Semana On

Quarta-Feira 25.mai.2022

Ano X - Nº 488

Coluna Ponte Aérea

Sobre esquerda, ditadores e exemplos

Raphael Tsavkko Garcia fala dos tropeços de Lula, de mentiras identitárias e de humor de qualidade

Postado em 24 de Novembro de 2021 - Raphael Tsavkko Garcia

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Meu mais recente texto para a coluna Entendendo Bolsonaro, do UOL.

Cada vez mais, a denúncia do autoritarismo bolsonarista perde sentido e força. Não porque não seja um fator preocupante e uma ameaça à democracia brasileira, mas tão somente porque seu principal adversário, o ex-presidente Lula, não é exatamente um exemplo de defesa coerente da democracia e dos direitos humanos.

Como sustentar uma oposição vigorosa à barbárie bolsonarista sem dar voz à hipocrisia? Ao arrepio da ciência política, Lula voltou à carga, comparando Daniel Ortega, ditador da Nicarágua, com a premier alemã Angela Merkel: "Por que a Merkel pode ficar 16 anos no poder e Ortega não?" perguntou.

Como denunciar visitas de Bolsonaro a países ditatoriais ou a simpatia nem um pouco disfarçada do presidente por ditaduras quando, após eleições forjadas na Nicarágua — em que opositores foram presos e observadores internacionais impedidos de participar —, o Partido dos Trabalhadores oficialmente elogia o "processo eleitoral" e saúda o vencedor, o protótipo de ditador Daniel Ortega?

Os direitos humanos estão longe de serem a principal pauta do eleitor brasileiro, mas, quando fala-se em impeachment e em processos contra Bolsonaro por crimes contra a humanidade e genocídio, é difícil — para não dizer impossível — se esquecer de que o PT, seu principal antagonista, também não tem nos direitos humanos uma bandeira. Ao menos não além do discurso.

LEIA AQUI

DEPOIS O REI DAS FAKENEWS É O BOZO

É ridículo quando alguém insiste em sustentar mentiras, mas é ainda pior quando uma agência de checagem de notícias resolve bater o pé e tentar de forma tosca e vergonhosa dar sobrevida às mentiras inventadas por identitários.

Depois Bolsonaro que é o rei das fake news...

Após o tremendo fiasco da lista de expressões racistas (que não erma racistas, mas foram vítimas de etimologia freestyle), a Agência Lupa dobrou a aposta. Na verdade triplicou!

Primeiro, no Facebook, tentaram disfarçar: "A história por trás de cada uma delas, contudo, foi alvo de contestações."

E abrem com o pobre "criado-mudo": "A expressão foi apontada, diversas vezes, como referência à escravidão no Brasil, mas há questionamentos sobre a origem."

Foi apontada por quem? Qual a fonte? Quer dizer, qual fonte séria, e não alguma lacradora de redes sociais? Isso a Lupa não diz. Não há nenhum questionamento sério sobre a origema da expressão. O termo não é racista e ponto.

Mas para piorar, a Lupa segue se recusando a assumir que espalhou uma série de fake news. Foram atrás de um especialista que NÃO sustenta o susposto racismo das expressões:

“Sempre existem divergências e hipóteses, é sempre uma contestação para tentar desconstruir o fato de que aquilo talvez não tenha significado racista. Mas por mais que não tenha origem racista, ela se torna. Buscar a origem como forma de negar o que significa a expressão hoje é um dos reflexos do nosso racismo," Jorge Amilcar de Castro Santana, doutorando em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ),

Isso quer tão somente dizer que o uso é tão ou mais importante que a origem. Concordo. Mas o problema é que a Lupa não falou de uso, ela claramente disse que a ORIGEM das expressões seria racista.

Aliás, sequer o uso de nenhuma delas é racista. E temos o contra-exemplo, "judiar", que tem origem preconceituosa, MAS seu uso não é, tornou-se banal, parte da lingua e ninguém remete a seu uso original. O comentário do professor só não é uma pá de cal na insistência infantil da Lupa porque conseguiram ir além na tosquice.

Foram atrás de uma referência da lacrolândia que basicamente afirma que dane-se a origem ou mesmo o uso, a expressão é racista se o movimento negro disser que ela é. Ou seja, uma meia dúzia de identitários que se consideram lideranças de movimento querem ditar como milhões de pessoas devem falar apenas porque sim. Porque querem e se acham no direito de censurar, cancelar, intimidar e chantagiar.

"Falar meia tigela é algo que me fere porque nós, pessoas negras, remetemos isso ao período da escravidão, quando nossos antepassados eram tratados como animais e ganhavam meia tigela quando não cumpriam um trabalho, independente se esse termo tem diferentes explicações. Então se aquilo fere um determinado grupo de pessoas, aquilo tem que ser banido do vocabulário.”

Nas palavras do Ricky Gervais, "não é porque você está ofendido que você está certo."

Sinto muito, mas não é porque alguém não gosta de uma expressão que você pode mentir e manipular e depois exigir censura e auto-censura. Não é assim que o mundo funciona ou deveria funcionar, quem grita mais alto não é o dono da verdade - quem costuma pensar que o mundo gira assim é o Bolsominion.

A Lygia Maria, na Folha, deu a nota.

"Isso não quer dizer que não haja demandas legítimas dos movimentos progressistas identitários, e sim que não faz sentido usar a mesma lógica totalitária e moralista puritana que se pretende combater. Questão de estratégia discursiva: afinal, como libertar dominados se valendo da mesma lógica dos dominadores?"

E, como eu disse na minha postagem anterior sobre o tema (https://is.gd/cMFYVI), "a luta antiracista é mais que necessária, mas o identitarismo não faz parte dessa luta, pelo contrário, é apenas uma versão branca (ops) de autoritarismo e fascismo que não altera em nada as estruturas - e nem quer, afinal uma vez alteradas as estruturas os lacradores perderiam sua relevância.."

A Lupa claramente fez uma matéria nas coxas pra gente de meia tigela lacrar.

É um troço pra emoldurar e colocar em cima do criado-mudo, dentro do ambiente doméstico.

Eis a postagem da Lupa triplicando a meta.

DUPLA DE PÉ FRIOS

HUMOR DE QUALIDADE

 


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Colunista

Raphael Tsavkko Garcia

Raphael Tsavkko Garcia

Raphael Tsavkko Garcia é jornalista e Doutor em Direitos Humanos.


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