Semana On

Quarta-Feira 25.mai.2022

Ano X - Nº 488

Coluna Ágora Digital

Mui amigo

O jornalista Victor Barone resume a semana política

Postado em 20 de Janeiro de 2022 - Victor Barone

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Imaginava-se que a autofagia fosse uma doença da esquerda. Mas a fome com que Eduardo Bolsonaro avançou sobre o ex-ministro Abraham Weintraub, agora um crítico da rendição do ex-chefe aos caciques do centrão, revela que o bolsonarismo herdou a fúria canibal dos índios caetés, que comeram o bispo Pero Fernandes Sardinha no ano de 1556, no litoral de Alagoas.

Abraham Weintraub e seu irmão Arthur irritaram-se porque o secretário de Cultura Mário Frias curtiu um tuíte que insinuava que o ex-ministro da Educação poderia ser preso. Em reação, Eduardo Bolsonaro mastigou os irmãos Weintraub: "Todo este tempo que nós engolíamos sapos na verdade era a chance para eles se corrigirem, mas nada foi feito. Então agora está aí tudo às claras."

Em movimento simultâneo, o ministro das Comunicações Fábio Faria, da tribo do centrão, abriu processo judicial contra o ex-chanceler Ernesto Araújo, outro ex-aliado que virou crítico da hegemonia do centrão no governo. Faria considerou caluniosa a insinuação de Araújo de que ele teria favorecido a China nos negócios da tecnologia 5G.

Até ontem, Weintraub e Araújo compunham a matilha de pitbulls adestrados para morder os adversários de Bolsonaro. Agora, são traçados pelo bolsonarismo e pelo centrão.

O rito antropofágico é bom porque expõe às claras, num ano eleitoral, as entranhas do bolsonarismo. O ruim é que o ritual macabro de canibalismo tenha começado apenas depois que Weintraub e Araújo já desossaram a Educação e a política externa do Brasil.

Bolsonaro também está irritado com Abraham Weintraub. O presidente escreveu num grupo de WhatsApp que utiliza para se comunicar com auxiliares que o seu ex-ministro da Educação "não está para colaborar, mas para tumultuar".

O tumulto sempre foi uma especialidade do personagem. Mas Bolsonaro não se importava quando o ex-ministro usava seus dotes para convulsionar o setor educacional. O presidente abespinhou-se agora porque foi enfeitiçado pelo feitiço de Weintraub.

Após insinuar que Bolsonaro recebeu em 2018 informações privilegiadas sobre a rachadinha que explodiria na cabeça do filho Flávio Bolsonaro, Weintraub disse que Bolsonaro substituiu os "conservadores" do governo por "essa turma do centrão". Foi ecoado pelo ex-chanceler Ernesto Araújo.

Bolsonaro já não precisa de inimigos. Ex-ministros como Weintraub se encarregam de mostrar quem é o presidente.

Por Josias de Souza

PAPO DE CUMPADRE

Liderando as pesquisas de intenção de voto, Lula (PT) escolheu um grupo de sites independentes para conceder a primeira entrevista no ano eleitoral de 2022.

MAMATEIROS

Quando o Congresso Constituinte transformou o Ministério Público numa entidade independente, imaginou-se que o país havia sido presenteado com uma instituição forte. Decorridos 34 anos, o brasileiro constata que foi condenado a conviver com mais uma corporação viciada em privilégios. Há no MP federal 1.145 procuradores. Desse total, 720 (62,8%) receberam supersalários em dezembro. Foi uma farra: 491 procuradores ganharam mais de R$ 100 mil; 158 receberam mais de R$ 200 mil; 53 beliscaram mais de R$ 300 mil; 18 felizardos foram agraciados com cifras superiores a R$ 400 mil. Um único procurador levou R$ 446 mil. O contracheque de outro roçou a casa do meio milhão: R$ 471 mil

Nesse Natal custeado pelo contribuinte, coube a Augusto Aras o papel de Papai Noel. O procurador-geral da República autorizou, entre outras regalias, o pagamento de abono de férias de 2022. Liberou o pagamento de um benefício extra-salarial acumulado pelos procuradores. Chama-se licença-prêmio. A cada cinco anos de trabalho, o sujeito ganha um descanso remunerado de três meses. Que pode ser convertido em dinheiro. Os dados foram levados à vitrine pelo Estadão.

Em condições normais, seria apenas mais um escândalo. Numa época de pandemia, tornou-se um escárnio especialmente revoltante, porque o desemprego, a redução de jornada e a poda de salários converteram-se fenômenos ainda mais triviais na iniciativa privada. Em nota, a Procuradoria batizou o absurdo de "dívidas da União para com membros do Ministério Público." Coisa feita dentro da lei. Atribuiu os desembolsos a uma "sobra orçamentária".

Recomenda-se a Augusto Aras que evite repetir esse tipo de argumento no balcão de uma lanchonete de rodoviária. Ali, trabalhadores que aguardam pelo transporte teriam dificuldades para compreender como procuradores recebem contracheques de mais de R$ 400 mil num país em que metade da população rala para obter menos de três salários mínimos, convivendo com a sobra do mês no fim do salário.

Por Josias de Souza

FRASES DA SEMANA

“Em meio a um cenário que aponta claramente para o avanço da variante Ômicron, ainda há pessoas dizendo que a pandemia está acabando, que a chegada da variante sinaliza o fim da pandemia. Os números não mostram isso”. (Antonio Barra Torres, almirante e presidente da Anvisa)

“Espero que termine esse governo Bolsonaro o quanto antes, antes que o estrago seja muito grande. A volta não é difícil.”. (Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República)

“Pra quê eu vou tomar a vacina se eu já tive Covid há um tempo? Eu ando no meio do povo e nunca mais tive nenhum problema. A melhor vacina que tem, logicamente alguns podem não resistir a ela, é a própria contaminação”. (Bolsonaro, também conhecido como MM – Mensageiro da Morte)

“Mortalidade acumulada da Covid-19 no Brasil: 2.900 mortes por um milhão de pessoas. No Vietnã, 360 mortes por um milhão de pessoas. Aguardo comentários de que o Vietnã é uma ilha, muito mais desenvolvido do que o Brasil. Negacionismo mata!” (Pedro Hallalepidemiologista)

“Expresso minha solidariedade às pessoas atingidas pelas fortes chuvas e inundações em várias regiões do Brasil. Rezo em especial pelas vítimas e seus familiares e por quem perdeu a casa. Que Deus ampare o esforço de quem está levando ajuda”. (Papa Francisco)

“O próximo presidente do Brasil terá que enfrentar o desafio de reconstruir o país, recuperar o crescimento econômico e a inclusão social, dialogando e trabalhando com a sociedade.” (Lula)

“Geraldo Alckmin vai ter de passar a falar diferente. Ele tem de saber que estará defendendo um projeto que tem CPF, tem lado, tem CNPJ. Ele tem de se tornar engolível. É disso que se trata”. (Luiz Marinho, presidente do PT de São Paulo, ex-ministro do governo Lula)


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Victor Barone

Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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