Semana On

Quinta-Feira 11.ago.2022

Ano X - Nº 499

Coluna Ágora Digital

É preciso proteger a democracia

O jornalista Victor Barone resume a semana política

Postado em 30 de Março de 2022 - Victor Barone

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A apologia da ditadura tem sido de uma constância monótona na carreira política de Bolsonaro. As frequentes declarações do presidente e seus seguidores (civis e militares), de que não houve ditadura no Brasil seguem um padrão conhecido. A negação sempre foi arma política usada por qualquer campo, e muito útil para esconder os crimes de períodos autoritários. Lembrar as datas, por sua vez, é parte do conjunto de vacinas contra a repetição dos mesmos erros. Tentações autoritárias sempre espreitaram a democracia.

Em um artigo, a escritora Heloisa Starling busca Hannah Arendt e o livro 'As origens do totalitarismo' para lembrar como a negação da verdade é arma conhecida. “A mentira, diz Arendt, consiste em negar, reescrever e alterar fatos, até mesmo diante dos próprios olhos daqueles que testemunharam esses mesmos fatos”, escreveu Heloisa. Então não há inocência nas declarações sequenciais dadas pelo presidente e seu grupo.

O que houve no Brasil foi uma ditadura. Os dados e os fatos também são abundantes. Foram 950 peças de teatro censuradas, quinhentos filmes, quinhentas letras de música. Houve mais de quatrocentos mortos, 20 mil torturados, 7 mil presos, centenas de exilados. O Congresso foi fechado duas vezes após o AI-5.

Para a direita brasileira seria mais inteligente governar defendendo valores democráticos e implantando políticas públicas nas quais acredita. Mas a direita que chegou ao poder prefere defender o indefensável daquele regime e, assim, se misturar ao pior dele.

O Brasil nunca exigiu que as Forças Armadas reconhecessem os crimes cometidos durante a ditadura. Ao contrário dos países vizinhos, ninguém jamais foi punido por torturas, mortes, ocultação de cadáveres. Os militares deixaram as contas públicas em absoluta desordem, o país pendurado no FMI e com a inflação galopante.

As Forças Armadas passaram os últimos trinta anos ressentidas com a correta interpretação dos fatos políticos ocorridos durante a ditadura. Em seus quartéis e escolas, em conversas internas e em algumas declarações públicas, manifestam a convicção de que não tomaram o poder, foram chamadas em momento de risco. Ficaram ofendidas com a Comissão da Verdade, mas nunca condenaram a tortura nem admitiram que pessoas morreram em dependências militares.

Dentro dos quartéis, alguns evoluíram. Admitem que aquele foi um período triste da História do Brasil que feriu brasileiros. A instituição, contudo, jamais admitiu qualquer erro. Preferiu cristalizar uma versão falsa e impedir a necessária e saudável autocrítica.

A negação da realidade é o caminho mais curto para a repetição de tragédias. O nome da tomada do poder pelas Forças Armadas é golpe. Ponto. Durante 21 anos o governo militar foi uma ditadura. Ponto. Não há uma conversa adulta sobre aquele tempo sem essas premissas.

Um pensamento sobre o aniversário do golpe, com base nas reflexões de Mirian Leitão em seu livro ‘A democracia na armadilha’.

O MIGUÉ DE DORIA

A manobra executada por João Doria para constranger os tucanos que tramam substituir a sua candidatura presidencial pela de Eduardo Leite aprofundou o abismo em que se encontra o PSDB. Doria arrancou uma carta do presidente do partido, Bruno Araújo, reafirmando o resultado das prévias tucanas. Mas o vaivém do candidato impulsionou a dissidência que trama substituir Doria por Leite, derrotado nas primárias. Deseja-se colocar em pé a chapa Eduardo Leite-Simone Tebet, não necessariamente nessa ordem. O arranjo transita no eixo PSDB-MDB-União Brasil. "Agora estou tranquilo", disse João Doria depois de intranquilizar rivais e aliados tucanos com a ameaça de permanecer no Palácio dos Bandeirantes, renunciando à candidatura ao Planalto. Após desistir da desistência, Doria tentou justificar a manobra. Alegou que sentiu "a necessidade de ter um apoio explícito" do PSDB.

Em público, Doria distribuiu sorrisos amarelos e disse ter enxergado na carta de Bruno Araújo o apoio "incontestável" de que precisava para trocar o governo paulista pelo palanque. Longe dos refletores, o governador continuou reclamando de correligionários como Aécio Neves e Tasso Jereissati. Avalia que deu uma lição nos traidores. Engano. Antes de escrever a carta de apoio a Doria, Bruno Araújo disparou alguns telefonemas. Conversou, por exemplo, com Leite e Aécio. O texto serviu para tirar Doria do Bandeirantes, no pressuposto de que a conjuntura se encarregará de expurgá-lo da corrida ao Planalto. Eduardo Leite, o cavalo de Tróia dos tucanos, continua na pista. O problema é que, assim como Doria, o cavalo de Tróia do tucanato galopa dentro da margem de erro das pesquisas. Dispõe, por ora, de 1%.

Por Josias de Souza

O ARREGO DE MORO

O ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sergio Moro assinou na quinta-feira (31) sua filiação ao União Brasil e anunciou que abriu mão da pré-candidatura à Presidência da República. "O Brasil precisa de uma alternativa que livre o país dos extremos, da instabilidade e da radicalização. Por isso, aceitei o convite do presidente nacional do União Brasil, Luciano Bivar, para me filiar ao partido e, assim, facilitar as negociações das forças políticas de centro democrático em busca de uma candidatura presidencial única", escreveu Moro em rede social. "A troca de legenda foi comunicada à direção do Podemos, a quem agradeço todo o apoio. Para ingressar no novo partido, abro mão, nesse momento, da pré-candidatura presidencial e serei um soldado da democracia para recuperar o sonho de um Brasil melhor", completou. Agora, no novo partido, Moro estaria sendo pressionado a disputar o Congresso.

QUEIMADO

Uma fala do presidente Jair Bolsonaro (PL) sobre a honestidade do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, que pediu demissão no último dia 28, viralizou nas redes sociais. “Eu boto a minha cara no fogo pelo Milton. Uma covardia o que estão fazendo”, disse o presidente, no último dia 24, sobre as denúncias sobre a existência de um "gabinete paralelo" formado por pastores lobistas no Ministério da Educação.

MAIS 4 ANOS DE AGONIA?

Após passar três anos e três meses utilizando o Planalto como palanque, Bolsonaro lançou sua candidatura à reeleição. Fez isso num evento ilegal, pois a lei prevê que candidaturas só podem ser formalizadas a partir de 20 de julho. Repetiu o discurso de 2018. O mesmo alvo: o antipetismo. A mesma bandeira: o combate à corrupção. Com duas diferenças:

1) Havia no ar o mau cheiro das perversões acumuladas e a suspeita de cobrança de propinas no MEC;

2) O palco estava repleto de hipocrisia: Bolsonaro, Valdemar Costa Neto, Fernando Collor e Augusto Heleno dividiram a mesma imagem. Uma evidência de que a união faz a farsa.

Num ambiente de comício —coisa que a lei desautoriza antes de 16 de agosto— Bolsonaro deu à polarização um sentido messiânico. Convocou a plateia arregimentada pelo PL, seu partido, para uma guerra contra Lula. "Não é uma luta da esquerda contra a direita", ele disse. "É uma luta do bem contra o mal."

O mestre de cerimônias, um locutor de rodeios chamado Cuiabano Lima, já havia antecipado o mote messiânico. Com as mãos levantadas para abençoar o candidato, puxou um "Pai Nosso". E comparou Lula, a quem chamou de "homem de nove dedos", ao personagem bíblico Barrabás, o ladrão libertado no julgamento que resultou na crucificação de Jesus.

Bolsonaro vai à campanha acorrentado às suas ideias fixas. Elogiou o torturador e "velho amigo" Brilhante Ustra. Recitou uma adaptação do lema do Integralismo, o fascismo à brasileira: "Deus pátria, família, povo e liberdade." Fez declarações esquisitas. Como essa: "Por vezes, me embrulha o estômago ter que jogar dentro das quatro linhas" da Constituição. Ou essa: "Queremos é entregar o comando deste país bem lá na frente, em processo democrático transparente." Disse também que exerce a Presidência como uma missão divina.

Por Josias de Souza

Menos de 24 horas depois de Bolsonaro ter lançado sua candidatura à reeleição com um discurso que tentou recriar o ambiente antipetista e anticorrupção de 2018, Flávio Bolsonaro aderiu ao esforço para virar a página da campanha de 2022 para trás. Coordenador do comitê da reeleição, Flávio enxergou na nova internação hospitalar do pai uma oportunidade mórbida para ressuscitar o velho "efeito facada". O primogênito correu às redes sociais para anotar: "As consequências da tentativa de homicídio por um ex-militante do PSOL continuam trazendo transtornos à saúde do meu pai. Mas o mal nunca venceu nem vai vencer o bem!".

No início do ano mês passado, Bolsonaro e sua prole já haviam tentado grudar o marketing da facada no enredo do camarão mal mastigado que transportou o presidente de suas férias catarinenses para o hospital paulista Vila Nova Star com dores intestinais.

Ao sair do hospital paulista, Bolsonaro anteviu novas internações. Disse que não tinha como garantir que "lá na frente" não iria "tomar um caldo de cana e comer um pastel" que lhe obstruíssem o intestino grosso.

O presidente já deixou o Hospital das Forças Armadas em Brasília. Recebeu alta após uma madrugada de exames. O intestino parece estar bem. A campanha, nem tanto. A família Bolsonaro ainda não se deu conta de que a tática de 2018 perdeu o prazo de validade. Hoje, a maioria do eleitorado enxerga no Planalto não mais a vítima de um atentado hediondo, mas o culpado por uma gestão ruinosa. Como qualquer presidente, Bolsonaro pode pleitear a reeleição. Mas é preciso que tenha desempenho para isso. Comparado à encenação de 2018, o capitão chega a 2022 virado do avesso. Tornou-se uma caricatura antissistêmica guiada pelo sistêmico centrão.

Por Josias de Souza

FORA BOLSONARO!

Gritos de “Fora Bolsonaro” foram o hit do Lollapalooza Brasil no último final de semana, após a tentativa de censura. Confira abaixo um compilado de (algumas) manifestações.

FRASES DO DIA

“Você sabia que durante a ditadura eleições foram canceladas, Congresso fechado, parlamentares cassados e estudantes proibidos de se organizarem? Que muitos brasileiros foram para o exílio para escapar da violência política? É a história”. (Luís Roberto Barroso, ministro do STF)

“Eles vão inventar muita mentira contra o nosso presidente [Lula] neste ano de 2022, em que nós vamos reconstruir o Brasil. Mas vocês vão lembrar o seguinte: os nossos erros [do PT] são meus, mas os nossos acertos são nossos [dela e de Lula]”. (Dilma Rousseff, ex-presidente)

“Nós usamos os recursos desse país muito bem usados. Fizemos muito com muito pouco porque não houve corrupção no governo”. (Tereza Cristina, ministra da Agricultura, ao despedir-se do cargo para ser candidato a senadora pelo Mato Grosso do Sul)

Foi um pedido especial que o presidente da República fez para mim sobre a questão do [pastor] Gilmar”. (Milton Ribeiro, em áudio sobre o acesso de pastores evangélicos picaretas às verbas do Ministério da Educação, o que acabou provocando sua saída do governo)

“Quando ele [papai] vem defender a família, não é defender um filho, um parente, um amigo, de nada de errado que fez, porque não fizemos nada de errado. É defender o instituto da família, colocar de verdade Deus em primeiro lugar”. (Flávio ‘Rachadinha’ Bolsonaro, o Zero Um)

“O cara nunca se reuniu com os sindicatos, com os trabalhadores, com as mulheres. Esse cara só se reúne com os milicianos dele. Bolsonaro, pode se preparar que nós estamos chegando”. (Lula, ontem, em Niterói, RJ)

“Em 2018, Lula convidou o Brasil para dançar à beira do abismo, onde nós despencamos com essa tragédia facistóide, corrupta, incompetente, genocida, que é o Bolsonaro. Lula está repetindo o mesmo filme”. (Ciro Gomes, PDT, que disputa a presidência da República pela quarta vez)


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Colunista

Victor Barone

Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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