Semana On

Domingo 25.jul.2021

Ano IX - Nº 453

Coluna Ágora Digital

E a mentira vira regra na CPI…

O jornalista Victor Barone resume a semana política, com humor e acidez

Postado em 19 de Maio de 2021 - Victor Barone

Bennet Bennet

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Se na quarta-feira (19) Eduardo Pazuello ficou mais ou menos livre para falar o que quis à CPI da Pandemia, pondo em prática o extenso treinamento que recebeu do Palácio do Planalto, ontem (20) alguns senadores conseguiram dele respostas mais comprometedoras para o governo – muito embora ele não tenha sido tão pressionado quanto poderia. Em um ato falho, ele disse que gostaria que o Brasil contasse hoje com “200 milhões de recuperados” da covid-19. A demonstração explícita de sua crença na imunidade coletiva (via contaminação) acabou não sendo explorada pelos senadores. 

Há um ponto relevante sobre a falta de oxigênio no Amazonas: ao senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Pazuello afirmou que Jair Bolsonaro participou da decisão de não aprovar um pedido de intervenção na saúde pública do estado naquela época, em janeiro. 

Ele disse, porém, que a decisão foi tomada em conjunto após o governador Wilson Lima (PSC-AM) argumentar “que o Estado tinha condição de continuar fazendo a resposta dele”. Só que Lima  um aliado do presidente  o desmentiu: “Nunca houve recusa do Estado para qualquer tipo de ajuda relacionada às ações de enfrentamento à covid-19. Além disso, o Governo do Amazonas sempre pediu a colaboração federal para auxiliar no combate à pandemia”, disse ao Estadão. A intervenção foi pedida pelo senador Eduardo Braga (MDB-AM) no dia 15 de janeiro, logo que estourou a crise. 

JOGO DAS DIFERENÇAS 

A referência à reunião em que se decidiu sobre o Amazonas foi a primeira vez em que Eduardo Pazuello implicou Jair Bolsonaro diretamente em uma decisão desse porte. Mas houve outro momento em que ele se viu enredado pelas perguntas de Randolfe Rodrigues, quando tentava explicar mais uma vez a demora nas negociações com a Pfizer.

Ele sustentava que havia um entrave jurídico por conta das malfadadas cláusulas leoninas. Rodrigues apresentou então a minuta de uma Medida Provisória elaborada por vários ministérios, inclusive o da Saúde, com um artigo que resolveria o problema; estava assinada por todas as autoridades do governo responsáveis, menos o presidente da República, pois era ainda uma proposta. Então ele presentou seguida o texto que foi efetivamente aprovado (a MP 1.026/2021). Era praticamente idêntico à minuta, com duas diferenças. Uma: o dispositivo havia sumido. Outra: a assinatura de Jair Bolsonaro. Pazuello precisava explicar, então, quem tinha eliminado o dispositivo que poderia ter resolvido rapidamente a aquisição das doses.

O general tentou argumentar que a supressão do artigo teria sido decidida por não haver “consenso” sobre ele. Como todos os ministros haviam assinado a minuta, infere-se que, entre eles, estava tudo bem. Segundo esse raciocínio, o dissenso só poderia ter sido fruto de uma pessoa: Jair Bolsonaro. Mesmo assim, o general conseguiu não dizer, letra por letra, que o texto havia sido modificado a pedido do presidente. “Não pelo presidente, mas pelo governo”. De todo modo, o termo serviu. 

Na véspera, o ex-ministro havia dito que pareceres do TCU, da AGU e da CGU eram contrários à assinatura do contrato. Isso poderia ter motivado essa decisão “do governo”, mas, ao que parece, não foi assim. O TCU desmentiu Pazuello ainda na quarta-feira, durante a sessão. Quanto aos demais órgãos, O Globo analisou documentos indicando que o governo começou a se posicionar contra a negociação em dezembro, mas só pediu pareceres à AGU e a CGU em fevereiro. Eles ficaram prontos apenas em março. Já a MP 1.026 foi publicada antes, em janeiro

O HACKER LADRÃO

A explicação de Eduardo Pazuello para o episódio do TrateCov é digna de um filme de péssimo roteirista: ele disse que o aplicativo foi “roubado” por um hacker durante o lançamento, quando ele e Mayra Pinheiro o apresentaram em Manaus. O hacker teria sido a pessoa responsável por colocar o aplicativo no ar: “ele alterou, com dados lá dentro, e colocou na rede pública”. Pazuello disse ter até um boletim de ocorrência disso, uma informação que nunca havia sido dada, apesar da chuva de críticas que o Ministério recebeu em janeiro, quando o app foi anunciado. Pazuello disse ainda que a ferramenta nunca chegou a ser usada – e sustentou suas posições mesmo diante da reprodução de uma reportagem da TV Brasil que apresentava a ferramenta e trazia o relato elogioso de um médico sobre seu uso. “O hacker é tão bom que conseguiu botar o programa numa matéria extensa na TV Brasil”, ironizou o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD/AM).

Tem mais. Apesar de a ferramenta se chamar “TrateCov”, Pazuello quis emplacar a ideia de que o objetivo era o de apenas realizar o diagnóstico, e não a indicação de tratamento. E que teria sido lançado em Manaus por conta do colapso: “O diagnóstico clínico, naquele caso, em Manaus, era muito necessário, pela velocidade com que as coisas estavam acontecendo, pela contaminação excessiva e pelo risco de nós termos diagnósticos diferentes de doenças que estavam acontecendo em paralelo. Então, o diagnóstico era muito importante. Tem que se compreender que nós temos que separar o que foi feito, o resultado final do projeto com ideia do projeto. A ideia do projeto é uma calculadora que facilite o diagnóstico. Eu acho que ninguém é contra…”.

A narrativa é a de que esse aplicativo ainda não estava “completamente desenvolvido” quando foi lançado. Coube ao senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) confrontar Pazuello com uma prova inequívoca da mentira: um documento do dia seis de janeiro, assinado pelo ex-ministro, estabelecendo que seria disponibilizado ao Amazonas o “aplicativo desenvolvido” (e não “em desenvolvimento”) para “diagnóstico e consequente receitamento”, o que não deixa dúvidas sobre a intenção, desde o começo, de apresentar uma lista de remédios. 

COMPARAÇÃO

De modo geral, Pazuello continuou empenhado em sua missão de blindar Bolsonaro. Depois de ter justificado suas aglomerações como um “zelo ao psicossocial”, ontem ele disse que não se deve levar o presidente a sério: “Sabemos como é o nosso presidente da República, ele fala de improviso, fala de pronto. Essa é a verdade, não podemos esconder o sol com a peneira”.

Numa fala que ficou de fora dos registros oficiais, o senador Alessandro Vieira comparou o general o oficial nazista Adolf Eichmann, responsável pela logística da deportação de judeus para campos de extermínio durante o Holocausto: “‘Analisado o cidadão, se dizia que ele não possuía histórico ou traços preconceituosos. Não apresentava características de um caráter distorcido doentio. Agiu no que acreditava ser o seu dever, cumprindo ordens de superiores e movido em se ascender em sua carreira profissional. Cumpria ordens sem questioná-las, com a maior zelo e eficiência, sem refletir sobre o bem ou mal que pudessem causar’. Essa análise foi feita em relação a Eichmann. Faço essa referência porque, muito claramente nos contatos em que tivemos, o senhor não se portou com desrespeito à vida. Mas dentro do conjunto da obra, na perspectiva de política pública, o senhor falhou. E eu tenho convicção que o senhor não falhou por convicção sua. Não consigo entender que diabo de lealdade o senhor acredita ter que o leve a acobertar o verdadeiro autor das ordens que o senhor seguiu”. 

Na quarta (19), Pazuello negou várias vezes que Bolsonaro tenha interferido nas decisões do Ministério sobre a pandemia, dizendo inclusive que não havia nenhuma orientação do presidente quanto à necessidade de ampliar o uso de hidroxicloroquina – apesar de dois ministros terem caído antes dele por se recusarem a bendizer o remédio. Negou também que haja qualquer sinal de um “gabinete paralelo” de aconselhamento do presidente, ao contrário do que mostram outras testemunhas até aqui. Até o presidente da Pfizer na América Latina disse que Carlos Bolsonaro participou de uma reunião sobre a compra da vacina, mas o ex-ministro afirmou quase nunca ver nenhum dos filhos do presidente: “Eu esperava que eu pudesse conversar mais com o Flávio, com o Eduardo, com o Carlos. Foi muito pouco encontro, muito pouco encontro. Podia ter havido mais”, chegou a lamentar.

O humilhante episódio em que Jair Bolsonaro desautorizou o Ministério da Saúde na decisão de comprar a CoronaVac foi redesenhado para parecer algo totalmente normal. Segundo Pazuello, Bolsonaro “nunca” mandou que ele desfizesse qualquer acordo com o Instituto Butantan, mesmo que haja vídeos e posts do presidente dizendo textualmente que “minha decisão é a de não adquirir a referida vacina”. A explicação do ex-ministro para isso tudo é que, quando Bolsonaro se manifesta nas redes sociais, o faz apenas como “agente político”, e isso não interfere nas negociações. “Uma postagem na internet não é uma ordem. Uma ordem é uma ordem direta verbal ou por escrito. Nunca foi dada. Nunca!”, declarou.  Como se sabe, porém, na época a relação entre eles chegou a estremecer. Os panos quentes vieram quando Pazuello apareceu abraçado a Bolsonaro (apesar de estar com covid-19) e justificou o ocorrido com uma de suas mais marcantes frases: “Senhores, é simples assim. Um manda e outro obedece”.

BATATA QUENTE

Tentando se eximir de qualquer responsabilidade pela má atuação da diplomacia brasileira nas negociações por vacinas, o ex-chanceler Ernesto Araújo decidiu atribuir todas as decisões erradas na pandemia ao Ministério da Saúde. Em seu depoimento à CPI, ele disse que o Ministério das Relações Exteriores não delineou nenhuma estratégia específica para dialogar com outros países sobre a compra de imunizantes, tratamentos e insumos diversos. Essa definição teria sido feita pela Saúde, e ao Itamaraty, basicamente, cabia obedecer. 

“Nunca recebi orientações para acelerar contatos com fornecedores de vacinas”, disse ele, para defender a falta de iniciativa. A atuação de sua pasta nas conversas com a AstraZeneca foi, por isso, apenas “um apoio secundário, logístico, operacional”, sem participação “da substância da negociação”. Quanto à CoronaVac, ele se limitou a reconhecer nunca participou de nada.

Como se sabe, o Brasil poderia ter entrado na Covax Facility comprando doses suficientes para imunizar até 50% da população, mas optou pelo acordo mais econômico, que beneficiaria apenas 10% dos habitantes. “Essa decisão não foi minha, não foi do Ministério das Relações Exteriores. Foi uma decisão do Ministério da Saúde, dentro da sua estratégia de vacinação”, justificou Araújo, que disse não saber de quem exatamente partiu essa ordem. 

Ao responder por que o país demorou para entrar nas dicussões da Covax, Araújo mentiu: disse que o governo brasileiro manifestou a intenção de aderir em junho do ano passado, “tão logo essa iniciativa foi definida” e que “dela participamos ativamente desde então”. Só que a aliança começou a ser discutida em abril, sem a presença de nenhum diplomata brasileiro. Junho foi o mês em que ela foi oficialmente lançada. O Brasil só entrou na conversa um mês depois e  confirmou a intenção de participar apenas no fim setembro, quando outros 170 países já haviam entrado no consórcio. 

Se a atuação do Itamaraty para negociar vacinas foi inexpressiva, o mesmo não se pode dizer sobre as tratativas envolvendo a hidroxicloroquina. Nesse caso, apesar de o ex-ministro dizer que houve um pedido do Ministério da Saúde nesse sentido, acabou reconhecendo que o presidente Jair Bolsonaro solicitou a mobilização da diplomacia brasileira para conseguir, do governo indiano, insumos necessários ao aumento da produção no Brasil. Alegou que “em março, havia uma expectativa de que houvesse eficácia”. Porém, como lembra a Folha, o Itamaraty continuou enviando telegramas sobre isso para a Índia em junho, quando já não havia mais expectativa nenhuma…

Araújo também implicou Bolsonaro na misteriosa viagem de R$ 440 mil a Israel, em que supostamente se conversou sobre a compra de um spray nasal testado em menos de 40 pessoas. O envio da comitiva teria partido de uma ordem do presidente, após conversa com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Além de a excursão não ter servido para nada, Araújo não soube explicar qual foi a função nela do ex-policial Max Moura, um assessor ligado ao senador Flávio Bolsonaro e a seu ex-assessor Fabrício Queiroz.

Sua autodefesa não foi nada convincente. E, além de deixar claro que sua pasta não fez nada para encontrar soluções para a pandemia, Araújo ainda reconheceu não ter sido nem um pouco… diplomático no trato com o governo venezuelano durante a crise do oxigênio em Manaus. A Venezuela disponibilizou uma doação do insumo, que chegou ao Amazonas por rodovia. Na época, a diplomacia brasileira não tentou nenhum diálogo para viabilizar o transporte aéreo, que seria mais rápido e seguro. E não foi só antes e durante a doação que Ernesto Araújo ficou apático: o ex-ministro reconheceu que não fez contato com o governo de Nicolás Maduro nem mesmo após a doação, para agradecer. Por que tanto silêncio? Por conta do mantra: “O Itamaraty não age de maneira autônoma em temas de saúde”. 

AMIGO DA CHINA

Durante o depoimento de Ernesto Araújo, as redes sociais foram inundadas com memes ironizando sua mudança de postura: acostumado ao falar grosso para tratar de “ordem global”, “comunavírus” e “teofobia“, ontem o ex-chanceler estava visivelmente diminuído, titubeando e iniciando todas as respostas com um “Perfeito, senador, obrigado, senador”. 

Como era de se esperar, várias das perguntas foram sobre os efeitos de suas declarações anti-China, considerando que o país é hoje nosso principal fornecedor de IFA (ingrediente farmacêutico ativo) para vacina. “Eu não entendo nenhuma declaração que eu tenha feito em nenhum momento como antichinesa. Houve determinados momentos em que, como se sabe, por notas oficiais, nós nos queixamos de comportamentos da Embaixada da China ou do embaixador da China em Brasília, mas não houve nenhuma declaração que se possa qualificar como antichinesa. Enfim, não há nenhum impacto de algo que não existiu”, defendeu-se. 

Seu artigo “Chegou o Comunavírus“, postado em blog em abril do ano passado, foi sempre lembrado pelos senadores como prova de um embate com a China, e outros exemplos são ainda mais contundentes. Um dos piores momentos foi em março de 2020, quando Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) culpou os chineses pela pandemia. Em vez de acalmar os ânimos, Araújo saiu em defesa do filho do presidente. Em relação às falas de Jair Bolsonar – que são inegavelmente anti-China –, ele disse ontem que elas em nada atrapalham na compra de imunizantes. 

A senadora Kátia Abreu (PP-TO), que não fez perguntas, usou seus 15 minutos para espinafrar o ex-chanceler: “O senhor é um negacionista compulsivo, omisso. O senhor, no Ministério das Relações Exteriores, foi uma bússola que nos direcionou para o caos, para um iceberg, para um naufrágio. Bússola que nos levou para o naufrágio da política internacional, da política externa brasileira, foi isso que o senhor fez. Isso é voz unânime dos seus colegas no mundo inteiro”. Ela afirmou que vai pedir o áudio da famosa reunião ministerial de 22 de abril de 2020 – a íntegra foi liberada pelo ex-ministro do STF, Celso de Mello, mas, a pedido da Advocacia-Geral da República, foi retirado o trecho em que Araújo falava. O que se diz é que a remoção teria sido porque havia ofensas diretas à China. A liberação do áudio poderá tirar a dúvida. 

TUMULTO E ZOMBARIA

Uma comissão especial da Câmara está discutindo um projeto de lei que prevê a liberação do cultivo de cannabis para fins medicinais. O presidente Jair Bolsonaro já avisou que vetará o texto, caso ele passe no Congresso.  E a base do governo está empenhada em tumultuar a discussão. Ontem teve até violência física, com o deputado bolsonarista Diego Garcia (Podemos-PR) empurrando o presidente do colegiado,  Paulo Teixeira (PT-SP), e um computador.

Já o negacionista Osmar Terra (MDB-RS) não se constrangeu ao dizer que são necessárias “evidências científicas” para apoiar a proposta: “Eu sou médico, eu trabalho com evidência. Não tem essa evidência, e como não tem essa evidência nós estamos aqui trabalhando em cima de narrativas”…  

MANUAL DO KIT COVID

Em novembro do ano passado, o Ministério da Saúde encomendou à Opas (a Organização Pan-Americana de Saúde, braço da OMS no continente americano) a produção de um manual para o “tratamento precoce” da covid-19. O pedido foi acatado pelo organismo, assim como a indicação do médico Ricardo Zimerman para fazer o trabalho. A descoberta d’O Globo, baseada nos documentos de contratação, está narrada na reportagem de Leandro Prazeres.

Zimerman é figurinha conhecida no círculo dos defensores de cloroquina & cia e chegou a participar, em janeiro, da equipe enviada pelo governo federal a Manaus para propagandear esse tipo de droga. Para escrever o manual, ele recebeu R$ 30 mil. O produto destoa completamente de tudo o que a Opas e a OMS preconizam e, segundo a matéria, “a contratação do médico causou desconforto entre funcionários da entidade”. O texto final, com 87 páginas, recomenda abertamente o uso de cloroquina e hidroxicloroquina e também defende o uso da ivermectina e azitromicina. Em alguns casos, Zimerman indica uma mistura contendo sulfato de hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, dutasterida e bromexina.

O manual nunca chegou a ser divulgado. 

A propósito: entre setembro de dezembro do ano passado, os estados devolveram 1,5 milhão de comprimidos de cloroquina que haviam sido enviados pelo Ministério da Saúde. Mesmo assim, a pasta enviou mais 1,3 milhão, sendo 80% para aliados. A informação é do mesmo jornal.

SETE VEZES

Ainda na primeira onda da covid-19, o Ministério da Saúde recebeu sete alertas sobre a escassez de medicamentos do chamado “kit intubação” (sedativos, anestésicos e bloqueadores musculares). Em resposta, providenciou pequenas quantidades das drogas – menos de 6% do consumo médio mensal nos estados. Não foi formado nenhum estoque regulatório e, como já foi amplamente divulgado, uma compra internacional foi cancelada. 

Os sete ofícios foram enviados pelo Conass (Conselho que reúne os secretários estaduais de Saúde), diz a Folha. Além deles, o jornal obteve também documentos entregues ao MPF em que o Ministério admite ter se comprometido a assumir a regulação e centralização do fornecimento dos fármacos. 

Por Outra Saúde

INEPTO

Dizer que Bolsonaro foi inepto não traduz adequadamente o drama sanitário que produz mortes e agrava a ruína econômica no Brasil. Na pandemia, o brasileiro observa da pior maneira possível o refinamento, o cuidado, o extremo acabamento e o custo com que o capitão coloca em prática teses idiotas.

Presidente sem comprovação científica, Bolsonaro vendeu a cloroquina como poção mágica contra a Covid. Foi como se ambicionasse não a reeleição, mas a aclamação como gênio da humanidade. Imbrochável, estimulou os "maricas" a desafiarem o vírus. Simultaneamente, implantou na Saúde uma política vacinocida.

Nesta segunda-feira, a pretexto de enaltecer o agronegócio, que "não parou" de produzir alimentos durante a pandemia, Bolsonaro disse aos devotos que foram ouvi-lo no cercadinho do Alvorada: "Tem alguns idiotas que até hoje ficam em casa".

Enviado ao Planalto como solução dos quase 58 milhões de eleitores que o elegeram, Bolsonaro especializou-se em magnificar o caos que conduz o país à marca dos 500 mil mortos por Covid. Ao ofender os brasileiros que conseguem se proteger de sua insensatez, o capitão presta inestimável serviço à ciência. Comprova que a diferença entre a genialidade e a idiotice é que a genialidade tem limites.

Por Josias de Souza

LEÃO SEM DENTE

“Esse é o rugido da liberdade. Não é ao estado que compete a defesa da sua prole, da sua família, da sua casa, do seu patrimônio, que você construiu com o suor do seu rosto. Compete a você”, disse Jefferson.

O bolsonarista, que já foi preso condenado por corrupção, ainda diz que as armas têm que ser usadas até mesmo contra “agentes” do Estado.

“A arma é um instrumento até contra agentes do estado. Esse estado que está no mundo opressor, comunista, ateu, marxista, hedonista, imoral, satanista, que quer destruir todos os valores cristãos para uma sociedade de baderna, sexo solto, abusando de crianças, fazendo gaysismo, fazendo apassivamento, droga, aborto. Pra esse estado, nós vamos precisar desses instrumentos”, afirmou, ressaltando que “não compete ao estado a defesa dos seus valores, dos nossos valores: Deus, família, pátria, vida e liberdade”.

Por fim, Jefferson afirma que “é melhor morrer sangrando, do que morrer de joelhos”. “Ajoelhar a Deus, mas enfrentar os tiranos”, diz.

O IDIOTA

Ao agradecer o ato convocados por ruralistas que causou uma aglomeração na Praça dos Três Poderes em Brasília no último da 15, Jair Bolsonaro (Sem partido) atacou os brasileiros que mantém o respeito às medidas de isolamento social para conter a propagação da Covid-19 enquanto a imunização pelas vacinas não atingiu nem 10% da população.

“Tem uns idiotas ai… o fica em casa. Tem alguns idiotas que até hoje ficam em casa”, disse Bolsonaro agradecendo aos ruralistas. “Se o campo tivesse ficado em casa, esse idiota teria morrido de fome. Ai ficam reclamando de tudo”, disse Bolsonaro a um grupo de apoiadores que participou do ato e esteve na manhã desta segunda-feira (17) no cercadinho do Palácio da Alvorada. Aos apoiadores, Bolsonaro disse ainda que é “inmorrível, imbrochável e incovível”, em referência à Covid-19.

FRASES DA SEMANA

“A todo momento a Lei de Segurança Nacional tem sido brandida contra jornalistas, chargistas, artistas e intelectuais. Em março, dois professores da Universidade Federal de Pelotas, Pedro Hallal e Eraldo dos Santos Pinheiro, foram constrangidos a assinar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) por terem criticado o governo federal. Em níveis diversos, proliferam os torniquetes orçamentários contra a educação superior, que prejudicam mais o campo das humanidades, justamente onde mais pipocam ideias críticas e incômodas. As investigações policiais que atingem a administração universitária se paramentam de notas sensacionalistas e espetaculosas, como a primeira fase da Operação Torre de Marfim (o nome escolhido já diz tudo acerca de uma certa sanha antiacadêmica), cuja prepotência trouxe de arrasto a tragédia, com o suicídio do então reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier, em 2017. Naquele ano, o cerco em torno de pesquisadores, cientistas e intelectuais ligados à educação superior no Brasil crescia em brutalidade e arrogância, numa trilha de retórica violenta que em 2018 desfraldaria as bandeiras do bolsonarismo. Agora a universidade é bombardeada a todo tempo pelo poder, como se fosse inimiga da Pátria. Nesta hora infeliz, a representação do procurador-geral contra a USP vem piorar o ambiente” – Eugenio Bucci, jornalista, professor da ECA-USP – O Estado de S. Paulo, 20-05-2021.

“A decisão de combater uma epidemia é um ato político, responsabilidade inalienável do presidente da República, a autoridade máxima do país. Ele é o responsável maior, seguido pelos governadores e os prefeitos, uma vez que a administração do SUS é tripartite” – Drauzio Varella, médico – Folha de S. Paulo, 20-05-2021.

“Não há dúvida de que "a essência" do morticínio, nos ensina Hannah Arendt sobre o nazista Adolf Eichmann, é "transformar homens em funcionários e meras engrenagens." Pazuello encarna a banalidade do mal, porque finge não ver que atos e omissões suas são a própria razão pela qual estas mortes existem. Pois são. É graças à burocracia científica que temos a vacina a nos salvar todos os dias. Por Pazuello, teríamos apenas a burocracia da morte” – Thiago Amparo, advogado, professor de direito internacional e direitos humanos na FGV Direito SP. Doutor pela Central European University (Budapeste) – Folha de S. Paulo, 20-05-2021.

“A perda da oportunidade com a vacina da Pfizer é perturbadora. A constatação de que ofertas para estabelecermos acordos de cooperação para acesso à vacina foram desperdiçadas demonstra a falta da atenção dedicada a assunto tão crítico e ajuda a entender a escassez de doses no momento. Sabe-se lá quantas outras oportunidades foram perdidas” – Esper Kallás, médico infectologista, professor titular da Faculdade de Medicina da USP – Folha de S. Paulo, 17-05-2021.

“A verdade é que, não fossem os adversários, reais (Doria) ou imaginários (China), de Bolsonaro, o número de brasileiros vacinados seria próximo de zero. A OMS, organizadora do consórcio Covax, também foi alvo constante de ataques bolsonaristas” – Celso Rocha de Barros, doutor em sociologia – Folha de S. Paulo, 17-05-2021.

“Ao longo de 2019, vimos que há uma base formada por pessoas acima de 45 anos, principalmente homens. Há aqueles que são pró-armas, favoráveis à violência e adotam posturas abertamente antidemocráticas. Há até um certo saudosismo de regimes autoritários. Esse grupo forma uma base muito fiel, e é possível que estejamos falando de algo em torno de 10% a 15% dos eleitores. Ao contrário do que parece, quanto mais absurda for a gestão de Bolsonaro, com declarações de pouco apreço à vida e outras coisas que poderiam afastar eleitores, mais esse nicho aprova. Precisamos olhar para a realidade e nos dar conta de que existe um tipo de eleitor que quer isso mesmo. Por outro lado, nem todo mundo que votou em Bolsonaro é bolsonarista. Há eleitores mais voláteis ou mais pragmáticos que podem votar em outra pessoa, dependendo de quem estiver concorrendo” – Isabela Kalil, antropóloga – O Estado de S. Paulo, 16-05-2021.

“O “eu autorizo” seja um apelo antidemocrático, não dá para negar. Além disso, há a questão do voto impresso. Bolsonaro está tentando desacreditar o sistema como um todo. Então, há nessas manifestações três pontos: entregar a autoridade ao chefe do Poder Executivo, mesmo que de forma autoritária; liberdade para o trabalho; e dizer que há fraude no sistema eleitoral” – Isabela Kalil, antropóloga – O Estado de S. Paulo, 16-05-2021.

“Ninguém mais quer acabar com o capitalismo. Quer, sim, achar um nicho de mercado para chamar de seu: e que seja com todas as cores do arco-íris, esteja repleto de amigues e com iPhones aos montes” – Luiz Felipe Pondé, escritor e ensaísta – Folha de S. Paulo, 17-05-2021.

“Receio que Bolsonaro já tenha cometido tantos despautérios que anestesiou a sensibilidade pública. Nada mais que ele faça vai parecer chocante o bastante para motivar as pessoas a exigir sua destituição” – Helio Schwartsman, jornalista – Folha de S. Paulo, 21-05-2021.

“Políticos estão legitimando a mentira. Alguém precisa fazer algum gesto. O gesto é a prisão de quem mentir sob juramento escancaradamente dentro do Congresso Nacional. Sem um gesto grande, estamos entregues ao apodrecimento da democracia acelerado pelas redes sociais. É preciso ação. O decaimento lento da verdade está em suas fases finais” – Pedro Doria, jornalista – O Estado de S. Paulo, 21-05-2021.

Eduardo Pazuello, Ernesto Araújo e Fabio Wajngarten cumpriram o mesmo papel na CPI da Covid: mentir, para negar o negacionismo e acobertar os erros óbvios do presidente Jair Bolsonaro no combate a uma epidemia que já custou a vida de mais de 440 mil brasileiros. A célebre frase de Pazuello, ‘um manda, outro obedece”, virou “um não manda e não sabe de nada, todos os outros fazem tudo como bem entendem’” – Eliane Cantanhêde, jornalista – O Estado de S. Paulo, 21-05-2021.


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Colunista

Victor Barone

Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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