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Quinta-Feira 30.jun.2022

Ano X - Nº 493

Coluna Conexões

A diversificação latino-americana da política externa da Turquia

Turquia e Colômbia são países que nos últimos vinte anos estão no centro das atenções regionais, muitas vezes por razões nada positivas

Postado em 03 de Junho de 2022 - Bruno Lima Rocha

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Turquia e Colômbia são países que nos últimos vinte anos estão no centro das atenções regionais, muitas vezes por razões nada positivas. Se este analista fosse escrever um texto normativo, de opinião e posição política, seria bastante duro com as políticas domésticas e as relações exteriores dos dois Estados. Motivos não faltam: para-militarismo e sujeição a Washington da parte colombiana. Do lado turco, uma relação múltipla e sempre dúbia entre a OTAN e Mundo Árabe e Islâmico, acentuada com a tríplice mirada na Era Erdogan: pan-sunismo, neo-otomanismo e centralidade túrquica.

Seria fora de propósito listar aqui os pontos críticos (como o reconhecimento de Ankara a entidade do Apartheid sionista), e não é este o objetivo do artigo. Desenvolvo análise de política internacional, pensando na inserção dos países para além dos respectivos e criticáveis governos. Vejamos.

Em 20 de maio deste corrente ano, o presidente da Colômbia Iván Duque esteve em reunião com o chefe de Estado da Turquia, Recep Tayyep Erdogan. Em abril, o chanceler turco esteve em Bogotá, reunindo-se também com a chancelaria colombiana. A meta é estreitar as relações e o comércio bilateral entre ambos os países. Como veremos ao longo deste artigo, seria apenas mais um exercício de análise de política externa de um poder médio com um país hegemonizado pelos EUA, mas é “um pouco mais complexo”.

Duque afirmou:

“Acabamos de dar um passo transcendental: elevar a nossa relação bilateral ao nível de relação estratégica. É um gesto que você e o seu Governo têm com a Colômbia e que coloca o nosso país nos mesmos parâmetros históricos de relacionamento que a Turquia mantém com países como o Brasil e México. Como objetivos claros e concretos desta decisão, o dirigente colombiano enumerou: primeiro, duplicar, triplicar e quadruplicar o comércio bilateral na próxima década, começando o mais depressa possível, começando já”.

O mandatário colombiano também declarou, agradecendo a Erdogan:

“Estou muito grato por sua decisão de conceder à Colômbia o Status de Aliado Estratégico da Turquia, modelo usado apenas na América com Brasil e México; isso coloca a Colômbia em uma nova posição. Agora temos uma balança comercial de quase US$ 600 milhões, então é hora de chegar a soluções concretas que beneficiem ambos os países. 

É preciso fazer todo o possível para estabelecer um caminho para construir mecanismos de diálogo e cooperação. Mas é o setor privado que torna realidade a implementação de políticas em termos de comércio e investimento. A Turquia é uma potência na construção de estradas, na operação de concessões, na criação de conteúdos e em tecnologias modernas.”

O controverso e uribista Iván Duque aponta temas relevantes. A economia turca é moderna, diversificada, conta com uma praça financeira própria e um hub de comércio internacional relevante. Já a economia colombiana é muito dependente do mercado externo, mantém o perfil pós-colonial mineral exportador e sofre com desindustrialização ampliada. Estas características se encontram em toda a América Latina, incluindo os maiores países, Brasil e México. O governo da Casa de Nariño sabe que relações com Ankara podem ter um caminho aberto, até pelas condenáveis posições pró-OTAN tanto de Ankara como Bogotá.

As três linhas da política externa turca: neo-otomanismo, pan-sunismo e pan-túrquica

A política externa da Turquia é marcada por alianças com países de maioria islâmica e múltiplas abrangências: Mundo Árabe, Continente Africano e Ásia Central. A região denominada pelos cruzados de “grande Oriente Médio” é a prioridade do país de Mustafá Kemal Ataturk, mas não de forma exclusiva.

Na Ásia Central e no Cáucaso, as relações pan-túrquicas são marcadas pela Türk Devletleri Teşkilatı, a Organização de Estados Túrquicos, com relações e pertencimentos que superam até a lealdade religiosa. Este é o caso do Azerbaijão, de maioria xiita (85%), mas aliado estratégico da Turquia. Ainda formam parte da união, além do país azeri e de Ataturk, o Cazaquistão, Uzbequistão, Quirguistão, são observadores o Turcomenistão e a surpreendente Hungria, em função do mito fundacional magyar.

A Turquia se faz presente em países africanos, desde a intervenção militar na Líbia, até investimentos crescentes na Somália, Etiópia e Eritreia. Sendo o país herdeiro da última Ummah, amplia seus laços com as maiorias sunitas em territórios carentes de infraestrutura e formação bruta de capital fixo.

Além destes dois fatores, pan-túrquicos e pan-sunitas, os herdeiros de Mehmet II projetam poder em escala neo-otomana. A presença na OTAN é herdeira do pós-2ª Guerra, mas faz da Marinha Turca interveniente nos estreitos e no Mar Negro; a abrangência do Millî İstihbarat Teşkilatı (MİT – a Organização Nacional de Inteligência) é ampla e perceptível;  em termos de capacidade de emprego militar, conta com o segundo maior contingente da “aliança” comandada pelo imperialismo anglo-saxão. A ocupação militar do norte da Síria reflete este emprego.

A complexidade da economia turca é um trunfo na política externa ampliada

Nenhum dos fatores listados acima terão peso na ampliação da presença turca na América Latina.  São econômicos e financeiros os pontos de conexão com os países do Continente assolado pelo Comando Sul dos EUA e a projeção de poder no México, Caribe e Antilhas, América Central e do Sul. A Turquia ocupa a posição de número 40 do ranking de complexidade econômica, decrescendo duas posições no intervalo de 2014 a 2019.

A balança externa turca é composta de Veículos: US$ 25 bilhões (11,1% do total exportado); Máquinas, incluindo computadores: US$ 20,8 bilhões (9,2%); Ferro, aço: US$ 17,1 bilhões (7,6%); Máquinas e equipamentos elétricos: US$ 12 bilhões (5,3%); Gemas, metais preciosos: US$ 11 bilhões (4,9%); Roupas e acessórios de malha ou crochê: US$ 10,8 bilhões (4,8%); Plásticos, artigos de plástico: US$ 10 bilhões (4,4%); Obras de ferro ou aço: US$ 8,8 bilhões (3,9%); Combustíveis minerais, incluindo petróleo: US$ 8,5 bilhões (3,8%);  Roupas, acessórios (exceto tricô ou crochê): US$ 7,5 bilhões (3,3%).

Já a capacidade de carga da frota mercante turca é ocupada por pouco mais de 58% de sua produção, provendo assim potencialidade de trocas, na otimização logística de exportar e importar com o mesmo navio. A praça financeira da Turquia é pujante, embora com desvalorizações da lira turca, não está sob o controle da zona euro e necessita fortalecer sua moeda com uma internacionalização ampliada de suas cadeias econômicas.

Em dezembro de 2020, os dez maiores bancos turcos tinham um total de ativos sob seu controle da ordem de USD 666,49 bilhões de dólares. Logo, trata-se de um país com ampla capacidade de financiamento de suas operações comerciais e projetos comuns, o que permite a internacionalização de suas empresas e centralizar na praça financeira de Istambul a interdependência gerada por sua política externa. Ou seja, a Turquia pode ter presença em mercados regionais e ultrapassar a condição de poder médio regional. Dois outros países do Oriente Médio tem o mesmo potencial: Egito e Irã. O primeiro é tutelado por militares pró-Israel e o Estado persa, é onerado uma despesa muito elevada com o necessário Eixo da Resistência, além de sofrer sanções absurdas como ser excluído do Sistema Swift.

O governo Erdogan pode se aproximar sem maiores entraves de controversos presidentes latino-americanos, como o salvadorenho Nayib Bukele e o colombiano Iván Duque, com mais de 70% de rejeição a poucos meses de deixar o cargo. A meta é ultrapassar relações transitórias e criar política externa perene (entre Estados), integrando cadeias econômicas e ampliando a presença da indústria turca em nosso continente.


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Colunista

Bruno Lima Rocha

Bruno Lima Rocha

Bruno Rocha é jornalista, mestre e doutor em ciência política pela UFRGS. Está vinculado aos setores mais combativos do movimento popular gaúcho e do cone sul.


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