Semana On

Domingo 23.jan.2022

Ano X - Nº 475

Coluna Re-existir na diferença

Defender Gaia é defender a nós mesmos

De que lado olhamos o mundo que nos cerca?

Postado em 19 de Agosto de 2021 - Emerson Merhy

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‘Quando Gaia é o sagrado toda nossa ação é para defendê-la, por estarmos defendendo nós mesmos, uma das expressões encantadas dos muitos viventes que são gerados por aquela formosura’ - Emerson Merhy

Nesse agosto de 2021, o BDMG apoiou várias conversas instigantes no Seres Rios Festival. No dia 4 de agosto, houve uma roda sobre O Futuro dos Rios (assista abaixo) com: Alessandra Korap, André Aroeira e Gustavo Malacco, com mediação de Bernardo Esteves. Alessandra é do povo Munduruku que habita o Médio Rio Tapajós, André e Gustavo são biólogos e importantes ambientalistas nas lutas pela preservação e recuperação dos Rios, considerados por todes como Seres e não lugares de recursos hídricos.

Logo em sua fala inicial, Alessandra Korap aponta que o Tapajós foi criado por 3 sementes de tucumã. Se tem gente que acredita que foi o Deus cristão que criou o mundo, e outras que creem que os cientistas é que têm razão sobre a origem da natureza e dos seres vivos, porque a história ancestral do seu povo não tem veracidade? Ela deixa claro no seu posicionamento de que lado olha o mundo e de que mundo está apontando.

Alessandra logo toma posição dizendo que o sagrado é aqui onde estamos como viventes, com todos os viventes que existem, e que os rios como seres são sagrados, bem como a floresta, as montanhas e o seu povo, assim como todos os povos originários. Indica que em torno do Tapajós há, hoje, 13 povos vivendo em vínculo vital com o rio.

Denuncia que há mais de três anos vem sendo ameaçada de morte por poderosos, que veem no rio e nos seus territórios - demarcados desde 2014 - lugares para explorarem como mercadoria, onde possam obter dinheiro e nada mais que isso. Denuncia que qualquer modo de vida que se contraponha a isso é imediatamente ameaçado e eliminado. Mas, para ela é impossível não resistir, isso seria um contrassenso em tudo que acredita. Seria muito difícil deixar destruírem seus seres sagrados, pois isso destruiria todo seu povo.

Durante a evolução da conversa, os dois biólogos vão mostrando que são também muito ativos na luta contra a destruição desse mundo natural pelos interesses lucrativos da sociedade capitalista e vão apontando lutas nessa direção. Entretanto, por várias vezes defendem acertos sociais necessários para se construir políticas públicas que possam apontar para outros valores de uso para os rios, que a preservação dos mesmos deveria ser chave não só para combater a destruição da natureza que ameaça a existência da espécie humana, mas também para se constituírem em meios a fornecerem recursos comercializáveis de outros tipos, vinculados a esses processos de preservação.

Falam contra as grande barragens, mas apontam que é possível usar comedidamente o potencial energético dos rios, sem destruí-los. Apontam para políticas públicas que façam desses rios ecossistemas que permitem vantagens turísticas para os povos ribeirinhos, que ali estão. Advogam que os governos, que devem dar sustentação a isso, devem estar abertos a participação ampliada dos vários atores sociais interessados nessas questões, na produção de políticas e estratégias de ação.

Alessandra retoma a palavra e de forma enfática diz: não existe modo de explorar o Rio Tapajós de um modo limpo, como muitos dizem. Essas questões de projetos sustentáveis com interesses comerciais é uma balela, pois sempre irão ferir os Seres Rios. Que, lá no fundo, os povos da floresta e dos rios é que sabem viver intimamente com essa produção intensiva de vidas em suas multiplicidades.

Alessandra não concede no seu perspectivismo de que Gaia é sagrada, que todos os viventes são sagrados, e que o sagrado está aqui onde como viventes vamos gerando as vidas em suas multiplicidades. Aponta que as outras formas de ver o que é o mundo, que toma o sagrado como fora da Terra, gera um modo de viver e modos de considerar a Terra simplesmente como recursos a serem explorados, inclusive por apostarem que só a morte os libertará do sofrimento ao libertá-los da própria Terra (como falam os judáicos-cristãos em suas pregações).

Com isso, Alessandra indica que a luta é bem mais profunda. É uma luta por um mundo-outro, no qual os viventes se orgulhem de serem elementos de Gaia e seus Guardiões. Gaia é o Sagrado. E faz isso, sem colocar os biólogos ativistas para fora desta luta, ao contrário, produz um chamamento para que nossas percepções colonizadas sejam colocadas em interrogação de modo mais radical e efetiva.

Alessandra anda em boas companhias. Vejam as falas insistentes de Ailton Krenak, Carlos Papá, Davi Kopenawa nesta mesma direção, entre tantos e tantas.


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Colunista

Emerson Merhy, Ricardo Moebus, Túlio Franco e Cléo Lima

Emerson Merhy, Ricardo Moebus, Túlio Franco e Cléo Lima

Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos, Túlio Franco é psicólogo, Cléo Lima é pedagoga.


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