Semana On

Domingo 28.nov.2021

Ano X - Nº 469

Coluna Re-existir na diferença

Diário de um transeunte psiconáutico

Processos de flexibilização

Postado em 28 de Outubro de 2021 - Régis Moreira

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

No último sábado, depois de minhas gotas homeopáticas e mágicas chegarem até minhas mãos, pela primeira vez, desde que a pandemia nos aprisionou dentro das casas, retornei ao aeroporto para uma viagem familiar.

Coração apertado, não tanto quanto a máscara PFF2 no rosto, que insistentemente forçava mais a vedação. Faceshield, álcool gel na bolsa e vamos. Vi numa reportagem da TV que os protocolos estão sendo cumpridos pelas cias aéreas... E sabe qual é o protocolo? – Nenhum. Nenhum distanciamento entre os passageiros. Fui grudado com um moço do lado, que por sua vez estava grudado com uma senhora. Todos os assentos tomados. Nem um álcool gel foi entregue pela aeromoça – Juro que pelo menos por isso eu esperava, como quem dissesse, se cuide, viu?. A única diferença que notei no voo foram alguns avisos sonoros sobre a pandemia – aqueles protocolares – e o lanche que deixou de ser servido – o que para as cias aéreas deve estar sendo uma economia danada.

Em SP, aeroporto cheio, tudo tomado de gente, pelo menos, a maioria mascarada.   

São Paulo estava no trecho de minha viagem, fiz parada e passei o dia por lá.  Resolvi me aventurar num metrô, já que era sábado e imaginei estar mais esvaziado. Fui apertado, como quando a gente compra um número de calça menor e luta pra vestir, isso mesmo, assim, vagão lotado. Olhava praquelas pessoas. Tentava prender a respiração... mas nada, estávamos todos muito próximos e quando desci, como não esbarrar. Inicialmente usei aquelas palavras educadas, como - com licença, vai descer?, deixa eu passar?... – porém me esqueci que em SP nem sempre isso funciona, pelo menos no metrô lotado, até porque as pessoas nem tinham como se mover pra você passar. Eu tive que usar meu corpo e ir abrindo caminho (mas acontece que eu não queria esbarrar em ninguém, tinha um pouco de pânico quando isso acontecia) porém lá fui eu esfregando ombro num, bunda noutro, braço aqui, costas acolá... ufa!, consegui descer no destino.

Feirinha da Liberdade. A ilusão persistia - tá chovendo, deve estar vazia. Acredito que as outras pessoas também tiveram a mesma ilusão que eu ou a pandemia acabou mesmo e esqueceram de noticiar. Estava bem cheia, mesmo com chuva. Como no metrô, a maioria mascarada, mas tem muitos jeitos incorretos de usar máscara, né. Nariz de fora, fraldinha de queixo, na mão, na testa, até no rabo alguém do desgoverno mandou a gente usar (confesso que no rabo – pelo menos visivelmente, não vi ninguém usando).

Fui procurar uma coisinha pra comer na praça de alimentação da feira e... deus meu... quanta gente sem máscara comendo seu yakisobas e outros tais, se equilibrando entre um guarda-chuva, um vírus e um monte de gente que passava. Fugi de medo.

Mas eu não estava pra brincadeira neste dia. Depois de comer a tradicional feijoada de um boteco clássico de esquina, perto do apartamento de minha sobrinha, que me acolhe em Sampa (pedi marmitex pra comer em casa – achei prudente), lá fui eu novamente pra rua. Destino: Cine Belas Artes – A Dona do Barato. Que saudade ir ir ao cinema que eu estava!

Poucas pessoas, lugar numerado e alternado, etc, mas lá dentro, pessoas comendo suas pipocas e refris e, obviamente, sem máscaras. Me afundei na poltrona, apertei ainda mais o fixador da minha, que chegou até a fazer marcas embaixo dos olhos... Passei pela Paulista, Consolação, metrô novamente, uma pizza e caminha (minha dieta do dia foi super balanceada, né?)

No dia seguinte, enfrentei o Terminal Rodoviário Tietê. Tem ideia do que seja isso pra quem passou todo o período da pandemia em isolamento rigoroso e recentemente acabou de chegar de uma praia quase deserta? Pois então, busão cheio, algumas pessoas com as máscaras na cara, outras no colo e outras sei lá onde... lá vou eu, com toda educação, pedir pras duas senhoras, que estavam bem ao meu lado, colocarem, por gentileza, a tal indumentária – sempre faço isso com medo, porque a ignorância negacionista tomou conta de muitas pessoas. Desta vez deu certo, colocaram e seguimos a viagem.

Uma curiosidade e um detalhe super mega positivo do dia. Tomei dois Uber em SP. Um quando cheguei, com uma lésbica ma-ra-vi-lho-sa – queria ser amigo dela – super interada da pandemia e dos desgovernos em curso.  Fomos falando muito e lavando a alma. Precisamos desopilar com nossos pares, né? Depois no dia seguinte peguei outro motorista, esse com uma cara suspeita e eu costumo não puxar assuntos de política, pois onde moro, os uber/táxis e outros mais tem na testa uma bandeira do brasil (com “b” minúsculo mesmo, pois não é do país em que vivemos a bandeira que empunham – é do ódio e da intolerância – e o Brasil é bem melhor que esse povinho equivocado). Enfim, o uber era um eleitor do inominável, mas arrependido – clássico, né – o chamou de ignorante pra baixo, disse ter vergonha de sua representação e incompetência. E eu pensando – E não percebeu a merda antes de votar, não, é? Tava cego? – mas bora lá, desatei a falar tudo o que penso a respeito e ele ficou pianinho e compreendemos muitas coisas... Foram duas viagens revigorantes com motoristas que não votarão nele não em 2022. Acho que o Brasil tem jeito. Vai ter. Vamos virar esse jogo dos infernos.

Depois de chegar na terra natal e encontrar a mãe com a costela trincada, com toda complexidade que isso significa, pinga-pinga gotinhas para dormir.

No retorno, de novo em SP, aventurei-me num show no Sesc Vila Mariana, do Grupo Pau Brasil. Pela primeira vez senti todos os protocolos sendo respeitados e pela primeira vez solicitaram minha carteirinha de vacinação – acreditem – mas mal verificaram, poderia ter apresentado um xerox qualquer que estaria valendo, tive a impressão... Plateia toda alternada, uma poltrona e pula quatro, todos mascarados e emoções à flor da pele... quando os músicos maravilhosos entram em cena executando “No rancho fundo” – bem essa música que fala da saudade do moreno, que só tem a lua como companhia – bem essa que experimentamos nos confinamentos pandêmicos – lágrimas verteram e molharam a máscara. Estava na primeira fila e conseguia sentir uma energia, que não consigo dar palavras até agora. Chorei copiosamente durante quase o show inteiro e estou chorando até agora, com a emoção de poder voltar, numa mistura de revolta do que fizeram de nós com os descasos todos dos desgovernos necropolíticos – era pra já ter sido muito mais rápido e com muitos mais pessoas vivas, caso tivessem competência e interesse. Apesar de tudo, estava vivo e de novo no lugar onde me faz ser sentir estar vivo... quando a banda diz que era o primeiro show pós confinamento, que comemoravam 40 anos de carreira e naquele palco, onde realizaram o primeiro show de sua carreira. Imagem o tamanho da emoção ali contida e eu conseguia captar tudo isso, que se transversalizava com meus afetos e se materializavam cachoeiras em meus olhos.

Dias atípicos na vida de um confinado em flexibilização. Haja homeopatias alternativas transeuntes psiconáuticas.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Colunista

Emerson Merhy, Ricardo Moebus e Túlio Franco

Emerson Merhy, Ricardo Moebus e Túlio Franco

Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos, Túlio Franco é psicólogo


Saiba mais sobre Emerson Merhy, Ricardo Moebus e Túlio Franco...