Semana On

Quinta-Feira 11.ago.2022

Ano X - Nº 499

Coluna Re-existir na diferença

Ritualização da vida como retomada existencial

Um antídoto para a comunicação sem comunidade

Postado em 03 de Agosto de 2022 - Ricardo Moebus

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Em sua longa jornada de volta para casa, a luta gigantesca pela retomada de seus territórios geográficos, de suas terras originárias, é apenas o começo para os povos indígenas.

Juntamente com o resgate de seus territórios físicos, trabalham incessantemente no resgate de seus territórios existenciais, resgate de seus modos de viver e existir, resgate de mundos que foram desconstruídos forçosamente, mundos que foram e ainda são invadidos, mundos que foram e ainda são saqueados e bombardeados por todas as formas de constrangimento e violência física, mental, espiritual, econômica, semiótica etc.

Mundos contidos em mais de 270 idiomas que insistem em sobreviver no Brasil da necropolítica, mundos contidos em processos étnicos elaborados e destilados por muitos séculos que persistem em mais de 300 etnias sobreviventes do grande naufrágio continental dos últimos cinco séculos.

Nesta trajetória de resgate e retomada dos povos indígenas, chama a atenção o movimento de reconstrução, reinvenção ou evidenciação da ritualização da vida.

Os rituais reaparecem, ressurgem, retornam ao centro da vida comunitária com força cada vez maior, com importância cada vez mais central, ainda que certamente nunca tenham sido abandonados, mas restavam encolhidos, às vezes até escondidos, camuflados, despistados para evitar os ataques contínuos e incessantes.

Agora, paulatinamente e cada vez mais, muitas estratégias e recursos rituais sofisticados, elaborados, decantados, retornam à superfície da vida comunitária e coletiva após séculos de constante tentativa de afogamento e sufocação.

Retornam à superfície da vida comunitária com uma força e grandeza surpreendentes, com a força de um “retorno do recalcado”, daquilo que nunca cessa e nunca cessou de operar e atuar, ainda que tenha sido sufocado, abafado, constrangido, inibido, escondido diante das circunstancias externas, históricas, sociais.

Parte importante e preciosa desta herança, deste tesouro ancestral ritualístico diz respeito diretamente a muitas práticas das Medicinas Ancestrais Indígenas, com seus processos de tratamento e cura, muitas vezes em perspectiva coletiva e comunitária, mais que individual e isolada.

A força curativa, regenerativa de modos de vida comunitários e solidários, destes rituais são evidentes para quem deles compartilha, e ganham ou restauram sua centralidade na reorganização cosmopsicopolítica de muitas comunidades originárias em toda parte do Brasil.

Nos ajuda a entender a importância, a relevância destes recursos ritualísticos o livro de Byung-Chul Han “O desaparecimento dos rituais – Uma topologia do presente”.

Com uma clareza estarrecedora Han demonstra ali a penúria progressiva de uma vida esvaziada de toda ritualística, absorvida inteiramente pela compulsão e pela coação por uma novidade incessante exigida pela mercado - lógica neoliberal digital.

Deixo abaixo alguns fragmentos desta preciosa análise necessária feita por Han:

“Rituais podem ser definidos como técnicas simbólicas de encasamento. Transformam o estar-no-mundo em um estar-em-casa. Fazem do mundo um local confiável. São no tempo o que uma habitação é no espaço. Fazem o tempo se tornar habitável. Sim, fazem-no viável como uma casa. Ordenam o tempo, mobíliam-no.”

“Rituais criam uma comunidade de ressonância capaz de um acorde, de um ritmo comum: ‘Rituais promovem eixos de ressonância socioculturalmente estabelecidos, ao longo dos quais se tornam experienciáveis relações de ressonância verticais (com Deus, o cosmos, o tempo e a eternidade), horizontais (na comunidade social) e diagonais (em relação às coisas)’. Sem ressonância, a gente ecoa a si mesmo e se isola para si. O narcisismo crescente impede a experiência de ressonância. A ressonância não é um eco de si mesmo. A ela é inerente a dimensão do outro. Significa acorde. A depressão se origina no ponto zero da ressonância.”

“A política psíquica neoliberal trabalha na obtenção de emoções positivas e na sua exploração. Ao fim e ao cabo, a liberdade é ela mesma explorada. Nisso se distingue a psicopolítica neoliberal da biopolítica da modernidade industrial que operava com suas coações e mandamentos disciplinares.”

“A ‘vida intensiva’ como reclame do regime neoliberal não é outra coisa do que consumo intensivo. Face à ilusão da ‘vida intensiva’ vale refletir sobre uma outra forma de vida que seja mais intensiva do que o consumo e a comunicação contínuos.”

“A comunicação sem comunidade pode ser acelerada, pois é aditiva. Rituais, ao contrário, são processos narrativos que não podem ser acelerados. Símbolos estão parados, quietos. Informações, ao contrário, não. Elas são, na medida em que circulam. Estar quieto significa apenas a paralização da comunicação. Não produz nada. Na era pós-industrial, o ruído da máquina dá lugar ao ruído da comunicação. Mais informação, mais comunicação, promete mais produção. Desse modo, a coação de produção se manifesta como coação de comunicação.”

 


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Emerson Merhy, Ricardo Moebus, Túlio Franco e Cléo Lima

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Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos, Túlio Franco é psicólogo, Cléo Lima é pedagoga.


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