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Sábado 27.nov.2021

Ano X - Nº 469

Coluna True Colors

Fugindo da transfobia: a história de uma trans brasileira refugiada na Itália

Bia conseguiu provar que, se voltasse ao Brasil, corria o risco de entrar para a triste estatística do país que mais mata transexuais no mundo

Postado em 11 de Novembro de 2021 - Janaína Cesar - #Colabora

O Brasil é o país que mais mata trans no mundo. Só no primeiro semestre deste ano, 80 foram assassinadas. Em 2020, foram 175. Arte: Claudio Duarte O Brasil é o país que mais mata trans no mundo. Só no primeiro semestre deste ano, 80 foram assassinadas. Em 2020, foram 175. Arte: Claudio Duarte

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(Vicenza, Itália) – Era uma manhã chuvosa e cinza de uma segunda-feira de junho, nem parecia que estávamos em pleno verão italiano, quando Bia* abriu a porta do pequeno apartamento em que vive na periferia de uma grande cidade da região do Vêneto. Alta, cabelos castanhos recolhidos, de fala mansa e olhar sofrido, ela, que tinha acordado há poucas horas, abriu a janela da varanda, colocou um casaco por causa do ar gelado da chuva que entrava, se acomodou em uma das duas cadeiras da mesa da cozinha e começou a falar. Queria contar sua história de vida de mulher trans regada por um passado de dor e um presente de esperança. Hoje ela vive na Itália como refugiada. Conseguiu provar à comissão que concede os vistos que sua história de vida poderia ter um final de morte se ela voltasse à sua terra natal, pois o Brasil é o país que mais mata trans no mundo. Segundo dados elaborados pela Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), somente no primeiro semestre deste ano, 80 foram assassinadas. Em 2020, foram 175.

“O Brasil não cabia mais em mim ou eu não cabia mais nele. Eu vivia com medo de ser morta”, disse Bia, que, como a maioria das trans, também trabalhava nas ruas. Conheceu as calçadas das principais avenidas de várias cidades do interior de São Paulo, Minas e Paraná. Durante o dia, eram lugares de passagem marcados pelo vai e vem de gente e pelo barulho infernal do trânsito ou de alguma britadeira que escavava o pavimento, a noite baixava o silêncio, todo a algazarra desaparecia e ela, junto com as amigas, entrava em cena. Aquele pedaço de asfalto lhe pertencia. Era dali que tirava o seu ganha-pão.

Mas Bia era gentil, nunca foi uma pessoa violenta e aquela violência cotidiana tinha apagado o pouco do sorriso que ainda lhe restava da infância. Até as lantejoulas dos vestidos que usava para o trabalho não brilhavam mais. Diante da morte com requintes de crueldade que tomou a vida de tantas amigas pelas mãos de assassinos transfóbicos, a única possibilidade de sobrevivência era sair do país sem olhar para trás. “Eu não era protegida, sou muito nova para morrer. A expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil é de 35 anos”, disse com olhar cabisbaixo que fixava a mesa da cozinha.

Vida rodeada de morte

“Sabe, fiquei pensando, aqui ninguém vai me ajudar, uma amiga minha trans morreu sem ter feito nada, ela era só uma menina que dormia o dia todo esperando chegar a noite, se arrumava e ia para rua trabalhar para ter seu dinheiro, mas morreu porque alguém, simplesmente, não gostava de trans ou gostava e se sentiu com a masculinidade fragilizada”.

Bia é uma mineira nascida em Passos, 29 anos atrás. Poliana é o nome da amiga que morreu em 2016 de morte matada, em Alagoas. Se conheceram em Curitiba. Poliana tinha ido visitar a família sem saber que aquela passagem de avião paga pelo namorado seria só de ida. Ela foi esfaqueada. Natalia, original de Franca, interior de São Paulo, foi morta a tiros na capital paranaense. Ela e Bia se conheceram em Ribeirão Preto e se reencontraram na “cidade mais linda do Brasil”, disse.  “Ela foi levada para um terreno baldio, deram 5 tiros e a deixaram ali, se esvaindo em sangue”. E tem a Lana, do Ceará, que detestava a vida que levava, a prostituição. Elas se conheceram em Ribeirão, e foi lá que, em 2012, Lana deu o último suspiro. “Um dia foi atender um cliente que a levou para um lugar isolado, primeiro ele passou a faca nos tendões dela, assim não podia se movimentar, depois ele a esfaqueou e a deixou lá morrendo”.

Este ano foi a amiga Milena que partiu. “Morreu nas mãos de um psicopata. Era um cliente, o levou para dentro de sua casa, ele a esfaqueou e a deixou sangrando. Como estava sujo de sangue, se lavou, trocou de roupa, ligou a televisão, trancou a porta do apartamento e foi embora”, contou com a voz trêmula e o choro sufocado na garganta. Toda essa matança chegou cedo na vida de Bia. Aos 16 anos, quando começou a viajar e frequentar as primeiras calçadas da vida – era o início de sua transição – conheceu Júlia, a primeira amiga, de quem tudo foi tirado: a vida, o respeito e a dignidade. Porque quando uma trans morre, geralmente, é morte bruta. Júlia foi levada para uma casa abandonada, torturada por 3 dias e depois assassinada.

“Elas não eram marginais e sim marginalizadas pela sociedade. Eram pessoas que tinham sonhos, algumas eram ligadas à família, o comentário mais comum entre elas era: preciso mandar um dinheiro para a mãezinha.”

A vinda para Itália

Era 2018,  quando ela começou a pensar em vir para a Itália, a violência estava aumentando e se aproximava cada vez mais de Bia. No começo era somente um papo que havia levado com um amigo de Ibitinga, última cidade em que residiu antes de vir para o país europeu, mas virou realidade. “Sabemos qual é o giro que temos que fazer quando queremos ir para o exterior, geralmente não temos verba para isso, então nos deixamos levar por um esquema que depois é muito difícil de conseguir sair”, conta Bia.

“Você contata por telefone uma pessoa que já mora fora do país, ela te seduz, diz que você vai ganhar em euros, vai conseguir ajudar a tua família, que vai ficar mais bonita porque vai colocar silicone, peito, arrumar os cabelos, enfim, tudo isso por 11 mil euros. Nesse valor está incluído o valor da passagem, mas chegando no outro país, você ainda precisa pagar a semana para a patroa da casa que te acolhe e geralmente são 250 euros. E a patroa é quem gerencia sua vida. Ela fica com teu celular pois você não fala a língua local e não é capaz de marcar os programas. Você fica presa nesse esquema até pagar sua dívida, depois é cada um por si”, explica.

Bia chegou na Itália há 3 anos. Ela teve a sorte de ter um amigo que lhe ajudou a vir com seu próprio dinheiro. A escolha do país não foi aleatória, ela conhecia uma trans que já morava aqui e achou que seria mais fácil todo o processo de adaptação e conhecimento. Ela não teve que se endividar com a passagem, mas o pagamento semanal da casa na cidade de Trieste, onde ficou inicialmente, era regra e não exceção. Foram 350 euros por semana. Tudo ia bem até que ela e uma amiga foram pegas durante uma batida de polícia. A amiga estava sem documentos, mas Bia ainda tinha o visto de turista. A situação acabou ficando comprometida na casa onde moravam e Bia teve que seguir seus passos sozinha.

As pessoas não gostam da gente, alguns nos suportam, mas pelo menos aqui ninguém te mata. Aqui na Itália eu saio para trabalhar pensando no trabalho, no Brasil eu saia rezando para voltar para casa viva

Foi quando chegou na periferia de uma grande cidade localizada no norte do país, na região do Vêneto, onde mora até hoje. Como o visto de turista dura somente três meses, Bia passou a viver na clandestinidade; sabia que se fosse pega pela polícia, seria expulsa do país. E foi o que aconteceu. “Um dia fui levada para a delegacia e me deram a expulsão. Liguei para um amigo advogado e ele me deu o número de Chiara e ela me ajudou. Ironia do destino, foi graças a expulsão que hoje estou livre e documentada”, disse. “Até então eu sempre tinha visto a polícia como inimiga, eu não tinha informações, não sabia que podia pedir asilo. A gente quando fica ilegal só pensa em não ser deportado.”

Para Bia, a transfobia também é um problema na Itália. “As pessoas não gostam da gente, alguns nos suportam, mas pelo menos aqui ninguém te mata. Aqui eu saio para trabalhar pensando no trabalho, no Brasil eu saia rezando para voltar para casa viva”, comenta. “Agora que estou regularizada quero realizar meus sonhos, quero fazer um curso de esteticista e maquiadora”.

Bia sabe do peso político do documento que tem em mãos e deseja que sua história sirva de inspiração para outras pessoas trans brasileiras. “A falta de informação nos faz passar por situações desnecessárias. Hoje eu sei que é possível pedir asilo por condição sexual”, finaliza a mineira.

Segundo dados do Ministério do Interior italiano, o Brasil representa somente 1% dos pedidos de asilo apresentados no país. Por não estar entre as primeiras nacionalidades, não há dados específicos sobre as concessões de vistos humanitários, sendo impossível saber quantas pessoas LGBT+ existem entre os requerentes de asilo e entre aqueles que são reconhecidos como refugiados.

Conforme o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), uma pessoa LGBT+ pode pedir asilo se for perseguida pelo Estado que a criminaliza, mas também por sofrer perseguições da família, de criminosos ou de uma comunidade em sentido amplo. Talvez o fato de o Brasil liderar o ranking de países que mais matam trans no mundo tenha convencido a comissão italiana a conceder o visto de refugiada para Bia, abrindo assim um precedente para que outras pessoas trans brasileiras peçam asilo ao país.

(*) Bia é um nome fictício, criado para proteger a brasileira que hoje vive como refugiada na Itália


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