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Sexta-Feira 22.out.2021

Ano X - Nº 463

Coluna Cine Drops

‘Jenipapo’ e a fragilidade da verdade

Pensar profundamente sobre algo que o senso comum julga tão fácil de entender, como a verdade, ainda é o melhor caminho para escapar de sua mitificação simplista

Postado em 14 de Abril de 2021 - Clayton Sales

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No sertão baiano, um conflito fundiário promete explodir. Enquanto um projeto de lei favorável aos latifundiários é pauta do Congresso Nacional, lideranças de trabalhadores são assassinadas e intimidadas pelos coronéis do campo. A luta pela terra é o ponto nervoso do Brasil profundo que encontra em figuras como o padre Stephen Louis um aliado. O clérigo originário dos Estados Unidos realiza seu sacerdócio na região, onde o barril de pólvora está à espera de uma faísca para estourar. Ele utiliza sua paróquia para esconder militantes perseguidos e movimenta sua igreja para ajudar os necessitados, promovendo eventos de caridade e se aliando a uma classe média local relativamente sensibilizada com a situação. Por isso, seu trabalho se tornou alvo do interesse de meios de comunicação. Até entrevista no programa da Marília Gabriela, ele concedeu. Padre Stephen adquiriu uma força simbólica perigosa para os interesses do agronegócio. Se ele usasse seu prestígio nacional para advogar publicamente pela derrubada da matéria, o golpe na elite fundiária seria grande. Porém, padre Stephen tinha uma vulnerabilidade. Estava nas mãos dos poderosos um arsenal de fotos íntimas do padre e Carlos, seu auxiliar na igreja, o que, se fosse revelado, arruinaria a imagem do religioso e colocaria seu trabalho em prol da justiça no campo a perder. O temor que o potencial escândalo aniquilasse o que construiu emudeceu o padre Stephen. Nem a mídia poderia ajudá-lo. 

Então, surge em sua vida o obstinado Michael Coleman, repórter do jornal Brazilian Tribune, uma espécie de diário bilíngue. Ele é considerado o melhor jornalista internacional do veículo e sua tarefa é entrevistar o padre Stephen Louis antes da votação do projeto. Michael Coleman vai até o interior da Bahia para tentar a conversa, mas todas as suas tentativas são frustradas, incluindo seduzir uma financiadora das ações da igreja por conta de sua proximidade com o padre. O jornalista parece não ter escrúpulos, estereótipo recorrente de repórteres investigativos. Diante dos seus fracassos e pressionado pela chefia para conseguir o depoimento do padre, que segue calado, Michael Coleman toma uma atitude drástica e absurda: utiliza todo o material em vídeo, recortes de jornais e documentos que acumulou para construir um perfil do clérigo. O material é tão abundante, que permitiu a ele forjar uma entrevista com o padre. Ele inventa declarações, formula respostas e usa fotos tiradas à distância para ilustrar a aguardada entrevista. Ao voltar para a redação como herói, sua consciência o bombardeia, principalmente após a publicação da matéria em primeira página com manchete principal. As consequências são imediatas. O projeto é derrotado, mas o padre é ameaçado com a divulgação do seu segredo sexual. Diante da situação, Stephen Louis resolve falar a uma imprensa em peso para lhe ouvir. Apavorado, Michael Coleman assiste na TV da redação ao religioso dar uma declaração enigmática: "tudo o que eu penso está naquela entrevista". O padre encontrou um meio retórico de ficar em paz com Deus e com a causa. E para evitar que sua bandeira fosse destruída, enfrentou os capangas, que acabaram o matando. Apenas sua morte, salvaria a luta. Michael Coleman sabe o bem que fez aos sem-terra, mas é ciente do mal que provocou ao padre. 

Dirigido pela cineasta baiana Monique Gardenberg, "Jenipapo" (1995) foi seu primeiro longa-metragem. Produção americana e brasileira, o que explica o bilinguismo do roteiro, o filme é uma das raras obras cinematográficas do país que abordam o jornalismo com alguma profundidade. Além disso, une dois assuntos espinhosos: a ética jornalística e a questão agrária. Apesar do inusitado de um jornal em duas línguas no Brasil e do fato de quase todo mundo na história saber falar inglês, inclusive o delegado, jagunços e militantes sem-terra, o que poderia ser atenuado com a menção de que o padre Stephen Louis, em seu trabalho missionário, também ensinou o idioma aos moradores, a ideia é bastante proveitosa e provocativa. "Jenipapo" é basicamente um filme sobre a verdade e a fragilidade de sua ideia. Sem a "verdade" forjada por Michael Coleman, o padre não veria uma batalha crucial de sua causa ser vencida, consolidando sua visão de mundo favorável aos mais pobres. Stephen Louis tinha duas escolhas: desmentir a entrevista em rede nacional, testemunhar a vitória dos latifundiários, mas manter seu segredo íntimo intacto e arrasar com a carreira de Michael Coleman, ou corroborar com a matéria, celebrar a derrota dos coronéis, mas ver esse segredo arruinar sua causa. No desfecho, o religioso se entrega à morte para salvar o legado para os sem-terra e o jornalista em estado de glória pelo furo agoniza numa cama de hospital, após uma forte crise nervosa que o atingiu depois de saber do assassinato do padre Stephen. 

É emblemático que "Jenipapo" tenha escolhido dois elementos que construíram sua influência social sob conceitos distintos de verdade: a imprensa e a igreja. Enquanto o jornalismo conduz seu trabalho procurando trilhar o caminho da verdade factual, ou seja, a perseguição à fidedignidade dos fatos como eles são apresentados pela realidade, a religião cristã consolidou sua forte presença no cotidiano a partir da ideia espectral de uma verdade imperativa nascida no divino, que deságua em mandamento moral e condenação ao pecado da mentira. O jornalista Michael Coleman e o padre Stephen Louis são símbolos das instituições que representam, dependentes de credibilidade e crença, mas no filme, suas vulnerabilidades são expostas e aglutinadas de forma perturbadora. Michael Coleman, no entanto, deseja os louros do tão almejado êxito jornalístico e se livrar do cerco hierárquico de sua redação. Sua motivação é essencialmente pragmática e egoísta. Porém, padre Stephen enxergou no mais grave pecado do jornalismo, um sinal de providência celestial e encontrou um meio de transformá-lo em instrumento de um "bem maior" na sua visão. A farsa a serviço da vida, já que o projeto de lei derrotado daria aos latifundiários, entre outros poderes, a senha para mais massacres no campo. 

Em um lampejo de sua corrosiva crise de consciência, Michael Coleman chegou a pedir para que a publicação fosse interrompida, mas o entusiasmo de seu chefe era tanto que, quando ouviu sobre a tiragem dobrada da próxima edição, entregou tudo ao destino. Padre Stephen, por sua vez, ao tomar conhecimento da reportagem e da sua aclamada repercussão, assumiu para Carlos que não havia feito aquilo e que alguém falou com sua voz. Houve um momento em que Michael e Stephen se encontraram. Aconteceu após o repórter enviar o texto para a redação. Michael pede desesperadamente para que o padre fale com ele. O padre pergunta como pode ajudá-lo. Era a hora da cartada final para a sonhada entrevista e, quem sabe, o alívio de sua consciência, mas o que sai da boca do jornalista são combalidos "estou cansado" e "me perdoa, padre". Então, Stephen segura seu braço e, num lance forçado do roteiro, mas apropriado à narrativa, afirma que "às vezes, Deus nos utiliza sem nosso conhecimento". O padre sabia que havia um jornalista na cidade querendo entrevistá-lo a todo custo? É provável, já que Michael dormiu com uma colaboradora da igreja e amiga pessoal do clérigo. Como Cristo, ele imaginava que havia um Judas nas redondezas que poderia traí-lo, porém, era esse o rumo que as coisas precisavam tomar? Um mentiroso mostrou a coragem que o padre desejava? E por que Michael sequer pediu a entrevista? Receio da esperada negativa e de agravar o peso de sua consciência? Era tarde demais, a matéria já estava nas mãos do jornal. Restava a Michael seguir o roteiro da própria fraude. Estava refém dela. 

No meio dessas perguntas, estão as complexas construções do conceito de verdade. Em tempos de informações falsas produzidas em escala infinita interferindo na vida da humanidade e com alcance ilimitado graças à capilaridade da internet, é importante que essas vulnerabilidades sejam compreendidas e neutralizadas com doses fatos e provas. Justificar a negação da verdade com o argumento do "bem maior" pode ser discutível, mas é uma armadilha perigosa. Porque o "bem maior" é um armário onde cabem muitas roupas, nem todas apropriadas. Mentira para salvar vida ou a verdade apesar da morte? Antigo dilema filosófico que requer maturidade para seu entendimento. "Jenipapo" finaliza com a misteriosa cena de Carlos pegando o elevador e se dirigindo ao quarto do hospital onde Michael está internado. Seu olhar era de vingança quando as portas se fecham e o longa-metragem termina. Afinal, verdade e mentira tem consequências. Quando ambas se aglutinam, o que vem depois é ainda mais difícil de dimensionar. Por isso, o filme é ótimo para provocar essa reflexão necessária nestes dias de falsificações abundantes. Pensar profundamente sobre algo que o senso comum julga tão fácil de entender, como a verdade, ainda é o melhor caminho para escapar de sua mitificação simplista. Para isso, "Jenipapo" oferece interessantes pistas.


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Colunista

Clayton Sales

Clayton Sales

Clayton Sales é jornalista, radialista, professor e músico.


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