Semana On

Sexta-Feira 03.dez.2021

Ano X - Nº 469

Coluna Conexão Brasília

Moro, o pinscher brasileiro

Como a entrada do ex-juiz na corrida presidencial ajuda o ex-presidente Lula e o presidente Bolsonaro

Postado em 11 de Novembro de 2021 - Rafael Paredes

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Você conhece aquele cachorro pequenininho, bem brabinho, o pinscher? Você sabe por quê ele é brabo daquele jeito? Porque ele se olha no espelho e vê um doberman. Para o pinscher, no ângulo de visão dele, do ponto de partida dele, com quem ele se relaciona, ele é um doberman.

O melhor negócio hoje no Brasil é comprar o ex-juiz Sérgio Moro pelo que ele vale e vendê-lo pelo que ele acha que vale. Sérgio Moro foi um juiz medíocre, que teve diversas de suas sentenças anuladas por instâncias superiores, ora por incompetência de juízo, ora por parcialidade. Quando juiz, Moro escondia a fragilidade de suas decisões atrás de arbitrariedades processuais. Ele realizava escutas ilegais até de presidentes da República. E depois as divulgava para influenciar politicamente.

Porém, esse jeitão doberman de ser teve seu reflexo exibido no espelho dos grandes conglomerados de comunicação. Veículos de comunicação presididos por empresários sempre fiéis ao liberalismo à brasileira, que justifica com uma moralidade obtusa suas particulares repulsas a políticas públicas que beneficiam pobres.

Desta forma, Sérgio Moro cresceu, liderava extra-oficialmente a operação Lava Jato e teve seu auge quando prendeu o ex-presidente Lula. Com essa decisão, Moro tirava do jogo o líder das pesquisas nas eleições presidenciais de 2018 e continuava a influenciar politicamente naquele ano. Sua última cartada foi divulgar a delação premiada do ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci às vésperas do segundo turno das eleições. Como todos sabem: Jair Bolsonaro (na época, PSL) venceu Fernando Haddad (PT).

Ao perceber que para ele tudo é permitido, além de tirar da eleição o líder das pesquisas, de usar seu cargo como juiz para divulgar delação anulada posteriormente, Moro assume o Ministério de Justiça e de Segurança Pública no governo do presidente eleito, Jair Bolsonaro. Bolsonaro adoçou a boca do magistrado com a promessa de realizar o sonho do menino do interior do Paraná: virar ministro do STF.

E ele acreditou…

O tempo passou e Moro se mostrou tão medíocre como ministro como era como juiz. Foi cobrar a fatura do presidente, tomou um “presta atenção” e saiu do ministério muito menor do que entrou. Sérgio Moro liderava em 2018 uma operação com 75% de aprovação popular. Três anos e muitas mensagens de Telegram publicadas depois, menos de 30% da população aprova a falecida Lava Jato.

Moro é tudo que o ex-presidente Lula, hoje o líder disparado nas pesquisas, e o presidente Bolsonaro querem como adversário: alguém muito conhecido, com alta rejeição, sem trânsito político, sem palanques regionais. O ex-ministro tenta manter um diálogo meio capenga com uma parcela dos militares e com delegados da Polícia Federal. Os policiais, mesmo, vão de Bolsonaro.

Sérgio Moro em 2018 era quase tão conhecido quanto o presidente Bolsonaro. Fato raro entre ministros e presidente. Quando saiu do ministério, carregou consigo parte da rejeição dos apoiadores de Bolsonaro. Com o passar do desastroso governo atual, a rejeição a Bolsonaro passou a olhar Lula como alternativa, aumentando ainda mais a rejeição de Moro.

Mas por que partidos políticos queriam Sérgio Moro como candidato?

O PODEMOS, agremiação de Moro, tem hoje 10 deputados federais. Matemática simples. Se o ex-juiz fizer 10% de votos e os candidatos a deputados conseguirem surfar na onda lavajatista, o número de parlamentares pode aumentar cinco vezes e o PODEMOS pode saltar de nanico a uma das maiores bancadas do parlamento. Além de força política, o partido ganha muito em fundo partidário a exemplo do que aconteceu com o PSL, que pulou de um para mais de 50 Deputados.

Sérgio Moro, ao continuar olhando para o mesmo espelho, se ilude. Em 2018, as preocupações do brasileiro eram segurança pública e corrupção. Em 2022, o brasileiro espera um doberman que diminua o desemprego (14%), a inflação (10%), a fome (19 milhões) e não um pinscher que late como ganso.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Colunista

Rafael Paredes

Rafael Paredes

Rafael Paredes é jornalista e atua em Brasília há 12 anos.


Saiba mais sobre Rafael Paredes...