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Sexta-Feira 03.dez.2021

Ano X - Nº 469

Coluna True Colors

A importância de uma metodologia escolar pela inclusão da diversidade

Diversidade sexual e de gênero no ambiente escolar é o melhor caminho para uma sociedade tolerante.

Postado em 17 de Abril de 2015 - Guilherme Cavalcante

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Há alguns meses vi uma reportagem sobre a primeira escola 100% LGBT que foi criada na Inglaterra. Por alguns instantes, fui seduzido sobre as delícias de passar por ensino fundamental e médio sem se sentir uma aberração, sem discriminações quanto a identidade de gênero e orientação sexual, com uma metodologia de ensino desenvolvida especialmente para o autorreconhecimento de alunos LGBT enquanto seres humanos. Seria lindo.

Mas depois que voltei à realidade, percebi o quanto a iniciativa pode ser perigosa. Por mais que a intenção seja boa e, de certa forma, proteja LGBTs do bullying que muitas vezes os desvias do caminho da educação, o mais acertado é que as escolas regulares se preparem para inibir e punir, no contexto socioeducativo, a discriminação contra LGBTs em ambiente escolar (e os outros tipos de discriminação também, claro).

A segregação, mesmo numa iniciativa de intenção nobre, como o caso da escola LGBT inglesa, segue na contramão do que lutam os militantes pela diversidade. Afinal, a necessidade de haver vários segmentos populacionais (étnicos, religiosos, sociais, etc.) no mesmo ambiente escolar se justifica porque a escola é o primeiro exercício de cidadania a que somos expostos. E, claro, este exercício, como toda e qualquer prática pedagógica, requer orientação.

É neste ponto que chegamos à polêmica: existem profissionais e profissionais. Quem sai do curso de pedagogia agora, tem mais chances de ter tido capacitação para lidar com a diversidade social cada vez mais visível, não só em relação aos grupos LGBT, mas a todas as minorias que reivindicam seu direito fundamental à educação. E há os profissionais com mais anos de carreira, formados nas décadas passadas, quando a inclusão (de forma geral) não estava em debate como hoje.

Isso não significa, evidentemente, que os profissionais recém formados sejam automaticamente mais tolerantes e que os mais experientes sejam mais resistentes à novidades. É nesse ponto que a educação, na forma de política pública, deve intervir.

Todo pedagogo que atua na rede pública - a que tem mais alunos no país - tem direito garantido à formação continuada, que são encontros promovidos pelas secretarias de educação para reciclar os conhecimentos destes profissionais. São esses órgãos (municipais e estaduais, na maioria dos casos) que pautam as metas e desafios dos anos letivos e que promovem a orientação e condução dos debates que devem culminar na melhoria do processo de ensino e de aprendizagem.

Educação pela diversidade já é um tema comum nas formações continuadas dos últimos dez anos. Mas ainda restam muitas lacunas que impedem que este trabalho de desenvolvimento de uma metodologia pedagógica inclusiva seja desenvolvido com excelência. O desconhecimento sobre os nuances da sexualidade e identidade humana são apenas algumas das barreiras.

Inclusive, a revista Nova Escola trouxe uma excelente reportagem de capa sobre o assunto no mês de fevereiro, com a íntegra do Kit Anti-homofobia vetado pelo governo de Dilma Roussef. Para conferir os materiais, clique AQUI e AQUI, respectivamente.

Neste contexto, são muitas as universidades que se dedicam a aprimorar seus currículos em sintonia com educação inclusiva. Um bom exemplo é a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que por sinal desenvolveu um tipo de manual com orientações para pedagogos sobre educação inclusiva voltada para a diversidade sexual e de gênero. O material é de excelente qualidade e foi disponibilizado na rede recentemente e de forma gratuita. Confira:

Trabalhando Diversidade Sexual e de Gênero na Escola: Currículo e Prática Pedagógica

O material pode e deve ser compartilhado entre e para profissionais de pedagogia. Se você conhece alguém que pode se interessar, faça sua parte. Boa leitura!

 

Eu mudaria de avião

Obviamente você deve ter visto, na última semana, o burburinho em torno do suposto caso de “heterofobia” cometido pelo deputado Jean Willys (Psol - RJ), que mudou de assento num avião quando viu que viajaria ao lado de seu maior opositor na Câmara, Jair Bolsonaro (PP-RJ). Se não viu, veja o vídeo abaixo:

É uma pena que as notícias que propagaram este fato não tenham se dado ao trabalho de problematizar a relação mais que natural do deputado do Psol de mudar de cadeira, até mesmo diante da clara má fé de Bolsonaro em constranger o defensor LGBT (oi? Bolsando entrou na aeronave FILMANDO Wyllys. Foi obviamente uma cartada planejada!).

E afinal, que LGBT não mudaria de cadeira (ou até mesmo de avião - meu caso!) para não viajar ao lado de um ser que dedica seu mandato para negar a cidadania LGBT e para manutenção da homotransfobia no sistema? Você viajaria ao lado do assassino do seu pai/mãe/irmão/filho? Não seria razoável que uma pessoa negra não quisesse viajar ao lado de um racista declarado? Isso se chama autopreservação, queridos…

Tenho muitas críticas a Jean Wyllys, dentre elas a arrogância do deputado, que chega a estabelecer, muitas vezes, trincheiras entre os movimentos sociais que se propõe a defender. Mas isso não deixa de fazer do deputado um aliado - claramente o maior - da bandeira da diversidade e dos direitos humanos. Eu poderia me estender mais sobre o assunto, mas como Wyllys não precisa de ninguém para falar por ele, concedeu entrevista ao IGay (veja abaixo) , com uma lúcida e coerente resposta sobre o “causo”. Tomou?

Em tempo: Mato Grosso do Sul prepara uma manifestação para este domingo (19). Para ficar por dentro, saber hora e local, clique AQUI.


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