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Quarta-Feira 25.mai.2022

Ano X - Nº 488

Coluna Conexões

Um mundo perigoso para os não subordinados ao multilateralismo de Washington

O conflito russo-ucraniano deixou evidente algo já notório a mais de dois terços da humanidade

Postado em 06 de Maio de 2022 - Bruno Lima Rocha

Janet Yellen, Secretária do Tesouro dos EUA.  Brandon Payne/Banco Mundial Janet Yellen, Secretária do Tesouro dos EUA. Brandon Payne/Banco Mundial

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O conflito russo-ucraniano deixou evidente algo já notório a mais de dois terços da humanidade. A primeira evidência é do domínio cibernético e informático do aparelho de segurança dos Estados Unidos sobre o sistema Swift. Ou seja, se o Império determinar, países e povos inteiros podem ficar fora do acesso ao comércio internacional, ou então necessitar de uma triangulação que eleva os preços domésticos.

A segunda evidência é que o sistema Bretton Woods, enterrado pelo governo Nixon, está sendo, de certo modo, exumado pela administração Biden e sua proposta de “multilateralismo”, segundo a qual os Estados Unidos determinam o acionar tanto da União Europeia, como da OTAN e dos países anglo-saxões. Nesta escala – e nesta ordem – é como se estivéssemos novamente em novembro de 1884, até o fechamento da Conferência de Berlim, em fevereiro de 1885. Na ocasião, os poderes europeus unificados como Estados centrais industrializados, mas organizados mundialmente como impérios comerciais globais, inauguraram a nova etapa do imperialismo. O alvo de então foi a África, mas agora o problema é o conflito entre o eurocentrismo contra o polo eurasiático.

A terceira evidência passa pela projeção de poder, a partir dos espaços e arranjos regionais. O século XXI viu a ascensão da China, mas também a presença cada vez maior de poderes médios, com alcance em regiões ou mesmo continentes. Se a vontade dos agentes medianos sempre foi uma certeza, hoje é uma urgência, considerando que caminhamos rumo a uma nova bipolaridade mundial, tendo o espectro econômico e financeiro como ponta de lança desta guerra não declarada – ou quase declarada.

A quarta e última evidência (e não será o tema deste artigo), é o eixo asiático propriamente dito como polo de poder e disputa. O Mar do Sul da China e o Nordeste da Ásia – incluindo o Mar do Japão e a península da Coreia – cada vez mais terão uma dinâmica própria, considerando seu vasto parque industrial e abundante capacidade científico-tecnológica. Os centros de poder local têm a correta visão de que as forças armadas estadunidenses são uma presença invasora neste cenário complexo e com condições de se tornar autárquico ou semiautônomo.

Os Estados Unidos declaram a nova ordem econômico-financeira mundial  

A Secretária do Tesouro dos Estados Unidos na administração Joe Biden, Janet L. Yellen, na data de 14 de abril do corrente ano, fez uma importante fala no think tank Atlantic Council. Na ocasião, a secretária Janet explicitou a visão de guerra financeira mundial administrada pelo Império, e garantida em dois níveis, tanto através do G7 como se sobrepondo ao G20. A obviedade é tripla, pois Yellen afirma comandar mais da metade da economia do planeta, diz o que pode ou não ser feito na Europa e, por fim, entende que a grande recessão pode ser boa aos países anglo-saxões que não dependem do gás russo.

A senhora Janet começou afirmando que o Império e seus trinta aliados de confiança, ainda desejam comandar o planeta.

“Vimos que sanções rápidas e abrangentes podem ter uma enorme força. Os Estados Unidos, juntamente com mais de 30 países, representando bem mais da metade da economia mundial, impuseram um conjunto sem precedentes de sanções financeiras e controles de exportação à Rússia.”

Ao mesmo tempo, deixou evidente que o multilateralismo estadunidense é unipolar e que, comandado por Washington, busca retirar as vontades próprias dos países que possam ser neutros ou não-alinhados. Se as sanções contra a Rússia podem ser “explicáveis”, considera-se que houve uma guerra de agressão na Europa, e que apenas a OTAN tem “o direito de se portar assim”.

“A abordagem multilateral que o presidente Biden adotou nos permitiu impor custos significativos à Rússia, degradando sua capacidade de processar esta guerra e projetar poder nos próximos anos. Conseguimos fazer isso, por exemplo, porque o G7 e a União Europeia representam cerca de metade do comércio internacional da Rússia, e nossas instituições financeiras facilitaram a maior parte do comércio e financiamento de investimentos da Rússia. Nós, os países sancionadores, estamos dizendo à Rússia que, tendo desrespeitado as regras, normas e valores que sustentam a economia internacional, não vamos mais lhe estender o privilégio de negociar ou investir conosco.”

Yellen também decretou a grande recessão, além de autorizar a corrida especulativa mundial, considerando que as commodities primárias, além de essenciais para a vida moderna em sociedade – em territórios com dezenas ou centenas de milhões de habitantes –, condicionam as cadeias globais de valor. A “mitigação” dos impactos seria ampliar a dependência em relação à Marinha dos Estados Unidos, como fiadora das escoltas ao comércio mundial, incluindo nas rotas de gás natural liquefeito (GNL) para abastecer a Europa, que não deve mais receber o mesmo volume de insumos energéticos da Gazprom.

“Ao mesmo tempo, estamos mobilizando o poder da cooperação internacional para mitigar os impactos econômicos da guerra da Rússia. A invasão terá impactos diretos na economia global devido à contração das exportações ucranianas e russas – particularmente energia, alimentos, fertilizantes e outras commodities. Quando a Rússia tomou a decisão de invadir a Ucrânia, predestinou uma saída do sistema financeiro global. Os líderes russos sabiam que imporíamos sanções severas, mesmo que subestimassem a amplitude, profundidade e coordenação das ações que os Estados Unidos e seus aliados tomariam. Estamos vendo agora preços mais altos de commodities que aumentaram as pressões inflacionárias globais e estão representando ameaças à segurança energética e alimentar, fluxos comerciais e equilíbrios externos em muitos países.”

O início da superação do Sistema Swift

Passados mais de sessenta dias de guerra e, conforme já discutimos anteriormente, o bloqueio ao uso da moeda como meio de pagamento e fator de troca é uma arma na geopolítica europeia, na geoestratégia mundial e no rigor da geoeconomia da segurança energética. O gás russo – e o gás natural como um todo – não é tão dolarizado e nem tão precificado em bolsa como uma commodity alvo de especulação em mercado futuro. A infraestrutura é mais perene e a economicidade logística, distinta. É no fluxo que ganha o produtor e os estoques nunca são tão grandes para assegurar o provimento por mais de alguns meses.

Para tanto, é necessário mudar o sistema de comunicação interbancária e não permitir que uma força externa controle a reserva de valor de um país ou de suas empresas estratégicas. Como sempre, no sistema internacional, a vitória está no jogo de antecipações, como afirma a diplomacia russa e iraniana.

“A Rússia e o Irã têm cooperado para conectar seus sistemas de mensagens interbancárias a fim de contornar a rede de transações financeiras SWIFT, disse Kazem Jalali, embaixador da República Islâmica do Irã na Rússia, nesta quinta-feira. Ambos os países estão enfrentando severas sanções ocidentais, tornando difíceis ou impossíveis os acordos comerciais por meio do SWIFT. A Rússia tem seu próprio mecanismo de pagamento chamado Financial Message Transfer System (SPFS) que possui funcionalidade semelhante e permite a transmissão de mensagens no formato SWIFT. Foi criado como um análogo ao SWIFT que foi desenvolvido pelo Banco da Rússia desde 2014.”

A possibilidade concreta é a inclusão de poderes médios, como Turquia, Paquistão e o próprio Irã na comutação do SPFS com o Cross-Border Inter-Bank Payments System (CIPS), de base chinesa. Conforme o Banco Central da China, o sistema está em sua fase dois – e avançando.

Resta saber se os países que são polos de micro e macro regiões conseguirão se posicionar de forma altiva e soberana, de modo a não ficarmos reféns do privilégio exorbitante do dólar, lutando tanto por moedas regionais, como por uma inserção mais justa no comércio global.


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Bruno Lima Rocha

Bruno Lima Rocha

Bruno Rocha é jornalista, mestre e doutor em ciência política pela UFRGS. Está vinculado aos setores mais combativos do movimento popular gaúcho e do cone sul.


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