Semana On

Quinta-Feira 11.ago.2022

Ano X - Nº 499

Coluna Re-existir na diferença

Haverá um Tempo de Alegria

Por enquanto esta beleza se encontra longínqua, na memória ancestral, num passado afetivo e familiar, na periferia do mundo

Postado em 01 de Julho de 2022 - Túlio Batista Franco

René Schindler - Pixabay René Schindler - Pixabay

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Parece que o mundo não aprendeu com a tragédia da pandemia de Covid-19, e continuam tomando decisões erradas em relação ao meio ambiente, como noticia hoje o jornal The New York Times. Sob o título “Um Golpe”, o jornal americano informa que a Suprema Corte tornou mais difícil para o país combater as devastações das mudanças climáticas. Em uma decisão por maioria de votos, o tribunal limitou a capacidade da Agência de Proteção Ambiental, de impedir que as usinas liberassem poluentes favorecendo o aquecimento global.

Por se tratar de uma decisão da Suprema Corte, espera-se que no seu rastro venha uma enxurrada de novas ações, no sentido de flexibilizar normas de controle da emissão de gases, anulando muitos dos esforços para evitar o aquecimento da terra, e respostas à emergência climática. Não é demais lembrar que o tempo atual é de grave ameaça à vida, estando a população do planeta exposta a tempestades extremas, ondas de calor, secas e incêndios florestais que já se tornam mais comuns. Além disto, há extinção de espécies e ameaça a outras, derretimento de geleiras com aumento do nível do mar, levando destruição e sofrimento a populações costeiras.

Se nos EUA o governo não fizer o controle sobre a emissão de gases estufa, e tomar outras medidas para evitar o colapso do clima, dificilmente as metas para salvar o planeta serão cumpridas, visto que ele é um dos maiores poluentes do mundo, e geralmente tem sua política acompanhada por inúmeros países.

É sabido que o novo coronavírus que causou a pandemia de Covid-19 é produto da relação predatória com a natureza, destruição de habitats naturais e desequilíbrio ambiental. O efeito “transbordamento” causado pelo salto do vírus de um animal silvestre para a espécie humana, é a reação à devastação. Se há culpa na tragédia que vivemos com os milhões de mortos e infectados, esta se dá pela ação suicidária dos humanos, pois, ao destruírem a natureza produzem sua própria destruição, que virá na forma revolta como a natureza tem se manifestado, ou de doenças, estas, casa vez mais agressivas, a atingir uma espécie que se fragiliza por seus próprios meios.

Isto vai se confirmando, pois na mesma semana em que a triste notícia da decisão da Suprema Corte Americana ganha o mundo, a imprensa brasileira anuncia que os casos de varíola dos macacos (monkeypox) chega a 37 no país, conforme informa o Ministério da Saúde. Trata-se de um novo fenômeno global, que não tem a gravidade da Covid-19, pois para a varíola dos macacos há vacina e medicamentos, mas anuncia novos tempos, de maior exposição dos humanos a doenças, que tem origem no desequilíbrio causado por suas próprias ações.

No seu livro “Onde Aterrar? _ Como se orientar politicamente no Antropoceno”, o antropólogo Bruno Latour analisa de forma profética as mutações geofísicas da terra, causadas por intervenção humana, e anuncia a emergência climática precedida do afrouxamento das regulamentações governamentais, a explosão das desigualdades sociais, o colapso ecológico, o negacionismo climático, que tem como efeito a ascensão do populismo para o governo de países centrais.

Tudo parece um filme de terror visto por populações inteiras que insistem na cegueira branca retratada no livro “Ensaios sobre a Cegueira” de José Saramago. Só que não é filme, é tão real quanto acordar todo dia, e nós estamos imersos neste cenário. Vivemos um tempo em que ficção e realidade se fundem como roteiro de uma tragédia interminável. Não bastasse a grave situação global tingida com as cores cinzentas da destruição da natureza, das mortes causadas pela pandemia, assistimos a uma violenta guerra no coração da Europa, com ameaças de escalar para um conflito nuclear.

Espero viver mais algum tempo para contar aos netos uma história bonita sobre a experiência de viver da minha geração. Por enquanto esta beleza se encontra longínqua, na memória ancestral, num passado afetivo e familiar, na periferia do mundo. Haverá um tempo de alegria, sigo nesta aposta.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Colunista

Emerson Merhy, Ricardo Moebus, Túlio Franco e Cléo Lima

Emerson Merhy, Ricardo Moebus, Túlio Franco e Cléo Lima

Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos, Túlio Franco é psicólogo, Cléo Lima é pedagoga.


Saiba mais sobre Emerson Merhy, Ricardo Moebus, Túlio Franco e Cléo Lima...