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Quinta-Feira 11.ago.2022

Ano X - Nº 499

Coluna Conexões

A Venezuela e a aproximação com o Oriente Médio

Nosso Continente sofre permanente pressão imperial de Washington, mesmo que economicamente a China hoje seja mais importante do que os EUA

Postado em 23 de Junho de 2022 - Bruno Lima Rocha

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Desde os tempos áureos do governo Hugo Chávez que a Venezuela tem uma aliança estratégica com o Irã. Esta aproximação implicava em joint ventures industriais, como na necessidade de maquinário agrícola iraniano de modo a ajudar o país a conquistar a soberania alimentar (ainda não atingida). Diante do acirramento das sanções, ambos os países se vêem em um destino comum de confronto tanto com os EUA como contra o sionismo e suas projeções de poder na América Latina.

Infelizmente, estamos na era do chavismo sem Chávez, e a guerra econômica contra a terra de Ali Primera amplia o cerco ao povo venezuelano. Insisto, toda a solidariedade anti-imperialista não pode e jamais deveria implicar em um adesismo sem pudor.  Na contrapartida, a crítica não pode fazer coro com os inimigos externos e os conspiradores a soldo do Império. Nicolás Maduro não tem a mesma qualidade de liderança de seu antecessor, e o mundo está numa etapa mais tensa do que no auge da onda rosa latino-americana e a ascensão dos BRICS. Com todas estas ressalvas, parece que este giro pelo Oriente Médio e a orientação de sua política externa, está correta.

O presidente da Venezuela vai ao Oriente Médio 

Enquanto a prepotência imperial excluía da “Cúpula das Américas” a Venezuela, Cuba e Nicarágua, o mandatário do Palácio Miraflores iniciava um giro pelo Oriente Médio e o Cáucaso, a partir de sete de junho. A recuperação econômica do país de Douglas Bravo indicou 6% no ano de 2021 e com esses números, Maduro tenta atrair investimentos e acordos nas áreas de energia, comércio, turismo, saúde, tecnologia e agricultura.

Outra agenda importante é a abertura de vôos diretos, através da estatal venezuelana Conviasa, tanto para Doha (Catar) como para Teerã (Irã). Tudo dá a entender é a intenção de estabelecer laços permanentes, tanto com o emirado do Catar como com países com envergadura de potência média e pólo de macrorregião, como Turquia e Irã.

No Estado persa, Maduro afirma uma “amizade indestrutível” com setores de cooperação nas áreas de petróleo, gás e petroquímica. Uma frente importante é a nível financeiro, com o Banco Nacional de Desenvolvimento Irã-Venezuela além do relevante e necessário setor de defesa. Os acordos teriam duração de 20 anos, espelhando algo semelhante realizado entre Teerã, Beijing e Moscou. Na zona de encontro entre a Eurásia, o Oriente Médio e a Ásia, acordos de compensação equilibrando commodities, moeda aduaneira e investimentos, totalizando quase meio trilhão de dólares também em 20 anos de prazos.

Em sua estada na Argélia, o sucessor de Hugo Rafael ressaltou as semelhanças entre a luta de Argel e Caracas, confrontando respectivamente, tanto cenários regionais hostis como confrontos com o imperialismo. Apontando as relações no médio prazo, foi anunciada uma comissão mista binacional de alto nível visando uma agenda nos campos econômico, energético, comercial e cultural. O presidente argelino anunciou uma rota aérea entre as duas capitais, a ser lançada no prazo de dois meses após o término da visita.

Antes de ir à Argel, a visita de Maduro foi à Ancara, capital da Turquia. Como já dissemos acima, além do Irã, a terra de Mustafá Kemal é o outro pilar da política externa venezuelana na região. Entre 2020 e 2021, o comércio bilateral entre os dois países cresceu 300%. A perspectiva para 2022, a partir dos três primeiros meses do ano, é que as cifras podem ultrapassar 1 bilhão e meio de dólares. O líder do PSUV tenta atrair investimentos do empresariado turco, tanto na praça financeira de Istambul como dos Tigres da Anatólia, a cada vez mais fortalecida burguesia apoiador do AKP, o partido de Erdogan.

A contrapartida turca é relevante, pois apesar do país ser membro da OTAN, se posiciona abertamente contra as sanções aplicadas como sabotagem da economia venezuelana.

Maduro também esteve no Kuwait e fez pronunciamentos para fortalecer a OPEP e a OPEP +, a aliança  ampliada da Organização. Os membros permanentes são Angola, Arábia Saudita, Argélia, Catar, Congo, Emirados Árabes Unidos, Guiné Equatorial, Gabão, Irã, Iraque, Kuwait, Líbia, Nigéria e Venezuela. Na versão ampliada estão Rússia, México, Azerbaijão, Bahrein, Brunei, Cazaquistão, Malásia, Omã, Sudão e Sudão do Sul. Na relação direta com o emirado do Golfo, a cooperação foi no sentido de acordos na párea de gás e energia, além de projetos de produção em agricultura de larga escala.

O giro terminou no Cáucaso, com a presença mais protocolar de Maduro em Baku, capital do Azerbaijão.

A Venezuela e sua política externa “não alinhada” 

Como já observamos em artigos anteriores, a economia venezuelana sofre das típicas mazelas de país petroleiro, a analogia conhecida como “doença holandesa” e também “herança bananeira”.  Na primeira analogia, brinca com a excelência do gado e das pastagens dos Países Baixos. A segunda comparação é mais terrível, onde a praga mono-exportadora se aplica na tradição da província petroleira centenária, inaugurada nas explorações do combustível fóssil na região de Táchira, ainda no ano de 1875. 

Se formos comparar o desenvolvimento do petróleo nos EUA – neste mesmo período – e a conseqüente conversão de excedentes em atividades industriais ainda no último quarto do século XIX, compreenderemos o poderio do país que emergiu das Treze Colônias subdesenvolvimento das províncias exportadoras. O governo venezuelano sabe disso e desde o ano 2000 tenta avançar na reconversão de capitais petrolíferos em outras atividades produtivas.

A sabotagem interna, as sanções externas e a incapacidade produtiva é uma soma terrível para um país que não tem até hoje a soberania que se adquire com a segurança alimentar. Por estas razões óbvias, o giro de Maduro por países que pertencem tanto a OPEP como a OPEP +, com a correspondente assinatura de convênios de curto, médio e longo prazo, pode ser o canal de respiro para desenvolver finalmente a complementaridade de cadeias de valor fundamentais para assegurar a viabilidade do país.

Considerando que o lastro da economia dolarizada mundial ainda é o petróleo, qualquer acordo que não esteja submetido aos índices especulativos e permita transações financeiras e complexas. Qualquer saída para além do absurdo ICE Brent (a base de cálculo do Mar do Norte impondo preços em todo o mundo, incluindo os praticados no Brasil com a Petrobrás sob administração entreguista) e com contratos não assinados em dólares já ajuda no esforço comum para escapar do cerco econômico.

Evidente que o subtítulo é mais provocador do que “saudosista”. Reconhecemos que o papel dos países exportadores e produtores de petróleo, com o lastro financeiro e a capacidade de liquidez que os fundos oriundos desta indústria geram, formam “naturalmente” a primeira linha de alianças de um país petroleiro como a Venezuela. Boa parte destes países sofre com ação hostil dos EUA e do sionismo, outra parcela mesmo que cúmplice se vê “desconfortável” diante das pressões no Mundo Islâmico. Logo, a soma de uma commodity estratégica e a complexidade econômica de potências médias (como Irã e Turquia), pode representar o “fôlego” necessário para o chavismo sem Chávez superar a sua pior recessão acompanhada de hiperinflação e cerco de inimigos internos e externos.

Nosso Continente sofre permanente pressão imperial de Washington, mesmo que economicamente a China hoje seja mais importante do que os EUA. A Venezuela já se viu cercada nos últimos anos e precisa de uma política externa e alianças ampliadas que possibilitem uma saída econômica já no curto prazo.

Publicado originalmente no Monitor do Oriente


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Bruno Lima Rocha

Bruno Lima Rocha

Bruno Rocha é jornalista, mestre e doutor em ciência política pela UFRGS. Está vinculado aos setores mais combativos do movimento popular gaúcho e do cone sul.


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