Semana On

Domingo 28.nov.2021

Ano X - Nº 469

Coluna Ágora Digital

Auto-condecoração

O jornalista Victor Barone resume a semana política

Postado em 04 de Novembro de 2021 - Victor Barone

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Incentivador do uso da cloroquina no tratamento da covid-19, o presidente Jair Bolsonaro revogou a condecoração da Ordem Nacional do Mérito Científico ao infectologista Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda, que demonstrou, de maneira pioneira, a ineficácia da droga contra o coronavírus. No mesmo ato, Bolsonaro retirou da lista de homenageados a sanitarista Adele Schwartz Benzaken, exonerada da direção do Departamento de ISTs do Ministério da Saúde por causa da publicação de uma cartilha para homens trans.

A decisão levou outros 21 cientistas condecorados a rejeitar a medalha. Em carta divulgada no último dia 6, eles afirmam que a revogação das homenagens aos dois colegas representa mais uma clara demonstração de perseguição por parte do governo federal.

O primeiro a renunciar à honraria foi o epidemiologista Cesar Victora, professor emérito da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul.

Veja a íntegra da carta dos cientistas:

“Carta aberta dos cientistas condecorados com a Ordem Nacional do Mérito Científico em 03/11/2011

Os cientistas abaixo assinados, condecorados com a Ordem Nacional do Mérito Científico, em decreto presidencial de 3 de novembro de 2021, vêm a público declarar sua indignação, protesto e repúdio pela exclusão arbitrária dos colegas Adele Schwartz Benzaken e Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda da lista de agraciados, em novo decreto presidencial na data de 5 de novembro de 2021.

Tal exclusão, inaceitável sob todos os aspectos, torna-se ainda mais condenável por ter ocorrido em menos de 48 horas após a publicação inicial, em mais uma clara demonstração de perseguição a cientistas, configurando um novo passo do sistemático ataque à Ciência e Tecnologia por parte do Governo vigente.

Enquanto cientistas, não compactuamos com a forma pela qual o negacionismo em geral, as perseguições a colegas cientistas e os recentes cortes nos orçamentos federais para a ciência e tecnologia têm sido utilizados como ferramentas para fazer retroceder os importantes progressos alcançados pela comunidade cientifica brasileira nas últimas décadas.

Como bem pontuaram a Academia Brasileira de Ciências e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em notas divulgadas no dia 5/11/2021, a Ordem Nacional do Mérito Científico, fundada em 1993, é um instrumento de Estado para reconhecer contribuições científicas e técnicas de personalidades brasileiras e estrangeiras. A indicação de membros agraciados é realizada por uma Comissão, formada por três membros indicados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, três membros indicados pela Academia Brasileira de Ciências e três membros indicados pela SBPC. Nossos nomes foram honrosamente indicados por essa comissão, reunida em 2019. mérito científico (como não poderia deixar de ser) foi o único parâmetro considerado para a inclusão de um nome na lista.

Consideramos, portanto, gratificante nossa presença nessa lista, e ficamos extremamente honrados com a possibilidade de sermos agraciados com um dos maiores reconhecimentos que um cientista pode receber em nosso país. Entretanto, a homenagem oferecida por um Governo Federal que não apenas ignora a ciência, mas ativamente boicota as recomendações da epidemiologia e da saúde coletiva, não é condizente com nossas trajetórias científicas. Em solidariedade aos colegas que foram sumariamente excluídos da lista de agraciados, e condizentes com nossa postura ética, renunciamos coletivamente a essa indicação.

Outrossim, desejamos expressar nosso reconhecimento às indicações da Academia Brasileira de Ciências e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, entidades que têm respeito duradouro em defesa da Ciência, Tecnologia e Inovação na sociedade brasileira. Esse ato de renúncia, que nos entristece, expressa nossa indignação frente ao processo de destruição do sistema universitário e de Ciência e Tecnologia. Agimos conscientes no intuito de preservar as instituições universitárias e científicas brasileiras, na construção do processo civilizatório no Brasil.

Assinam (em ordem alfabética):
Aldo Ângelo Moreira Lima (UFC)
Aldo José Gorgatti Zarbin (UFPR)
Alfredo Wagner Berno de Almeida (UEMA)
Anderson Stevens Leonidas Gomes (UFPE)
Angela De Luca Rebello Wagener (PUC-RJ)
Carlos Gustavo Tamm de Araujo Moreira (IMPA)
Cesar Gomes Victora (UFPel)
Claudio Landim (IMPA)
Fernando Garcia de Melo (UFRJ)
Fernando de Queiroz Cunha (USP)
José Vicente Tavares dos Santos (UFRGS)
Luiz Antonio Martinelli (USP)
Maria Paula Cruz Schneider (UFPA)
Marília Oliveira Fonseca Goulart (UFAL)
Neusa Hamada (INPA)
Paulo Hilário Nascimento Saldiva (USP)
Paulo Sérgio Lacerda Beirão (UFMG)
Pedro Leite da Silva Dias (USP)
Regina Pekelmann Markus (USP)
Ronald Cintra Shellard (CBPF)”

TURISMO

Com 479 inscritos, o Brasil tem a maior delegação entre todos os países participantes na Conferência sobre Mudanças Climáticas da ONU (COP26). O número só é superado pelos britânicos, anfitriões do evento em Glasgow, nesta semana. HOUVE, porém, um grande ausente na delegação brasileira: o presidente Jair Bolsonaro. Ao ser questionado ainda em Roma pelo jornalista Jamil Chade por qual motivo não iria para Glasgow, ele apenas respondeu: "não te devo satisfação, rapaz".

Jamil, inclusive, estava entre os jornalistas brasileiros atacados em Roma por seguranças e policiais quando tentava entrevistar o presidente.

BOBO DA CORTE

Em entrevista a jornalistas na Itália, o presidente Jair Bolsonaro confundiu o nome do ex-secretário de estado dos Estados Unidos e enviado especial para o clima, John Kerry, com o ator e humorista canadense Jim Carrey, astro de filmes como Débi & Loide e O Mentiroso.

“Sim, conversei com o Jim Carrey também. Alguma coisa reservada, desculpa, não posso falar com vocês”, disse o mandatário, ao ser perguntado se teria conversado com a autoridade americana. O próprio repórter confundiu os nomes e induziu o presidente ao erro. Assista:

BANANINHA

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) deverá recorrer da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que rejeitou queixa-crime do filho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) contra seu colega na Câmara, Kim Kataguiri (DEM-SP). A ministra Rosa Weber decidiu arquivar a ação de Eduardo por ter sido chamado de “bananinha”. “Bananinha”, apelido de Eduardo Bolsonaro nas redes sociais, foi uma criação do vice-presidente Hamilton Mourão, que em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, em março de 2020, comentou fala mentirosa do filho do presidente culpando a China pela pandemia de coronavírus.

O Eduardo Bolsonaro é um deputado. Se o sobrenome dele fosse Eduardo Bananinha não era problema nenhum. Só por causa do sobrenome. Ele não representa o governo. Não é a opinião do governo. Ele tem algum cargo no governo?”, indagou Mourão.

CRISE

Um vídeo postado nas redes sociais mostra um homem implorando por comida, no estacionamento de um prédio residencial na Quadra 106 da Asa Norte, Plano Piloto de Brasília. O momento foi registrado pelo jornalista Carlos Alberto Jr., que postou em sua conta no Twitter. O vídeo acabou viralizando na internet, alcançando centenas de milhares de pessoas em diferentes plataformas, após ser reproduzido em diferentes contas. 

MORÔ?

O ex-juiz Sergio Moro não deve ter vida fácil na política diante da possível candidatura às eleições de 2022. Ao desembarcar em Brasília no último dia 3, foi alvo de protesto de manifestantes que se reuniram no aeroporto. “Juiz ladrão, juiz vendido. Você é um lixo”, gritavam os presentes no protesto. A manifestação inicialmente era contra a PEC 32, da reforma administrativa, mas Moro viro alvo logo e foi avistado.

DEU RUIM

O humorista André Marinho comentou sua saída da Jovem Pan e do programa "Pânico" após um bate-boca com o presidente Jair Bolsonaro.

Semana passada, o então comentarista discutiu com Bolsonaro no programa. Ao questionar o presidente se "rachador teria que ir para cadeia" — referindo-se ao caso das "rachadinhas" —, ele viu o político se recusando a responder. Bolsonaro tentou encerrar o assunto dizendo: "Não tem mais conversa contigo". Foi quando Marinho retrucou: Não tem? Então é isso, tigrão com humorista e tchutchuca com STF, não é, presidente? É impressionante.

Já em setembro, o comediante viralizou com uma imitação do Bolsonaro durante um jantar com o ex-presidente Michel Temer.

André Marinho é filho de Paulo Marinho, que apoiou Bolsonaro em 2018 durante a campanha para a presidência e "emprestou" sua casa para a gravação de vídeos do programa eleitoral. O youtuber de 26 anos ficou conhecido por suas paródias na internet, imitando lideranças políticas. A família Marinho declarou, ainda em 2020, que deixou de apoiar o presidente Bolsonaro

ACABOU A MAMATA

Com o objetivo de permitir a matrícula excepcional da filha do presidente no Colégio Militar de Brasília, o Exército tratou o presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido) como capitão da reserva, e não como capitão reformado. Laura Bolsonaro, 11, ingressará na unidade de ensino, sem processo seletivo, no ano letivo de 2022. A diferença é que um militar da reserva pode ser chamado para missões nas Forças Armadas. A reforma, por sua vez, significa uma aposentadoria, e ocorre por fatores como idade ou invalidez. Bolsonaro, conforme aparece na sua ficha de remuneração, é um capitão reformado. É assim que é tratado também em boletins internos do Exército.

FRASES DA SEMANA

“Aumentar o Auxílio Brasil e o Bolsa Família é ótimo. Furar o teto de gastos, aumentar os juros e a inflação, dar calote em professores, tudo isso é péssimo. É preciso ter responsabilidade fiscal”. (Sérgio Moro, ex-juiz, que flerta com a candidatura a presidente em 2022)

“Tão reclamando que não fui pra Glasgow. Levaram uma índia para atacar o Brasil. Alguém viu um alemão atacando a energia fóssil da Alemanha? Alguém já viu atacando a França porque lá a legislação ambiental não é nada perto da nossa? Ninguém critica o próprio país.” (Bolsonaro)

“Sou vacinada, a favor do direito das minorias, sejam homossexuais, índios da Amazônia, tanto faz: ninguém deve ser discriminado. A qualquer um é garantida a liberdade de fazer na própria vida o que acredite que seja melhor”. (Giannina Bolzonaro, prima italiana você sabe de quem)

“O governo Bolsonaro é um governo de destruição. É um governo que destruiu tudo que prestava no Brasil, e a cultura naturalmente, mas não é só a cultura, é tudo”. (Wagner Moura, ator)

“O Brasil se comprometeu com um programa extensivo e eficiente de vacinação, em paralelo a uma agenda de auxílio emergencial e preservação do emprego para a proteção dos mais vulneráveis”. (Bolsonaro, na Itália, o único chefe de Estado do G20 a não ter se vacinado contra a Covid)


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Colunista

Victor Barone

Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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