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Ano VIII - Nº 367

Mundo

Estudantes marxistas, os novos inimigos do Governo chinês

50 estudantes foram presos em agosto. E desde então a pressão aumentou

Postado em 21 de Novembro de 2018 - Macarena Vidal Liy - El País

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Xiao Lan (nome fictício) começou a sentir curiosidade pelo marxismo como doutrina na escola, quando caiu em suas mãos o romance Germinal, de Émile Zola. O monumental relato da greve de mineiros na França do século XIX cativou sua imaginação e seu senso de justiça. Ao iniciar uma faculdade de ciências em uma das grandes universidades de Pequim, entrou na associação de estudantes marxistas, um dos grupos de atividades extracurriculares que podem ser encontrados em qualquer universidade na China.

Com o grupo, Lan estudou as obras originais de Marx, Lênin e Mao Tsé-Tung. Durante o curso, esses estudantes - muitas vezes sob o olhar zombeteiro de outros colegas, para os quais seu interesse na ideologia de Karl Marx era uma amostra de excentricidade um pouco ridícula - ajudaram os trabalhadores das lanchonetes universitárias a limpar mesas, tomaram conta de seus filhos e escutaram as histórias dos trabalhadores imigrantes da construção.

Quando comecei a ser consciente da situação dos trabalhadores me transformei em ativista. Sou filha de uma família de operários, mas até então não havia parado para pensar”, diz.

Lan agora vive tempos conturbados. Passou a semana olhando seu celular e lendo mensagens em suas redes sociais. No fim de semana passado, uma dúzia de jovens ativistas marxistas, como ela, foram presos em uma série de batidas nas principais cidades chinesas. De repente, os grupos de universitários “vermelhos” - minoritários, mas aumentando - se encontram na mira de um regime que se define, pelo menos no papel, como comunista.

Em um primeiro olhar, as posições dos estudantes e das autoridades deveriam estar perfeitamente alinhadas. O próprio presidente chinês, Xi Jinping, que recuperou alguns dos sinais de identidade do mandato de Mao - a fonte de legitimidade do sistema -, pediu um fortalecimento da educação ideológica nas escolas e universidades chinesas. O marxismo é uma matéria obrigatória aos estudantes do terceiro período.

Mas “o marxismo que [o Partido Comunista da China] ensina nas escolas não é o verdadeiro: é selecionado e interpretado para adaptá-los aos seus próprios fins”, diz Eric Fish, autor do livro China´s Millenials: The Want Generation.

E a contradição entre os ideais da doutrina original e a realidade é óbvia.

“O aumento da desigualdade e outras questões sociais na China levaram a uma decepção em certos setores em relação ao programa de ‘reforma e abertura’, e há uma percepção de que o Partido Comunista abandonou suas origens socialistas”, diz a pesquisadora Simone van Nieuwenhuizen, do Instituto de Relações Austrália-China na Universidade de Tecnologia de Sidney.

No caso dos jovens, o desencanto sobre a desigualdade e a corrupção se soma ao fato de que não possuem “o mesmo medo instintivo das autoridades das gerações anteriores”: não viveram a Revolução Cultural e não se lembram do massacre de Tiananmen, diz Fish.

Nesse ano, dezenas de estudantes vindos de todo o país viajaram a Huizhou, no sudeste do país, para solidarizar-se com os trabalhadores da Jasic Technology, que protestavam contra o que consideravam um “tratamento escravista” por parte da fabricante de máquinas para solda.

Na China, os protestos trabalhistas não são menos frequentes. Somente em 2018, a ONG China Labour Bulletin, com sede em Hong Kong, contabilizou mais de 900 greves por todo o país e em todos os tipos de setores, do táxi à mineração.

Mas que estudantes de universidades de elite viajem milhares de quilômetros para solidarizar-se com trabalhadores de uma fábrica se tornou algo muito mais raro desde que as manifestações de estudantes e trabalhadores de 1989 em Tiananmen acabaram dispersadas em sangue.

Pequim decidiu que tinha um problema. “A combinação do ativismo dos trabalhadores e dos estudantes é exatamente a fórmula utilizada pelo Partido Comunista para chegar ao poder. Portanto, em sua experiência, agora que está no poder não pode permitir que se repita”, diz o historiador independente Zhang Lifan.

50 estudantes foram presos em agosto. E desde então a pressão aumentou.

Já no mês passado a Universidade de Pequim anunciou mudanças em sua direção nesse sentido: o novo reitor era o secretário do Partido dentro da instituição; Qiu Shuiping foi nomeado como novo secretário, um funcionário que em seu currículo inclui ter sido o homem do Partido na delegação de Pequim do Ministério de Segurança Interna, os serviços secretos chineses.

Nessa semana, e após as últimas batidas, a Universidade de Pequim descreveu as atividades do “Grupo de Solidariedade aos Trabalhadores de Jasic” como “delitivas”, e alertou seus estudantes que “se ainda existem os que querem desafiar a lei, terão que lidar com as consequências”.

E tudo leva a crer que o controle continuará endurecendo. No próximo ano é o centenário do Movimento 4 de Maio, protestos liderados por estudantes da Universidade de Pequim que marcaram uma virada na história intelectual da China do século XX; e será o 30° aniversário do massacre de Tiananmen, datas em que o regime estará mais alerta do que nunca contra qualquer ação não ortodoxa.

“A ‘manutenção da estabilidade’ nas universidades está se transformando em uma prioridade cada vez maior, e (as batidas contra os estudantes marxistas) provavelmente só a aumentam. Mas em algum momento pode ser demasiado para que os estudantes a tolerem. A repressão sempre em crescimento às vezes pode criar o efeito oposto ao que se pretende”, diz Fish.

Xiao Lan afirma que o crescimento da pressão não a preocupa. “Não tenho medo. Podem tentar me obrigar, mas eu não irei renunciar”. E - cientista que é - cita o ditado atribuído a Galileu após a Inquisição o forçar a negar que a Terra girava em torno do Sol: “eppur’ si muove” (“e, entretanto, se move”).

Mais controle sobre a internet

A partir de 30 de novembro as já rígidas normas de controle sobre internet na segunda economia do mundo se endurecerão ainda mais. Todas as companhias tecnológicas e fornecedores de serviços on-line com “capacidade de mobilização social ou de gerar opinião pública” terão que facilitar às autoridades os dados pessoais e de atividade na internet de seus usuários, segundo uma nova diretiva da Administração do Ciberespacio da China.

A nova obrigação se aplicará a serviços tão variados como os blogs e microblogs, às plataformas de streaming de vídeo ou os aglomeradores de notícias.

As companhias terão que mostrar aos inspetores da Administração que registram a informação de seus usuários, incluídos seus nomes verdadeiros, o nome sob o qual está registrada a conta, o tempo de uso, o tipo de aparelho empregado e as conexões de chat.


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