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Domingo 23.jan.2022

Ano X - Nº 475

Coluna Re-existir na diferença

Um remédio chamado felicidade

Ela tem 45 anos, casada, uma filha de 19 anos e um filho de 15. Mora na periferia de uma grande cidade. Faxineira profissional

Postado em 02 de Dezembro de 2021 - Cláudia Duarte Lanna

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Ela tem 45 anos, casada, uma filha de 19 anos e um filho de 15. Mora na periferia de uma grande cidade. Faxineira profissional.

Ela está em um serviço psiquiátrico de crise, veio para uma videoconsulta, novidade em tempos de pandemia.

Maria Cristina faz tratamento há muitos anos para depressão com sintomas psicóticos. Faz 3 meses parou de tomar os remédios. Esta semana chegou em crise, foi internada e ontem fugiu. Hoje volta para recomeçar seu tratamento.

Boa tarde, Maria Cristina, como vai?

Você está rindo por quê? Porque você é feliz, né?

Quis saudar você com um sorriso, espero não ter lhe ofendido.

Gente feliz ri à toa… eu tomava aquele remédioserfeliz.

Tomava o quê?

O remédioserfeliz, uai. Até funciona, eu não devia ter parado.

Isso não existe. Nenhum remédio pode fazer alguém feliz.

Existe, a médica lá do posto me explicou que eu tomando esse remédioserfeliz eu ia sorrir também.

Eu não sou feliz e não aguento ver gente rindo. Fico pensando de quê que essa gente tá rindo, me dá uma raiva, uma vontade de esganar essa gente sorridente…

Você está brava comigo? Por um sorriso?

Até me lembrei daquele samba: tire seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor…

Você canta também, ela é feliz mesmo, olha só…

O que te aconteceu pra você ficar tão triste?

Tanta coisa, difícil de contar… Eu trabalho num condomínio de alto padrão, longe, duas torres de 23 andares, só mora político, deputado, empresário. Eu faço a limpeza, eu e mais duas. Lá eu sou muito humilhada. Tem uns meninos que são o capeta, ficam dizendo que sou preta e suja, que não adianta eu limpar, que onde eu passo fica sujo. Que eu cheiro mal. Tem um que agora passou a me chutar, além de me xingar. Eu reclamei com o síndico, ele falou com a mãe do menino e ela disse que só o que faltava era empregada querendo corrigir o filho dela.

O pior é isso, ninguém faz nada. Eu fiquei tão nervosa que quis pular do 23o andar, pra fazer bastante sujeira lá pra essa gente.

Eu avisei o menino que da próxima vez vou empurrar ele na piscina, vou ensinar uma lição. Mas criança é assim mesmo, né, fala bobagem…

Você pode dar queixa na polícia, racismo é crime, ninguém tem o direito de te humilhar assim. Criança repete o que ouve dos adultos em casa. A responsabilidade é dos pais.

Dar queixa não adianta, só a minha palavra não conta. Ninguém vai testemunhar a meu favor, com medo de perder o emprego. Emprego tá muito difícil com essa pandemia.

E com essa gente não adianta conversar. Sabe que eles fizeram uma festa de luxo pro cachorro deles? Com bolos, gente chique convidada, dizem que o cachorro ganhou uma coleira de diamantes…

Nossa, lembrei de outra música: troque seu cachorro por uma criança pobre…

Não trocam nunca, doutora! Não dão cem reais pra um pobre e gastam uma fortuna pra fazer festa de cachorro.

Então é por isso que você é triste? Porque sofre racismo diariamente?

A vida toda foi assim, quem é preto sabe. Eu tenho é raiva dessa gente branca feliz. Eu sou suja, não adianta lavar, não sai mesmo. Eu não gosto de mim, como que eu posso ser feliz? E tem coisa que eu já passei que fica marcada na alma. Como que uma criança de 11 anos pode ser estuprada e um dia ser feliz? Nunca mais…

Maria Cristina rompe em choro. Quando se refaz um pouco, pede para falar de outro assunto.

E esse tal remedioserfeliz ajudava você um pouco?

Ajudava, eu tava boa, tava ótima. Por isso que parei.

Tem uma menina branca vestida de branco que me acompanha, me ajudou a fugir daqui ontem… na minha casa tem uma cobra na minha cama, mas meu marido não vê ela, diz que eu estou louca.

Você bebe? Usa droga?

Eu quase que virei alcoólatra. Outro dia de raiva bebi tudo que vi na frente, cerveja, vinho. Cachaça tentei uma vez, engasguei, me saiu pelo nariz, terrível, não aguento. Mas eu parei de beber tem tempo, já. Não posso por conta da pressão alta, ela foi a 200 e meu coração a 170… mas fumar, eu fumo.

E você vive bem com seu marido? Ele te trata bem?

Eu só não tenho amor por ele. A gente vive bem, ele me ajuda muito. Se não fosse ele, eu já tava morta. Mas amor, isso aí não existe não. Mentira.

Eu gosto do meu trabalho, faço tudo com gosto e capricho. Mas eu tô cansada. Trabalho desde os 7 anos, não tive infância, casa de família. Mas meus filhos estudaram com meu esforço, pra não ter essa vida suja que eu tenho. Minha filha foi de avião, doutora, de avião pra São Paulo, vai fazer universidade. Pelo meu trabalho. Meu filho estuda em colégio bom no centro da cidade.

Quanto esforço. Que bom que seus filhos estão bem.

Você ouve vozes?

Me xingando, dizendo que eu não valho nada, pra eu desaparecer que ninguém vai sentir a minha falta. Nega fedorenta, pedaço de carvão, cabelo duro, pixaim, estrupiço, porquê você não morre logo?

Outro dia raspei a cabeça. Meu marido falou que é isso, surtou de vez? Surtei nada, quero raspar, raspo. Já tá crescendo de novo, o pixaim…

E eu também não gosto de roupa branca, só uso preto. Não gosto que ninguém me mande. Briguei com a psicóloga, ela me mandou cantar. Eu não gosto de cantar, detesto música, gente rindo, festa. Eu gosto é de sentir dor. Quando estou nervosa, me corto um pouco no braço e melhoro.

Você acha que tem condição de voltar a trabalhar nesse emprego? Você quer tirar uma licença?

A médica lá do posto já me deu 15 dias, depois tenho que voltar, minha filha tá em São Paulo pra estudar, a despesa é grande, eu ganho só mil cento e oitenta reais, não quero fazer dívida.

Agora eu só quero ir pra casa, doutora, me passa os remédios, eu preciso dormir.

A senhora mora onde, doutora? A tecnologia evoluiu demais…

Você promete que vai ficar bem? Volta daqui a 3 dias?

Volto, não se preocupe, já estou melhorando.

Depois desta conversa, não me sai da cabeça aquela música do Tim Maia:

“Vou me embora agora pra longe

Meu caminho é ida sem volta

Uma estrela amiga me guia

Minha asa presa se solta

Eu

Vou ver Cristina…

E por onde for vou deixando

Marcas do meu peito sangrando

Vou cobrir as flores da estrada

De um vermelho amor, madrugada

Eu

Vou ver Cristina

Minha menina.”

Claudia Duarte Lanna é psiquiatra


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Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos, Túlio Franco é psicólogo, Cléo Lima é pedagoga.


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