Semana On

Segunda-Feira 27.set.2021

Ano X - Nº 461

Coluna Ágora Digital

Uma semana doida para o bolsonarismo

O jornalista Victor Barone resume a semana política, com humor e acidez

Postado em 13 de Maio de 2021 - Victor Barone

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O presidente da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, depôs ontem (13) à CPI da covid-19 e colocou mais um tijolo na construção da tese de que o governo federal tinha um gabinete paralelo para aconselhamento em relação à pandemia, com pessoas que não têm nada a ver com o Ministério da Saúde: ele confirmou que o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e o assessor especial para assuntos internacionais da Presidência, Filipe Martins, participaram das negociações para a compra de vacinas. Isso além do ex-chefe da Secom, Fabio Wajngarten:

“Representantes da Pfizer foram recebidos pelo senhor Fabio Wajngarten, nessa oportunidade havia-se tentado contato com o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, Elcio Franco, como já visto aqui, sem sucesso, sem resposta. Diante da falta de resposta, o senhor Wajngarten contactou o senhor Filipe Martins, que chamou para o local da reunião o filho do presidente da República, o senhor Carlos Bolsonaro, que estava presente no Palácio do Planalto”. Murillo não esteve na reunião, mas confirmou que ela aconteceu com outros membros da empresa.

SILÊNCIO TOTAL

Carlos Murillo também ajudou a ajudou a expor a falta de senso de urgência do governo federal na pandemia: o Ministério da Saúde ignorou ao menos cinco ofertas da empresa, sendo que a primeira foi feita em agosto do ano passado. “Não teve resposta positiva nem negativa”, disse.

De acordo com ele, as três primeiras propostas previam entregas de doses ainda em 2020 (embora seja preciso lembrar que os ensaios clínicos com o imunizante só terminaram em novembro e as primeiras agências reguladoras deram suas autorizações emergenciais apenas em dezembro). 

Se o negócio tivesse sido fechado ainda em agosto, o Brasil poderia ter recebido 4,5 milhões de doses até o fim de março: 1,5 milhão em 2020 e outras três milhões no primeiro trimestre. Nesse caso, teriam sido imunizadas 2,2 milhões de pessoas e, segundo o epidemiologista Pedro Hallal, professor da UFPel, pelo menos cinco mil vidas teriam sido salvas. Mas o governo demorou mais de 200 dias para finalmente assinar um acordo, o que aconteceu em fevereiro deste ano. Por enquanto, recebemos 1,6 milhão de doses, com as entregas começando em abril.

A quantidade total de vacina que entregue no primeiro semestre de 2021, porém, não seria tão distante daquela efetivamente contratada: pela proposta original, seriam ao todo 18 milhões até o fim de junho; o acordo firmado prevê 14 milhões. 

De todo modo, a fala de Murillo deixa mais do que claro que o Ministério da Saúde cruzou os braços quando deveria estar trabalhando para aumentar o cardápio brasileiro de vacinas. Mas o presidente Jair Bolsonaro conseguiu reverter essa óbvia constatação no seu oposto: em transmissão ao vivo ontem à noite, disse que o depoimento foi a prova de que Eduardo Pazuello fez tudo certo… Isso porque a primeira proposta da empresa envolvia 70 milhões de doses, contra as 100 milhões que o governo acabou topando. Como se os quantitativos não fossem, em toda parte, aumentados com o tempo… “Acabou a palhaçada e a narrativa sobre compra ou não da vacina Pfizer no ano passado. Ele falou que a proposta que o pessoal fala tanto que não comprou era 70 milhões de doses. E fechamos o contrato há pouco com a Pfizer pela compra de 100 milhões. Precisa falar mais alguma coisa ou vão continuar perturbando? Graças ao trabalho de quem? Do Ministério da Saúde. Começou com quem? Com o Pazuello; Acabou a narrativa, aquela conversa mole”.

Bom, uma ressalva feita pelo próprio Murillo é que o número de 4,5 milhões de doses perdidas até março se baseia na oferta da empresa, mas que não seria necessariamente a quantidade fornecida, porque há outros gargalos. Ele foi questionado sobre se a Pfizer vem conseguindo cumprir seus cronogramas de entrega até aqui e respondeu que sim. No entanto, isso não é o que foi visto nos primeiros meses de distribuição. Houve atrasos nas remessas para o Canadá, países europeus e México, entre outros. 

Ele também disse que as cláusulas do contrato consideradas “leoninas” pelo ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, eram idênticas às impostas a todos os demais países. Já mencionamos por aqui a investigação do Bureau of Investigative Journalism que revelou exigências diferenciadas para países latino-americanos, inluindo a disponibilização de reservas de bancos federais, edifícios de embaixadas e bases militares. Também aconteceu em outros lugares: a África do Sul, cujas negociações estiveram travadas pelo mesmo motivo, acabou conseguindo demover a Pfizer de tais exigências. 

MENTIRAS E QUASE PRISÃO

A CPI da covid-19 teve um tenso com o depoimento de Fabio Wajngarten, ex-titular da Secom (a Secretaria Especial de Comunicação Social). O relator Renan Calheiros (MDB-AL) chegou a pedir a prisão do depoente: “Vossa Excelência exagerou na mentira”, disse. 

Foram mesmo várias as mentiras proferidas pelo ex-secretário, e é até difícil escolher a mais explícita. Mas a mais importante para a CPI foi aquela relacionada ao grande motivo de ele ter sido convocado pelos senadores: sua entrevista-bomba à Veja, publicada há menos de um mês, em que ele acusa o Ministério da Saúde de “incompetência e ineficiência” na compra da vacina da Pfizer. Ontem ele mudou de lado. Disse, logo no começo da sessão, que o acordo foi travado por “burocracia e morosidade”, e que isso seria uma “característica da administração pública”. Negou várias vezes ter usado os adjetivos “incompetência” ou “ineficiência” para se referir a Eduardo Pazuello e sua equipe. Segundo ele, a revista teria usado esses termos como um “truque” para “trazer audiência”. 

Veja então publicou o áudio da entrevista: “Incompetência e ineficiência. Quando você tem um laboratório americano com cinco escritórios de advocacia apoiando uma negociação que envolve cifras milionárias e do outro lado um time pequeno, tímido, sem experiência, é 7×1”, diz Wajngarten. A senadora Leila Barros (PSB-DF) tocou o trecho para confrontar o ex-secretário. Sua resposta foi dizer que… não havia acusado o Ministério como um todo.

As farsas foram se acumulando. Wajngarten disse, por exemplo, desconhecer a inesquecível campanha “O Brasil não pode parar”, veiculada em março do ano passado (em sua gestão, portanto). A propaganda estimulava a população a seguir a vida normalmente quando governadores e prefeitos implementavam medidas restritivas. Mais tarde, ele disse ter “lembrado” da campanha, mas garantiu que não partiu dele a aprovação e que ela não havia sido veiculada por perfis oficiais. É mentira: a peça foi publicada nas redes sociais da própria Secom.

Sua desculpa para não se lembrar direito desses fatos foi a de que tinha testado positivo para covid-19, estando “fora” no mês de março. Porém, na época ele participou de uma transmissão ao vivo com Eduardo Bolsonaro, em que afirmou estar trabalhando normalmente: “Tenho feito ‘calls’ com ministros, feito ‘calls’ com a Secom. Tenho aprovado campanhas”, disse, naquele momento. Ele também declarou ontem que a Secom não contratou influencers para propagandear o kit covid nas redes sociais, mas a Agência Públicamostrou recentemente que sim: agência Calia, contratada pelo governo, pagou R$ 23 mil a perfis famosos para isso.

“Ao fim e ao cabo, depois de mais de cinco horas de depoimento, Wajngarten mostrou que apesar de ter saído do governo, o governo não saiu dele. Na condição de titular da comunicação do embuste que foi o enfrentamento da pandemia por este governo, o ministro não poderia ter sido outra coisa senão um engodo de igual monta”, analisa Maria Cristina Fernandes, no Valor.

O pedido de prisão foi negado pelo presidente da CPI, Omar Azis (PSD-AM) — ele disse que, como Wajngarten depôs na condição de testemunha, não caberia à Comissão julgá-lo. Segundo a apuração do Valor, sua decisão quebrou certo consenso que havia no G7 de que Wajngarten deveria de fato ser preso. No fim, Aziz optou por uma solução de “meio termo”: acatou a sugestão de Humberto Costa (PT-PE) para que o depoimento seja encaminhado ao Ministério Público, que pode decidir pela prisão.

Como se o dia não estivesse confuso o bastante, o senador Flávio Bolsonaro decidiu aparecer para defender Wajngarten: “Imagina a situação: um cidadão honesto ser preso por um vagabundo como Renan Calheiros? Olha a desmoralização, estão perdendo a visão do todo”, disse, no que Renan xingou de volta, lembrando as rachadinhas: “Vagabundo é você que roubou dinheiro do pessoal do seu gabinete”. Flávio, então, desceu o mais baixo que pôde, mandando relator da CPI “se foder”. E a sessão foi suspensa.

COMITÊ PARALELO

Apesar de ter defendido o governo federal em seu depoimento, Fabio Wajngarten confirmou um episódio-chave narrado em sua entrevista de abril à Veja: o envio de uma carta pela Pfizer em setembro do ano passado, com o objetivo de acelerar as negociações com o Brasil. A empresa ficou dois meses sem nenhuma resposta. Wajngarten entregou à CPI a íntegra da carta, que tinha como destinatários o presidente Jair Bolsonaro, o vice-presidente, Hamilton Mourão, o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, o então ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto,o ministro da Economia, Paulo Guedes e o embaixador do Brasil para os Estados Unidos, Nestor Forster.

“A carta foi enviada em 12 de setembro. O dono do veículo de comunicação me avisa em 9 de novembro que a carta não havia sido respondida. Nesse momento, eu mando um e-mail ao presidente da Pfizer, que consta nessa carta. Eu respondi essa carta no dia em que eu recebi, 15 minutos depois, Senador”, declarou o ex-secretário.

Também neste terreno a fala do ex-secretário teve contradições. Ele disse ter se reunido três vezes com representantes da Pfizer para destravar a negociação; disse explicitamente que os encontros haviam sido registrados em sua agenda oficial. Por lei, eles precisam mesmo estar lá. Mas não há nada em sua agenda oficial nas datas informadas. Wajngarten também afirmou mais de uma vez que não discutiu o preço das doses com a Pfizer. Na entrevista à Veja, porém, ele contou que a empresa estava disposta a cobrar menos de US$ 10 por dose – menos que o valor efetivamente pago pelo Ministério da Saúde. 

O fato de Wajngarten confirmar sua atuação nas tratativas acabou servindo, na avaliação de Renan Calheiros, como prova da existência de uma espécie de gabinete paralelo de aconselhamento de Jair Bolsonaro na pandemia, como denunciou o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Calheiros perguntou especificamente sobre tal gabinete, que o ex-secretário disse desconhecer. “Vossa Excelência é a prova da existência dessa consultoria. Vossa Excelência é a primeira pessoa que incrimina o presidente da República porque iniciou uma negociação, como secretário de Comunicação, e se dizendo em nome do presidente. É a prova da existência disso”, retrucou o relator. 

ENQUANTO ISSO…

Após as estrondosas presenças de Antonio Barra Torres e Fabio Wajngarten na CPI, o depoimento do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello se torna ainda mais aguardado – mas pode não dar em nada. Sua defesa decidiu tentar conseguir um habeas corpus no STF para que ele possa ficar calado. O texto está pronto para ser assinado pelo advogado-geral da União, André Mendonça, e apresentado ao Supremo. 

De qualquer forma, Pazuello parece se movimentar para sair das asas do governo. Segundo o Estadão, ele recusou cargo na Secretaria-Geral da Presidência. “O ato de nomeação chegou a ser assinado pelo ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, mas não foi publicado a pedido do militar”, diz o jornal.

Além disso, Pazuello estuda contratar o advogado criminalista Zoser Hardman, que atuou como seu assessor jurídico na Saúde, ao invés de seguir sendo representado pela Advocacia-Geral da União – que pela primeira vez na história, destacou uma equipe para orientar o depoimento de um ex-ministro.

NOVAS PESQUISAS

Uma nova rodada do Datafolha, mostra que a aprovação do governo Bolsonaro caiu seis pontos desde março e chegou ao pior patamar do mandato: 24%. São 45% os que rejeitam o governo e 30% os que o consideram regular. 

Para 2022, quem lidera a corrida eleitoral é Lula, que tem 41% das intenções de voto no primeiro turno, contra 23% de Bolsonaro. No segundo turno, Lula venceria por 55% contra 32%. Ciro Gomes também venceria Bolsonaro em uma segunda etapa, mas com menor diferença (48% contra 36%); já o governador de São Paulo João Doria, ficaria em empate técnico. As rejeições estão assim: 54% dos eleitores não votariam em Bolsonaro de jeito nenhum; para Lula, são 36%, e depois vêm Doria  (30%), Luciano Huck (29%), Sergio Moro (26%) e Ciro Gomes (24%).

Os resultados da pesquisa PoderData, também divulgados ontem, são diferentes: mostram Lula e Bolsonaro empatados no primeiro turno, com 32% das intenções de voto cada. E que tanto Lula como Huck venceriam em um eventual segundo turno. Mas Ciro, não. E, segundo o PoderData, a rejeição a Lula é a maior de todas, chegando a 50% (contra 49% de Bolsonaro). 

MAIS UMA CPI?

O escândalo da distribuição de R$ 3 bilhões para parlamentares aliados do Planalto também pode dar em CPI. Ontem o deputado Ivan Valente (PSOL-SP) iniciou a coleta de assinaturas. No caso da Câmara, são necessárias 171 para que a minoria tenha o direito de entregar o requerimento de abertura da CPI ao presidente da Casa, Arthur Lira (Progressistas-AL), que é um dos beneficiados do “tratoraço”. 

“A criação de orçamento paralelo com execução condicionada à indicação de parlamentares que votam com o governo configura verdadeira compra de votos e fere gravemente a autonomia do Poder Legislativo e a separação de poderes assegurada na Constituição”, diz o texto de Valente. 

Há também outras iniciativas. O próprio PSOL encaminhou representação contra o governo à Procuradoria-Geral da República e à Procuradoria da República no Distrito Federal. O líder da oposição na Câmara, Alessandro Molon (PSB-RJ), anunciou ontem que vai apresentar representações junto ao TCU, ao MPF e à PGR. O Partido Novo entregou representação ao Tribunal de Contas da União. E o subprocurador-geral Lucas Rocha Furtado, que atua junto ao TCU, também já solicitou ao Tribunal que apure o caso.

Enquanto isso, o governo e sua base aliada resolveram responder ao escândalo com fake news. Afirmam que o dinheiro é de emendas impositivas a que todos os parlamentares têm acesso, e teria sido distribuído de maneira igualitária aos congressistas. “Não é verdade. Trata-se de um dinheiro paralelo ao reservado para as emendas individuais a que todos os congressistas têm direito – aliados e opositores – e que o Executivo tem a obrigação de pagar”, aponta o Estadão, que descobriu o esquema bilionário.

Uma boa ideia do que representam R$ 3 bilhões no orçamento público foi dada por Lucia Pellanda, reitora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, que mostra que, até agora, todas as 69 universidades federais só tiveram R$ 2,6 bi liberados para pagas as contas (luz, água, etc.). O total de recursos liberados para isso que só vem minguando ao longo do tempo, é de R$ 4,5 bi em 2021.

O PLANILHÃO DO GOVERNO

O governo Bolsonaro criou um esquema secreto que usa recursos públicos para aumentar e cimentar sua base de apoio no Congresso Nacional. Segundo o repórter Breno Pires, do Estadão, pelo menos R$ 3 bilhões foram direcionados a 285 parlamentares que passaram a escolher redutos eleitorais como o destino da aplicação desse dinheiro, em troca do apoio à eleição de Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (DEM-MG) para a Câmara e o Senado. Lira segura mais de cem pedidos de impeachment contra o presidente. Pacheco segurou o quanto pôde a abertura da CPI da Pandemia.

A descoberta do jornal está bem documentada: foram analisados 101 ofícios enviados por deputados e senadores ao Ministério do Desenvolvimento Regional e órgãos vinculados à pasta. Os documentos mostram que eles indicavam onde usar os recursos – caracterizados por alguns como “cotas” pessoais. 

Tudo isso aconteceu violando as regras orçamentárias. Anualmente, cada um dos 513 deputados e 81 senadores têm direito de indicar R$ 16 milhões em emendas parlamentares. Metade desse dinheiro precisa ir para a Saúde, e os R$ 8 milhões restantes podem ser direcionados livremente. No “planilhão” do governo, os aliados ganharam muito, mas muito mais do que esse limite anual. 

O senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), por exemplo, determinou a aplicação de R$ 277 milhões de verbas públicas do Ministério do Desenvolvimento Regional. “Ele precisaria de 34 anos no Senado para conseguir indicar esse montante por meio da tradicional emenda parlamentar individual”, compara Breno Pires. Já o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), manejou R$ 114 milhões.

Na prática, funciona assim: primeiro são definidos os valores que cada parlamentar aliado tem direito a enviar a suas bases. Depois, o congressista pode optar se indica o repasse por meio de um convênio do Ministério do Desenvolvimento Regional ou se direciona o dinheiro para órgãos vinculados à pasta. O caminho preferido tem sido o repasse à Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf) – que, não por acaso, é controlada pelo Centrão

“No caso da Codevasf, os repasses do governo federal podem chegar na ponta mais rapidamente, porque a estatal pode executar diretamente serviços como obras e compra de máquinas, com regras menos restritivas para licitação, por exemplo, do que aquelas previstas para um ministério”, explica Pires. E continua: “Como a estatal é controlada por apadrinhados de lideranças políticas, o controle do uso do dinheiro pelos parlamentares é mantido até a execução da obra ou da compra. Assim, a definição de quais serão os beneficiados finais caberá aos próprios parlamentares, que exercem influência nas superintendências regionais da empresa”.

Como era de se esperar, o esquema subverte completamente a racionalidade do gasto público. Libera dinheiro para novas obras, deixando outras que estão em andamento a ver navios. Os recursos vão para cidades governadas por parentes dos congressistas, ou nas quais eles têm interesses eleitorais ao invés de serem distribuídos segundo critérios econômicos e sociais. E as escolhas dos parlamentares também são bizarras: boa parte do orçamento secreto foi destinado à compra de tratores e equipamentos agrícolas por preços até 259% acima dos valores de referência fixados pelo governo. Nesse sentido, o esquema foi batizado de “tratoraço”.

“Na prática, a origem do novo esquema está no discurso de Bolsonaro de não distribuir cargos, sob o argumento de não lotear o primeiro escalão do governo. De um jeito ou de outro, a moeda de troca se deu por meio da transferência do controle de bilhões de reais do orçamento ao Congresso. Tudo a portas fechadas, longe do olhar dos eleitores”, resume Breno Pires. Por tudo isso, e esquema está sendo comparado com o mensalão e com o escândalo dos Anões do Orçamento.

PARA ISSO, SERVIU

O ex-chanceler Ernesto Araújo pode ter atrapalhado as negociações entre Brasil e China por insumos e vacinas, mas mobilizou a diplomacia brasileira para conseguir cloroquina da Índia, mostra a Folha. Em telegramas obtidos pelo jornal, ele pede “sensibilizar o governo indiano para a urgência da liberação da exportação”. Foi em abril de 2020, quando o governo indiano limitara a exportação do medicamento. Na época, a OMS já tinha interrompido os ensaios clínicos com a cloroquina, e associações médicas tinham alertado para a ineficácia e os possíveis efeitos colaterais.

E, em meio à CPI da pandemia e depois de o Ministério da Saúde retirar do ar o documento em que recomenda o uso de hidroxicloroquina para todos os casos de covid-19, o presidente Jair Bolsonaro decidiu dar mais uma força para o falso tratamento. Ele disse que o trabalho da comissão está “um vexame” e prometeu um vídeo em que seus ministros farão apologia ao uso da droga: “Ontem [sexta-feira] retornando de Rondônia, no avião tinha alguns ministros, a gente vai fazer um vídeo na semana, os 22 ministros, todos aqueles que tomaram hidroxicloroquina vão falar ‘eu tomei’. É a alternativa no momento”. No Facebook, ele pediu aos críticos do remédio que “não encham o saco“. 

O DOBRO

O Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde (IHME) da Escola de Medicina da Universidade de Washington divulgou na semana passada novas estimativas sobre a subnotificação da covid-19 no mundo, com base no excesso de mortes. De acordo com elas, pode haver hoje 6,9 milhões de óbitos, ou mais que o dobro dos 3,2 milhões oficialmente relatadas

No Brasil, em vez de 422 mil mortes, haveria cerca de 600 mil. Mas nossa subnotificação não está entre as maiores do mundo. Aqui, a razão entre as mortes estimadas e as registradas é de 1,4; no Egito, é de nada menos que 13 (haveria lá 170 mil mortes, em vez de 13 mil); no Japão, 10,8 (seriam 108 mil mortes, e não 10 mil); na Rússia, é de 5,4 (593 mil mortes, e não 109 mil); no México, 2,8 (seriam 617 mil mortes, em vez de 217 mil); e, na Índia, 2,9 (654 mil mortes, e não as 221 mil  relatadas no momento do estudo). Segundo as estimativas, o Brasil não seria o segundo país com mais mortes por covid-19, e sim o quarto. Passariam a nossa frente o México e a Índia. 

Por Outra Saúde

SUPREMA IRONIA

Num instante em que o Judiciário apaga as luzes da Lava Jato, Sérgio Cabral espirra lama nos salões do Supremo Tribunal Federal. Os magistrados da Suprema Corte podem fazer qualquer coisa com a acusação de que o ministro Dias Toffoli vendeu favores judiciais no Tribunal Superior Eleitoral por R$ 4 milhões, exceto arquivar o caso no escurinho de um processo obscuro. O episódio pede o clarão dos refletores.

É a primeira vez que a Polícia Federal protocola no Supremo pedido de investigação contra um ministro da própria Corte. Cabral declarou que Toffoli vendeu sentenças a dois prefeitos do Rio de Janeiro quando integrava o TSE. Declara que o ex-secretário de Obras do Rio, Hudson Braga, fez o pagamento da propina, supostamente repassada por meio da advogada Roberta Rangel, mulher de Toffoli. O ministro nega as acusações. Soará mais convincente se acender a luz.

O caso traz a marca do inusitado. Em fevereiro do ano passado, o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo, homologou a delação celebrada por Cabral com a Polícia Federal. Seguiu-se a abertura de uma dúzia de inquéritos contra parlamentares, ministros do STJ e do TCU. Tudo sigiloso.

De repente, o procurador-geral Augusto Aras pediu a Toffoli, então presidente do Supremo, o arquivamento de todos os processos. Antes de deixar o comando da Corte, em setembro do ano passado, Toffoli enfurnou tudo no arquivo. Matou os processos no escurinho. Cabral endureceu o dedo novamente. Dessa vez, arrastou Toffoli para o caldeirão.

Ao requisitar a abertura de inquérito contra Toffoli, a PF sinaliza que acredita ter encontrado carne no angu servido pelo delator. Faz isso num instante em que Bolsonaro imaginava ter assumido o controle da corporação. Fachin pediu a manifestação do procurador-geral. Aras deve pedir novo arquivamento. Ou o Supremo acende a luz ou a plateia sentirá um cheiro de pus.

Por Josias de Souza

BOBO E CHATO

O bate-boca entre os senadores Renan Calheiros (MDB-AL) e Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) continou após o fim da reunião da CPI da Covid de quarta-feira (12). Durante a sessão, Flávio chamou Renan de "vagabundo". Após a suspensão do encontro pelo presidente Omar Aziz (PP-AM), Renan foi para cima de Flávio com dedo em riste e chamando o filho do presidente de moleque.

GENTE DE BEM

Uma manifestação organizada por mulheres foi reprimida com dois tiros em frente à delegacia da Polícia Civil de Paraty (RJ), na região central da cidade, no último dia 10. O autor dos disparos é um policial civil. Cerca de cinquenta mulheres faziam uma manifestação pacífica diante da entrada do prédio quando o escrivão saiu armado de fuzil e efetuou dois disparos direcionados ao chão. Nenhuma pessoa se feriu e as manifestantes, apesar de assustadas, continuaram no local.

GENTE DE BEM 2

O deputado federal Sargento Fahur (PSD-PR) chegou a comemorar o número de mortes na chacina da comunidade do Jacarezinho, ocorrida no último dia 6.

GENTE DE BEM 3

A atacante Chú, do Palmeiras e da seleção brasileira, publicou um comentário homofóbico em seu Facebook ao comentar a morte de Paulo Gustavo. Em uma comparação entre o ator e o cantor gospel e político Irmão Lázaro, que morreram em 2021 por conta da Covid-19, Chú afirmou que a diferença entre os dois é que Lázaro iria para o paraíso e Paulo Gustavo para o inferno, por conta da sexualidade. A imagem do comentário passou a circular e atraiu muitas críticas para a jogadora e para o clube. Ambos se manifestaram durante o dia: Chú pediu perdão, enquanto que o clube afirmou que ela entendeu o erro e recebeu orientação para ter um comportamento adequado.

GENTE DE BEM 4

Após ter sido condenada pela 12ª Vara Cível de Brasília por ter compartilhado uma fake news contra Marisa Letícia Lula da Silva, a atriz e ex-secretária da Cultura do governo Bolsonaro, Regina Duarte, publicou em seu perfil no Instagram um pedido de desculpas.

“No dia 11 de April de 2020, reproduzi no meu Instagram uma informação sobre o inventário do patrimônio da falecida D. Marisa Letícia Lula da Silva que apesar de ter sido obtida de fontes oficiais públicas e amplamente divulgada por meios de comunicação, veio posteriormente a revelar-se errada e eventualmente corrigida pelos órgãos judiciais relevantes. Assim que tomei conhecimento de que a informação partilhada estava incorreta, apaguei voluntária e prontamente a postagem do meu Instagram”, escreveu a atriz na rede social. A grafia foi mantida como está na publicação.


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Colunista

Victor Barone

Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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