Semana On

Quinta-Feira 11.ago.2022

Ano X - Nº 499

Coluna Re-existir na diferença

A justiça é um moedor de pretos

‘Dois Estranhos’ e o racismo nosso de cada dia

Postado em 09 de Dezembro de 2021 - Túlio Batista Franco

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“A justiça é um moedor de pretos, diz irmão de homem preso por engano”, é a manchete de vários jornais no dia 18 de novembro de 2020, e que ecoa como um grito de milhões de jovens, crianças, homens e mulheres que sofrem com um cotidiano racista. Ele não é só estrutural, ele forma uma subjetividade colonial, marcada pela estratificação das pessoas conforme sua tipificação fenotípica. Essa é a ideia de raça, uma invenção humana do século XVII, um conceito criado para subjugar certos grupos populacionais, por outros que hipoteticamente seguem um padrão estético, convencionado não se sabe por quem, mas construído socialmente para operar na construção de uma sociedade dividida, opressora, e precária nos seus valores civilizatórios.

Soube que famílias negras educam suas crianças para elas saberem como lidar com um “enquadro” policial que vai acontecer algum dia nas suas vidas. As notícias de jovens negras e negros que são abordados em qualquer canto desse imenso Brasil, ruas, lojas e praças, estão frequentando em abundância os noticiários. A sociedade produziu seus inimigos, e eles são pretos, pobres, e perseguidos cotidianamente pela imagem branca dos corpos de policiais que hipoteticamente deveriam servir segurança, harmonia, conforto.

Penso nos meus netos e seus corpos infantis, a candura de acreditarem em um mundo bom, de pessoas amáveis, e se algo, como um “enquadro” violento, indigno, humilhante, acontecesse com eles, meu coração destroçado permaneceria aberto e ferido, até que o tempo com sua sábia natureza colocasse os afetos em ordem, devolvendo a potência do meu corpo. Me vejo no lugar de pais negros, com filhas e filhos pretos, e sei que nunca vou saber exatamente seus sentimentos, mas, consigo sentir a beleza e tristeza do olhar, a vigília sobre a filha e o filho que crescem, guardando o futuro que chega devagarinho e sorrateiro. A violência não precisa vir necessariamente de um braço policial branco. Ela pode ser tão sutil quanto mórbida, e expressar a censura aos corpos negros pela esquina dos olhos alheios, no pátio da escola, na entrevista do emprego, na sala, na festinha da turma, na tela da televisão. O andar a vida se torna pesado, e é feito com esforço adicional, e muita solidariedade.

O filme Dois Estranhos produzido pela Netflix, dirigido por Martin Desmond Roe e Travon Free, é vencedor do Oscar 2021 na categoria curta metragem. Tem 32 minutos de suspense, e de porrada no estômago de uma sociedade hipócrita, que vende falso igualitarismo, e massacra pessoas negras nas vielas de qualquer cidade do país. De forma nua e crua os diretores vão apresentando situações nas quais um jovem negro, protagonizado pelo rapper e ator norte-americano Joy Badass, se vê sempre diante dos braços brancos de um policial (Andrew Howard), e em um beco sem saída, ou seja, todas as possibilidades deste encontro levam ao “enquadro”, cenas reais de um cotidiano brutal de humilhação, violência, tortura e permanente vida ameaçada.

O cenário é os EUA, algumas cenas lembram os recentes acontecimentos por exemplo, o assassinato de George Floyd. Enquanto era asfixiado por um joelho branco no pescoço negro, George denunciava: _ “não consigo respirar”. Frase que mostrou o sufocamento de milhões de pessoas, que marcharam nas ruas americanas e soltaram seu grito com a força que o oxigênio dos seus pulmões permitia: “vidas negras importam”.

Vidas Negras Importam!

Racismo Nunca Mais!


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Emerson Merhy, Ricardo Moebus, Túlio Franco e Cléo Lima

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Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos, Túlio Franco é psicólogo, Cléo Lima é pedagoga.


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