vencermos a nós mesmos que ao mundo.

Postado em 24 de Janeiro de 2014 - Jorge Ostemberg

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires; de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores. (Kipling) Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires; de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores. (Kipling) Divulgação

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Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires; de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores. Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires tratar da mesma forma a esses dois impostores... De crer em ti quando estão todos duvidando; de forçar coração, nervos, músculos, tudo, a dar seja o que for que neles ainda existe. Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires, de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores. Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires tratar da mesma forma a esses dois impostores. E a persistir assim quando, exausto, contudo, resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste! Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo, E o que é muito mais; és um Homem, meu filho! (Trechos da poesia “Se és capaz” – Kipling).

Essa é a terceira prosa que temos sobre empreendimento, cumprindo a proposta de valorizar a reflexão, além dos exemplos práticos que vêm de revistas sobre o tema e casos ainda sem publicação, de notáveis condutas de pessoas que respondem à necessidade de ganhos econômicos com a prática de ideias próprias sobre negócios inéditos ou não.

Obedecendo essência pedagógica, que é atinente à proposta de nossos alinhavos textuais, lembramos que no primeiro texto, disposto aqui na página (veja aqui), focamos a realidade do “ganharás o pão com o suor de teu rosto”, atribuída à determinação divina sobre o destino do homem. O segundo artigo, também aqui, trouxe raciocínios sobre a coragem. E este presente traz uma inferência sobre dois aspectos: a representação demoníaca existente para alguns no que é empreender, aliás, essa condição é presente muitas vezes mesmo na comum representação do trabalho; e a condução ética das instâncias quanto aos empreendimentos.

No reservado do Facebook, preservando sua identidade, como achou melhor e entendi, um amigo pelo qual tenho grande apreço, primeiramente pela força pessoal em independer em pensamentos sócio-políticos e depois porque tem forte conjunto cultural; bom humor invejável; enfim uma grande qualidade de espírito, em geral, criticou meu artigo, após elogiar meu conhecimento e escolha estilística para textualizar ideias. Sua crítica considerou o efeito pernicioso de se generalizar o caráter empreendedor:

“Cara, pela estima afetiva e intelectual que tenho por ti, serei completamente honesto: você bem sabe da admiração que tenho por sua escrita, por seu estilo. No entanto, por claros motivos ideológicos, não poderia de forma alguma compartilhar o seu texto... Falando sério: o conceito de empreendedorismo, tão em voga em tempos de neoliberalismo, escamoteia com um nome pomposo uma série de velhos mecanismos de exploração e opressão, jogando no colo do indivíduo todo o fardo e responsabilidade de seu sucesso (para poucas, muito poucas) ou de seu fracasso (o que resta para a esmagadora maioria)”. Coloca no mesmo horizonte de possibilidades de êxito um herdeiro bilionário feito o Eike, que, literalmente, nasceu com o mapa da mina nas mãos, e o tiozinho que vende pipoca na Praça do Rádio. O ingresso no paraíso do consumo e da felicidade dependeria apenas da força de vontade e do trabalho de cada um(a). Cruel falácia, este roto mito do self-made-man!

Como sua confusão pode ser a mesma de outros, é preciso afirmar aqui que nossos esforços são justamente em depurar social e empresarialmente a palavra “empreendimento”, para que seu significado primário e outros sirvam para de fato ajudar as pessoas a refletirem e se construírem ou reconstruírem no aspecto de realização econômica, dentro do “Isto é o que temos por agora; façamos, enquanto lutemos; sigamos!”.

Na verdade, quando escrevi “Embora muitos possam exagerar sobre a facilidade de empreender, e com tal exagero cair na vala comum de receituário tipo autoajuda, com resultados contrários imprevisíveis aos esperados...” criticava o perigo de a questão ser tratada com ingenuidade ou cinismo, seja de qual for a origem desta infeliz postura, individual, institucional ou ideológica.

Mas meu amigo fez uma crítica não só aguda, como também pertinente. Em seu dizer, é preciso que a sociedade, pela responsabilidade política ou comunitária, arque com apoio aos empreendedores que não têm boas oportunidades de suporte. Porém, ele, sempre à frente em várias questões, acabou tocando em um ponto que será trabalhado, com lentes fortes, no futuro. Pois é justamente a promoção de raciocínios sobre plataformas um dos mais importantes pontos do tema aqui tratado.

Sem dúvida os aspectos políticos, os aspectos de tratamento social sobre a questão do empreendimento, são determinantes para a construção de uma sociedade de fato justa, com uma igualitária distribuição de oportunidades e plataformas de apoio; no entanto, sempre foi primordial o despertar de uma vontade em que o indivíduo precisa se posicionar com aquilo que tem para o “agora”; precisa agir prontamente à tarefa de imaginação quanto à disputa de oportunidades existentes e os potenciais de cria-las. Demonizar o que existe será sempre salutar na forma crítica em que se proponham saídas; no entanto, é preciso se ter em conta que “os outros”, as adversidades, o outro ego, que trabalha contra a vontade, pode instalar uma situação em que ideologias ou mesmo soluções de prontidão política não salvarão as necessidades vitais imediatas. É preciso, predominantemente, pensar/agir; empreender.

Se o inferno se apresenta pelos outros, como afirma Sartre, sim, ou se terá que exorcizá-los, o que pode ser cansativo e perda desnecessária de energias, ou bastará, como ocorre na maioria dos casos, ignorar e seguir, pensando: “é somente uma tentativa de transferência de inferno, são somente os outros”; o espelho que consegue contrariar. Vale, em inúmeras situações, portanto, considerar a existência imediata de coisas e agir para que “vitalizado”; “energizado”, instituído economicamente, possa se pensar em cobrar melhor Estado, com melhor estado de coisas.

O brilhante e versátil professor-doutor em Literatura Brasileira, Ramiro Giroldo, fará o tecido inicial sobre a ética, considerando sobre a necessidade de se respeitar as instâncias, em detrimento de resultados meramente financeiros, e o que é pior neste sentido, ser imediatista. O bom fruto vem de um tratamento respeitoso aos processos de amadurecimento.

A imagem mais corriqueira (e talvez a mais didática) quando se fala em dar tempo ao tempo, em deixar que as coisas se desenrolem de acordo com a lógica que elas próprias impõem, é a da casa que precisa ser construída apenas quando os alicerces estiverem bem fundados. Para que cada nova camada de tijolos seja construída, o cimento que assenta a anterior precisa estar seco. Todo empreendimento, não importando sua natureza, precisa respeitar essa regra de ouro.

O maior entrave para que o tempo seja dado ao tempo é a percepção utilitária das coisas, segundo a qual tudo deve servir de imediato a alguma coisa. Percepção oriunda de uma acrítica inserção no sistema capitalista, este que a tudo tende a converter em mercadoria – tudo precisa ter uma utilidade de pronto, e essa utilidade é gerar riquezas. Não é sem alguma vertigem que se pode relacionar utilitarismo a consumismo, mas a relação é frutífera e pertinente.

Se tempo é dinheiro, esperar o cimento secar adequadamente é perder dinheiro. E pouco importa, de acordo com a percepção que busco criticar, se a camada seguinte de tijolos vier ao colapso mais cedo ou mais tarde. O que importa é que ela já cumpriu sua função. Empreendimentos destinados a cumprir apenas uma necessidade contingencial não deixam sua marca: são removidos quando chegar a vez do próximo e efêmero empreendimento. Construir algo que se desmancha quando a contingência passar não é construir de fato; para construir é preciso deixar que o tempo diga como fazer.


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