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Domingo 17.out.2021

Ano X - Nº 463

Coluna Agromundo

Entidades do agronegócio divulgam manifesto em defesa da democracia

Convulsões de Bolsonaro levam agroindústria a perder dinheiro e a paciência

Postado em 02 de Setembro de 2021 - DW, Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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Sete entidades que representam o agronegócio no Brasil divulgaram no último dia 30 um manifesto no qual expressam preocupação com os "atuais desafios à harmonia político-institucional" no país e possíveis reflexos na estabilidade econômica e social, e reforçam a importância do Estado democrático de direito.

"Somos responsáveis pela geração de milhões de empregos, por forte participação na balança comercial e como base arrecadatória expressiva de tributos públicos. Assim, em nome de nossos setores, cumprimos o dever de nos juntar a muitas outras vozes responsáveis, em chamamento a que nossas lideranças se mostrem à altura do Brasil e de sua história agora prestes a celebrar o bicentenário da independência", afirma o texto.

"A Constituição de 1988 definiu o Estado democrático de direito no âmbito do qual escolhemos viver e construir o Brasil com que sonhamos. Mais de três décadas de trajetória democrática, não sem percalços ou frustrações, porém também repleta de conquistas e avanços dos quais podemos nos orgulhar. Mais de três décadas de liberdade e pluralismo, com alternância de poder em eleições legítimas e frequentes", escrevem as entidades.

O manifesto é assinado pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal (Abisolo), Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Associação Brasileira de Produtores de Óleo de Palma (Abrapalma), Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) e Croplife Brasil.

Outros setores elaboram segundo manifesto

A iniciativa ocorre em meio a articulações no meio empresarial para tornar públicos posicionamentos críticos sobre o governo Jair Bolsonaro, após investidas crescentes do presidente e de seu entorno contra a legitimidade das urnas eletrônicas e contra instituições como o Supremo Tribunal Federal, além de ameaças às eleições de 2022.

A Federação da Indústria do Estado de São Paulo (Fiesp) e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) também preparam um manifesto em favor da democracia, mas adiaram a divulgação após o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, vinculados ao governo federal, afirmarem que deixariam a Febraban se ela apoiasse o documento.

Esse segundo manifesto deve ser divulgado após o feriado de 7 de setembro, Dia da Independência, quando são esperados atos a favor e contra o governo em diversas capitais do país.

Em 20 de agosto, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços do cantor Sérgio Reis, do deputado federal bolsonarista Otoni de Paula (PSC-RJ) e de outras oito pessoas investigadas por incitar atos contra a democracia e o Estado de direito, supostamente vinculados aos atos em 7 de setembro.

"Paz e tranquilidade"

O texto divulgado pelas entidades do agronegócio nesta segunda-feira afirma que o desenvolvimento econômico e social do Brasil depende de "paz e tranquilidade" para seguir avançando na construção de uma nação "que reconhece a maioria sem ignorar as minorias, que acolhe e fomenta a diversidade, que viceja no confronto respeitoso entre ideias que se antepõem, sem qualquer tipo de violência entre pessoas ou grupos".

"Somos uma das maiores economias do planeta, um dos países mais importantes do mundo, sob qualquer aspecto, e não nos podemos apresentar à comunidade das nações como uma sociedade permanentemente tensionada em crises intermináveis ou em risco de retrocessos e rupturas institucionais. O Brasil é muito maior e melhor do que a imagem que temos projetado ao mundo. Isto está nos custando caro e levará tempo para reverter", escrevem os signatários.

"As amplas cadeias produtivas e setores econômicos que representamos precisam de estabilidade, de segurança jurídica, de harmonia, enfim, para poder trabalhar. Em uma palavra, é de liberdade que precisamos — para empreender, gerar e compartilhar riqueza, para contratar e comercializar, no Brasil e no exterior. É o Estado democrático de direito que nos assegura essa liberdade empreendedora essencial numa economia capitalista, o que é o inverso de aventuras radicais, greves e paralisações ilegais, de qualquer politização ou partidarização nociva que, longe de resolver nossos problemas, certamente os agravará", afirma o texto.

Agroindústria perde dinheiro e paciência

No Brasil, empresário não costuma guerrear com o governo senão para obter benesses fiscais e financiamentos camaradas. Mas o empresariado nacional começou a perder a paciência com Bolsonaro. Ocorre no momento um fenômeno muito curioso. O diâmetro do cérebro do presidente da República revelou-se menor do que o diâmetro do bolso dos grandes empresários.

O pedaço do PIB que perde a calma para parar de perder dinheiro se irritou com a decisão da Fiesp de engavetar o manifesto água com açúcar que prega a "harmonização" dos três Poderes da República. Sete entidades do agronegócio brasileiro concluíram que, no momento, o pior tipo de excesso que se pode cometer em relação a Bolsonaro é o excesso de moderação. Essas entidades, que haviam assinado o manifesto da Fiesp, decidiram divulgar seu próprio documento.

Mais apimentada, a manifestação da agroindústria vai ao ponto: Não faz sentido que os brasileiros se apresentem no exterior como "uma sociedade permanentemente tensionada em crises intermináveis ou em risco de retrocessos e rupturas institucionais." Na tradução do manifesto, "o Brasil é muito maior e melhor do que a imagem que temos projetado ao mundo. Isto está nos custando caro e levará tempo para reverter."

Numa referência ao golpismo de Bolsonaro, os agroindustriais flertaram com uma obviedade cuja proclamação se tornou inevitável num país em que o presidente transforma o feriado do Dia da Independência numa ameaça institucional. "É o Estado Democrático de Direito que nos assegura a liberdade empreendedora essencial numa economia capitalista", anota o manifesto que surgiu do recuo de Paulo Skaf, o presidente da Fiesp. Aventuras radicais, diz o texto, agravam os problemas.

Exceto pela pandemia, a crise do Brasil de Bolsonaro é muito parecida com as crises de outros presidentes. Nelas também havia governantes ineptos, o centrão mordendo os cofres do Tesouro e empresários querendo faturar. Só não havia um presidente que vive no mundo da cloroquina, nega todas as crises que o assediam —da crise sanitária à crise hídrica— e faz uma opção preferencial pelo Apocalipse, fabricando um Juízo Final por minuto.

Num ambiente assim, concluíram as entidades do agronegócio, quem se entrega ao dilema shakespeariano (to be ou not to be), como fez a Fiesp, raramente chega a ser.


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