Semana On

Quinta-Feira 11.ago.2022

Ano X - Nº 499

Coluna Eles em Nós

O direito ao aborto e a segregação racial

Idelber Avelar fala deste tema, e também do fascismo que nos cerca

Postado em 01 de Julho de 2022 - Idelber Avelar

Fernando Frazão - Agência Brasil Fernando Frazão - Agência Brasil

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As mulheres americanas perderam ontem a garantia constitucional de seu direito ao aborto, que estava lavrado desde Roe v. Wade, decisão da Suprema Corte de 1973. Isso deve se traduzir em criminalização completa da cirurgia em aproximadamente metade dos estados americanos, alguns deles incluindo punições draconianas para as mulheres que atravessarem fronteiras estaduais para realizá-la.

É contra-intuitivo e até parece teoria da conspiração, mas há uma linha direta entre o recente, muito recente bate-bumbo conservador contra o aborto e o fim da possibilidade, ou pelo menos da aceitabilidade, da segregação racial explícita nos EUA.

O que diz a Bíblia contra o aborto? Nada, absolutamente nada. Qual foi a reação dos religiosos a Roe v. Wade em 1973? De negativas, praticamente nenhuma. Inclusive, a Convenção Batista do Sul publicou textos de apoio à liberalização da lei do aborto em 1971 e em 1974. Anteriormente a Roe, a lei americana mais liberal no assunto era a da Califórnia, promulgada em 1967 por um governador chamado .... Ronald Reagan!

Traduzo e cito o historiador Randall Balmer: "Não foi até 1979 -- seis anos inteiros depois de Roe -- que líderes evangélicos [...] se apropriaram do tema do aborto, não por razões morais, mas como um grito de guerra para negar a Jimmy Carter um segundo mandato. Por quê? Porque a cruzada anti-aborto era mais palatável do que os reais motivos da direita religiosa: proteger as escolas segregadas".

Na sua origem, essa guerra contra os direitos reprodutivos das mulheres tem a ver com benefícios fiscais, com grana. Nos anos 1980, Jerry Farrell iniciava a cruzada contra a integração racial, à qual ele se referia como "satanista", em uma explícita defesa de financiamento público a escolas segregadas.

Donald Trump, que nunca se preocupou com o tema e chegou a dar declarações pró direito ao aborto nos anos 1990, sabia que esse era o tema que poderia unificar toda a direita -- tanto a direita bélica como a religiosa. Prometeu nomeações de Ministros para a Suprema Corte com o explícito objetivo de revogar Roe v. Wade, e cumpriu.

Purgar o Partido Republicano de todos os defensores de direitos reprodutivos foi um processo que durou décadas e o resultado está aí. Foi uma metódica guerra de posição na qual a ocupação do judiciário foi chave -- não só na Suprema Corte, mas nos tribunais de instâncias inferiores também.

Em New Orleans, cidade onde resido, e que não é nenhum cafundó de interior, a última clínica de aborto fechou ontem. Exatamente como no Brasil, serão as mais pobres que pagarão o pato. Para ricos, o aborto continua seguro e fácil, só que à margem da lei.

O FASCISMO

Tipo de coisa que começamos a ver no Brasil dos últimos anos: professor demitido por usar uma tirinha de André Dahmer - malvados em uma prova.


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Idelber Avelar

Idelber Avelar

Idelber Avelar é professor titular de literatura latino-americana e teoria literária em Tulane University.


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