Semana On

Quinta-Feira 11.ago.2022

Ano X - Nº 499

Coluna Re-existir na diferença

Um ‘lugar errado’ chamado Amazônia?

Crimes de mando e co-mando

Postado em 23 de Junho de 2022 - Ricardo Moebus

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A Polícia Federal negou a hipótese de “crime de mando”.

Segundo a Polícia “os executores agiram sozinhos, não havendo mandante nem organização criminosa por trás do delito”.

Segundo a Polícia Federal não há indícios de organização criminosa envolvida nestes assassinatos.

Segundo o vice-presidente, “essas pessoas aí que assassinaram covardemente os dois são ribeirinhos”.

Segundo Superintendente da Polícia Federal do Amazonas, o jornalista inglês estaria no lugar errado, na hora errada, com a pessoa errada.

Talvez toda a Amazônia venha se tornando “um lugar errado” para se estar durante essa “hora errada” que vivemos há quase quatro anos de necropolítica acentuada. Talvez o Brasil venha se convertendo nos últimos anos deste desgoverno em um “lugar errado” no mundo. Talvez qualquer defensor dos direitos indígenas, dos direitos humanos, dos direitos ambientais, se tornou neste país uma “pessoa errada”, na distopia que vivemos.

Os povos indígenas vem sofrendo invasões, agressões, saques das riquezas naturais em seus territórios de forma sistemática, organizada e criminosa.

O garimpo ilegal em terras indígenas, por exemplo, é uma atividade que envolve grandes investimentos, que incluem uma frota de aeronaves, construção de uma dezena de pistas de pouso clandestino, uma verdadeira logística de guerra, toda uma estrutura de equipamentos pesados em áreas remotas, de difícil acesso. É evidente que tudo isto seria impossível sem uma grande organização criminosa competente.

Os povos indígenas na defesa de seus territórios estão enfrentando diariamente o crime organizado, a máfia, as milícias armadas, sem a necessária proteção ou suporte do Estado brasileiro.

A morte De Bruno e Dom, aliados dos povos indígenas, dos defensores das terras indígenas, não é um acidente, não é ocasional, não é um episódio isolado, não é um atrito pessoal, não é uma briga de rua, não é um atrito doméstico local, é mais um capítulo triste e lamentável deste momento necropolítico que vivemos, momento de ataque e sequestro dos direitos sociais, dos direitos ambientais, dos direitos coletivos e individuais, é sistemático, é estrutural e estruturante desta guerra híbrida que se desenrola na Amazônia.

A Univaja, organização que congrega inúmeras associações de vários povos do Vale do Javari, tenta heroicamente se contrapor a esta narrativa oficial, insiste que a Polícia Federal desconsidera as informações contidas em inúmeros ofícios que a Univaja vem enviando há muito tempo, pedindo socorro, pedindo ajuda.

Pelo menos desde o segundo semestre de 2021 a Univaja vem enviando ofícios pedindo socorro, denunciando invasões em suas terras, denunciando atividades ilegais em suas terras, denunciando uma ação sistemática de organizações criminosas atuando em suas terras, denunciando intimidações e ameaças, feitas por membros destas organizações criminosas.

A Univaja tem uma posição de liderança neste momento trágico, na disputa das narrativas, combatendo as tentativas de minimizar a importância deste homicídios, combatendo a narrativa que tenta atribuir estas mortes a uma questão pontual, a alguma rivalidade ou desentendimento local, mortes que estão claramente relacionados com o avanço e a desregulação da atividade criminosa organizada e sistemática na Amazônia brasileira.

Não é contra pescadores, não é contra ribeirinhos, que os povos indígenas estão lutando na defesa de seus territórios. É uma luta hercúlea, gigantesca, uma guerra contra o crime organizado, contra organizações paramilitares fortemente armadas e bem financiadas, é contra uma necropolítica que de formas indiretas ou diretas incentiva o saque, a grilagem, as invasões do patrimônio público, como projeto de governo.

Há uma guerra em curso na Amazônia brasileira, isto não pode ser minimizado, pelo contrário, é preciso enxergar este conflito armado, para combater o crime organizado que toma conta do país.

É preciso reconhecer e validar a narrativa da Univaja, que vem se esforçando para que os Territórios Indígenas, com sua força e potência na sustentação da biodiversidade, deixem de ser o “lugar errado”, para que nosso tempo deixe de ser esta “hora errada”, para que os defensores dos direitos indígenas deixem de ser a “pessoa errada”. 


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Emerson Merhy, Ricardo Moebus, Túlio Franco e Cléo Lima

Emerson Merhy, Ricardo Moebus, Túlio Franco e Cléo Lima

Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos, Túlio Franco é psicólogo, Cléo Lima é pedagoga.


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