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Quarta-Feira 21.ago.2019

Ano VII - Nº 359

Poder

Novo ministro da Educação defende ditadura e projeto Escola sem Partido

Indicado por Olavo de Carvalho, colombiano foi apoiado por bancada evangélica

Postado em 23 de Novembro de 2018 - Fábio Góis (Congresso em Foco) e Painel (Folha de SP)

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O presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) anunciou pelo Twitter, na quinta-feira (22), o nome do filósofo Ricardo Velez Rodriguez para o Ministério da Educação (MEC). Bolsonaro ressaltou que Velez, colombiano naturalizado brasileiro, é autor de mais de 30 obras e é professor emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. A escolha se dá em meio às discussões sobre o projeto escola sem partido, polêmica proposição que avançou sua tramitação na Câmara na quinta-feira.

"Velez é professor de Filosofia, mestre em Pensamento Brasileiro pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, doutor em Pensamento Luso-Brasileiro pela Universidade Gama Filho, pós-doutor pelo Centro de Pesquisas Políticas Raymond Aron, Paris, com ampla experiência docente e gestora", acrescentou o capitão da reserva.

O que ele pensa

Vélez Rodrigues escreveu em seu blog um texto no qual diz que o dia 31 de março de 1964, que marca o golpe militar no Brasil, é “uma data para lembrar e comemorar”.

Ele compara a instauração da ditadura a outros eventos históricos, como do “dia do fico”, em que dom Pedro se recusa a deixar o Brasil e voltar a Lisboa. “Nos treze anos de desgoverno lulopetista os militantes e líderes do PT e coligados tentaram, por todos os meios, desmoralizar a memória dos nossos militares e do governo por eles instaurado em 64.”

“A malfadada ‘Comissão da Verdade’ que, a meu ver, consistiu mais numa encenação para ‘omissão da verdade’, foi a iniciativa mais absurda que os petralhas tentaram impor”, diz o futuro ministro no mesmo texto. Ele se refere ao colegiado que buscou elucidar crimes cometidos pela repressão militar, como torturas e assassinatos de civis.

Vélez ironiza o conceito de direitos humanos e faz laudações ao “patriótico papel” desempenhado pelos militares no período. Ele diz ainda que “houve falhas” durante o regime, e começa a listagem pelo que entende como equívocos da política econômica.

Na única e discreta menção a atos de violência praticados pelo Estado contra civis, afirma apenas que “houve excessos no que tange à repressão”.

No último parágrafo do texto, escrito em 2017, Vélez afirma que “os nossos militares prepararam os seus quadros de oficiais para se inserirem no Brasil democrático, abrindo espaço ao público feminino e com pleno respeito às lideranças civis legítimas surgidas do voto popular e às instituições do governo representativo”.

Ele ascenderá ao poder no MEC pelas mãos de Bolsonaro, capitão reformado do Exército que, ao longo de 28 anos como deputado, prestou homenagens e defendeu torturadores como Carlos Alberto Brilhante Ustra na tribuna da Câmara.

Bolsonaro chegou a dizer que a ditadura do Brasil matou pouco. Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade divulgou relatório com os nomes de 434 pessoas que morreram ou desapareceram durante o regime. Após o golpe, os militares permaneceram por 21 anos no poder.

Escola sem partido

Rodríguez também postou em seu blog, em setembro deste ano, trecho de entrevista de 2004 na qual defendeu que “todas as escolas deveriam ter Conselhos de Ética que zelassem pela reta educação moral dos alunos”. “Não se trata de comitês de moralismo, nem de juntas de censura”, disse. “Trata-se de institucionalizar a reflexão sobre (…) a forma que cada escola está correspondendo a essa exigência”.

O site –que não é o único espaço abastecido pelo colombiano com textos– dá uma ideia da cartilha pela qual ele reza.

No texto em que comentou a indicação de seu nome, intitulado “Um roteiro para o MEC”, Vélez prega a refundação do ministério para acabar com uma estrutura que teria sido posta para “desmontar valores tradicionais da nossa sociedade, (…) da família, da religião, da cidadania, em soma, do patriotismo”.

“Em outra postagem, ele diz que, “contra o globalismo politicamente correto que adotou a maluca proposta da ‘educação de gênero’, devemos nos erguer com persistência. Essa maluquice, esse crime contra as nossas famílias, não pode prosperar.”

“Escola sem partido. Esta é uma providência fundamental”, sentenciou.


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