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Quarta-Feira 21.ago.2019

Ano VII - Nº 359

Poder

Novo chanceler foi do anúncio para a frigideira

Amadorismo e delírios conspiratórios marcam primeiros passos da política externa de Bolsonaro

Postado em 16 de Novembro de 2018 - Josias de Souza (Blog do Josias), João Filho (The Intercept_Brasil) e Matias Spektor

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Jair Bolsonaro inovou. Criou uma via expressa ligando a escolha de um novo ministro à frigideira. O diplomata Ernesto Araújo migrou instantaneamente do anúncio de sua indicação como novo chanceler para o óleo quente. No início da madrugada desta quinta-feira, o jornalista Josias de Souza testemunhou num restaurante chique de Brasília um conciliábulo de destacados membros da Casa de Rio Branco. Dedicavam-se a organizar uma “resistência” ao que chamaram de “diplomacia do desastre”.

Convocado às pressas, o jantar reuniu oito diplomatas. Todos mais estrelados que o preferido de Bolsonaro. Na definição de um dos presentes, são “servidores sem partido.” Avaliaram que Bolsonaro chutou em gol ao escolher Ernesto Araújo. Marcou para os Estados Unidos. Tentaram enumerar vantagens e desvantagens.

De vantajoso, apenas o fato de que o novo chanceler brasileiro não será convidado a tirar os sapatos para uma revista no aeroporto de Washington, como fez Celso Lafer na era FHC. Imaginam que, para poupar a saliva dos agentes da imigração americana, Ernesto Araújo já ''pisará o solo americano descalço''. No mais, tudo seria desvantajoso.

Havia sobre a mesa um tablet, aberto no blog Metapolítica 17, abastecido com textos de Ernesto Araújo. Extraíram-se previamente dos posts do novo ministro das Relações Exteriores duas aparentes prioridades: “Ajudar o Brasil e o mundo a se livrarem da ideologia globalista” e erguer barricadas contra a “China maoísta que dominará o mundo”.

Além de “envergonhar” a inteligência do Itamaraty, as pretensões seriam “inexequíveis”. O nacionalismo antiglobalista não resistiria a um embate com o ultraliberalismo do Posto Ipiranga Paulo Guedes. Quanto à dominação maoísta, a impossibilidade de ressuscitar Mao Tsé-Tung e os valores que ele representava deixam a cruzada sem alvo.

A prioridade mais “preocupante” de Ernesto Araújo foi sublinhada num artigo escrito para a revista ‘Cadernos de Política Exterior’. Ali, o novo chanceler emite sinais de que não hesitaria em encostar a diplomacia brasileira no potencial que enxerga em Donald Trump para “salvar o Ocidente.” Não há “risco de dar certo”. Salva-se não o Ocidente, mas o projeto de transformar Bolsonaro ''numa versão periférica de Trump”.

O grupo chegou a um par de conclusões: Bolsonaro colocou no comando do Itamaraty não um chanceler, mas um espelho para refletir suas próprias idiossincrasias. De resto, haverá não um, mas dois chefes do Itamaraty: o oficial, em Brasília, e seu padrinho Olavo de Carvalho, que patrocinou sua indicação desde os Estados Unidos.

Consolidou-se no grupo a ideia de ampliar a “resistência” inaugurada de madrugada utilizando uma ferramenta muito apreciada por Bolsonaro: o WhatsApp. Deseja-se transferir Ernesto Araújo da frigideira para o micro-ondas. Se funcionar, o novo ministro chegará ao dia da posse, em 1º de janeiro, já bem passado. No limite, disse um dos presentes, “o Itamaraty de Bolsonaro vai virar não uma sucursal de Washington, mas do Vietnã.”

Três grupos disputam política externa

Está claro que há três grupos diferentes atuando com força na política externa da transição e com capacidade de influenciar as decisões do presidente depois da posse. 

Num desses grupos está Eduardo Bolsonaro com a assessoria internacional do PSL. Trata-se da vertente mais ambiciosa do novo governo: a esperança é promover uma ruptura com a política externa do passado, consolidando a imagem do presidente como liderança internacional de destaque. Para isso, esse grupo buscará espaço para Bolsonaro no movimento transnacional antiglobalista encabeçado por Donald Trump. A escolha do chanceler Ernesto Araújo ilustra a força dessa vertente.  

O segundo grupo inclui os militares vinculados ao vice-presidente e ao ministro do gabinete de Segurança Institucional. Os generais Mourão e Heleno terão peso próprio nos rumos da política externa. É uma visão da diplomacia que bebe da geopolítica e, seguindo termos próprios, não se confunde com as preferências do primeiro grupo. Aqui, o foco está em questões de segurança, fronteiras, indústria de defesa e o papel internacional das Forças Armadas, além de um diálogo cada vez mais intenso com os investidores estrangeiros sedentos por acesso às privatizações que se aproximam.

Por fim, está a equipe econômica comandada por Paulo Guedes. Para esse grupo, a área externa é central na batalha para desmantelar o Estado desenvolvimentista que alimenta grupos rentistas em detrimento da maioria desorganizada dos cidadãos. O objetivo dessa turma é utilizar as Relações Exteriores para limitar a capacidade que esses grupos hoje têm de capturar a política externa em benefício próprio. Por esse motivo, esse pessoal tentará realocar a política de comércio exterior no novo Ministério da Economia.

Esses três grupos concordam em muita coisa, inclusive na necessidade de mudar a condução da política externa brasileira. No entanto, eles possuem interesses e visões de mundo diferentes. A diplomacia do novo governo expressará tais conflitos e será objeto de disputas. 

Esse processo não ocorrerá num ambiente formalizado que permita ao presidente cotejar argumentos alternativos à luz de evidências e de embates explícitos. A regra do jogo é a informalidade.

Além disso, o papel de cada grupo não é fixo, mas variável no tempo e por área temática. Dependerá da entrega de vitórias e de imagem positiva para o presidente. Dependerá, acima de tudo, da capacidade que cada um deles terá de impor custos ao chefe, limitando seu espaço de manobra. 

Amadorismo e delírios conspiratórios

Quando Trump ligou para parabenizar Bolsonaro pela eleição, não havia nenhum integrante da campanha preparado para traduzir a conversa. O filho de um empresário amigo do presidente eleito foi escalado para a missão. A primeira conversa entre o presidente eleito e o presidente da economia mais forte do mundo foi intermediada por um youtuber de 24 anos. Parece uma cena de filme do Mazzaropi, mas é o jeitinho estabanado com que o bolsonarismo tem lidado com a política externa.

Bolsonaro mal foi eleito e já apresentou seu cartão de visitas para o mundo. E a primeira impressão não foi nada boa. Apesar do seu programa de governo prometer uma política externa “sem partido”, o que vimos até agora é ideologismo puro e simples. O capitão falastrão e seus comandados ainda não se deram conta de que não há mais espaço para retórica eleitoral e já colocaram o país em muitas saias justas mesmo antes de assumir o poder.

Como aquele tiozão do churrasco que não sabe de nada, mas tem uma opinião ruim para tudo, Bolsonaro e sua equipe causaram estragos nas relações com diversos países. Criticaram a China, o Mercosul, criaram atrito com os países árabes e ameaçaram sair do Acordo de Paris. “Mas ele tem voltado atrás de quase todas essas decisões, talquei?” Acontece que não é mais possível dizer e desdizer a todo momento como fez durante a campanha, mas Bolsonaro continua fazendo. No âmbito das relações internacionais, declarações têm efeitos imediatos e criam fatos políticos. Ficar apertando “Ctrl + Z” só reforça o quanto o novo governo desconhece questões básicas das relações exteriores.

Mesmo sabendo que diplomacia não é o forte da turma, ainda assim é espantoso ver o desdém com que tratam importantes parceiros comerciais, principalmente no momento em que a economia brasileira luta para sair do buraco.

Mercosul

“Mercosul, como foi feito, é totalmente ideológico. É uma prisão cognitiva. De novo: pergunta mal feita. (…) Mercosul não é prioridade. É isso o que você quer ouvir?” Foi assim, em tom agressivo, que Paulo Guedes tratou uma jornalista da Argentina, o país que é o nosso terceiro maior parceiro comercial e o principal destino de exportação dos nossos produtos manufaturados. Guedes disse ainda que o Mercosul é uma “prisão cognitiva“.

O bloco, criado durante o governo Collor, não é um convescote de países bolivarianos como parece crer Paulo Guedes. Apesar do bloco ter perdido o vigor nos últimos anos e precisar de reformas, ainda é importante para a economia brasileira. Como lembrou o economista Alexandre Andrada, nossa relação comercial com o Mercosul é bastante vantajosa e fundamental para a indústria automobilística internacional. Traz dinheiro e gera empregos. Talvez o nosso futuro ministro da Economia acredite que o Mercosul é uma espécie de Foro de São Paulo. Isso é o que eu chamo de “prisão cognitiva e ideológica”.

Embaixada em Israel

Em 2016, o católico Bolsonaro foi batizado pelo Pastor Everaldo no Rio Jordão em Israel. Ali o capitão começava a estreitar relações com o país e com evangélicos brasileiros. Seus filhos nutrem uma obsessão pelo exército israelense e costumam desfilar por aí com camisetas do Mossad — o serviço secreto mais temido do mundo.

Bolsonaro anunciou o plano de mudar a embaixada de Tel Aviv para Jerusalém. A decisão contraria a ONU — que considera ilegal a ocupação de Jerusalém por Israel — e reverte uma posição histórica de neutralidade do Brasil nos conflitos do Oriente Médio. Por afinidades ideológicas e motivos religiosos, Bolsonaro pretende alinhar o Brasil aos interesses do governo israelense, mesmo que para isso signifique comprar briga com importantes parceiros comerciais da região.

Se para o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, a decisão de Bolsonaro foi considerada “correta, histórica e emocionante”. Para os palestinos e os países árabes, soou como “provocação”. Os únicos países que peitaram a lei internacional e mudaram suas embaixadas para Jerusalém foram os EUA e a Guatemala. Acontece que o Brasil não é os EUA nem a Guatemala. O país mantém uma importantíssima relação comercial com os países da Liga Árabe. No ano passado, o superávit da balança comercial com esses países foi de US$ 7,1 bilhões para o Brasil, o que representa 10% do superávit da nossa balança comercial com o mundo. Nós somos hoje os maiores exportadores de carne halal, cuja produção atende normas específicas do islamismo. Os frigoríficos brasileiros se prepararam e investiram muito para atender esse mercado.

O Egito, nosso maior importador de carnes da Liga Árabe, repudiou as declarações de Bolsonaro ao cancelar a visita que o chanceler Aloysio Nunes faria ao país. A Liga Árabe enviou nota à embaixada brasileira no Cairo condenando as declarações de Bolsonaro. Após a repercussão internacional negativa, Bolsonaro tentou amenizar e disse a decisão ainda não foi tomada, mas o estrago já estava feito. Se o presidente eleito decidir de fato pela mudança da embaixada, muitos negócios brasileiros serão prejudicados e milhares de empregos podem ser perdidos.

Acordo de Paris

Delírios conspiracionistas parecem nortear a nova geopolítica brasileira. Assim como Trump, Bolsonaro contesta o incontestável aquecimento global e ameaçou retirar o Brasil do Acordo de Paris. Para ele, o país paga “um preço muito caro” para atender as exigências ambientais. Já se tornou comum ver Bolsonaro e seus filhos debochando do aquecimento global como se fosse uma teoria fabricada para atender interesses escusos, e não fruto de um consenso da comunidade científica internacional.

Em um vídeo gravado nos EUA, Eduardo Bolsonaro aparece em meio à neve defendendo o rompimento de Trump com o Acordo de Paris: “Que aquecimento global é esse? Existem fortíssimos indícios por trás do Acordo de Paris que querem fazer o quê? Eles não querem permitir que países desenvolvidos continuem a poluir, enquanto países sub poderiam continuar a poluir. Isso busca uma maior igualdade entre os países. Então, a população norte-americana seria punida por já ter se desenvolvido muito. Enfim, um conceito totalmente novo que não faz sentido. (…) É por isso que Trump saiu do Acordo, porque ele não é globalista”. Esse tipo de conspiração maluca, emergida das profundezas mais obscuras da internet, pode ser a nova cara da política internacional brasileira.

A ameaça de abandonar o acordo enfureceu Erik Solheim, chefe de meio ambiente da ONU: “A rejeição do Acordo de Paris é uma rejeição da ciência e do fato. É também uma promessa falsa, porque os políticos que apresentam a ação climática como um custo para a sociedade entenderam tudo errado.” Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima, uma das principais ONGs do mundo, afirmou que o rompimento com o Acordo do Paris pode trazer “sérios problemas para os interesses econômicos” e que o Brasil “passaria a ser visto como um problema para o mundo”.

A possível saída do acordo arranha a imagem do país e pode trazer problemas para a economia brasileira, principalmente nos negócios com países europeus. Não custa lembrar que nós não temos uma economia forte como a dos EUA para comprar essa briga com o resto do planeta. O presidente francês, por exemplo, defendeu na última Assembleia Geral da ONU, a exclusão de acordos comerciais com países que deixassem o Acordo de Paris.

Depois, como já virou hábito, Bolsonaro voltou atrás e garantiu que o Brasil continuará no acordo, mas continuou sendo dúbio ao dizer que é possível alcançar as metas ambientais sem precisar fazer parte de “acordo nenhum“.

China e os Brics

Durante a campanha, Bolsonaro pintou a China como um país predador que pretende dominar setores da economia brasileira. Não deixa de ser uma preocupação plausível, mas uma declaração dessas vinda do futuro presidente é assustadora. A China é o nosso principal parceiro comercial. Analistas em comércio exterior projetam um superávit de mais de US$ 25 bilhões a favor do Brasil em 2018. Os chineses lembraram o óbvio em editorial de um jornal estatal: “Se a opção do Brasil em 2019 for por seguir a linha de Donald Trump e romper acordos com Pequim, quem sofrerá será a economia brasileira”.

A patacoada com a China causou preocupação nos demais integrantes do Brics. Nelson de Sá relatou em sua coluna na Folha a repercussão na imprensa dos países do bloco: “Análises agressivas surgiram em sul-africanos e russos, chamando-o de ‘candidato da Manchúria, um político usado como boneco por outra potência’, os EUA, e até de ‘cavalo de Troia nos Brics’. A agência Tass ouviu especialistas brasileiros para arriscar que “Brasil vai reduzir sua participação nos Brics”.
Se cumprir todas as suas promessas no campo das relações exteriores, Bolsonaro causará grande instabilidade com mercados importantes, conflitos diplomáticos sérios e um enorme prejuízo aos brasileiros e à economia. É bastante provável que a maioria dessas loucuras não serão cometidas, mas o novo governo assumirá sob a desconfiança internacional.

Noruega

No último dia 12, o deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS), “ainda’ indicado para assumir a chefia da Casa Civil no Governo Bolsonaro, disse que não é possível uma entidade da Noruega vir ao Brasil para dizer o que o país deve fazer na área ambiental e indicou que, por trás do trabalho dessas ONGs há o interesse de receber parte dos recursos obtidos com multas ambientais aplicadas no Brasil.

IFrameO ministro da transição disse ainda que o próximo governo tem “preocupação” com o decreto assinado em 2017 pelo presidente Michel Temer que prevê a conversão das multas em serviços ambientais em troca de um desconto. Onyx afirmou que 40 por cento dos recursos arrecadados com multas iriam para ONGs nacionais e internacionais.

Na verdade, o infrator tem direito a um desconto na multa caso empenhe o recurso da infração em serviços ambientais, seja com execução própria do serviço ou através de cotas em projetos maiores. O governo realiza um chamamento público para esses projetos e ONGs nacionais e internacionais podem participar -ou seja, as ONGs receberiam para prestar um serviço.

Um repórter interveio para perguntar se o Brasil reduziria o percentual de conservação de suas matas para 10%. E Onyx, elevando o timbre: “Claro que não… Seria irresponsabilidade escrever isso ou falar isso. Nós vamos preservar o Brasil, mas com altivez. Não dá pra vir a ONG da Noruega ou da Holanda vir aqui dizer o que a gente tem que fazer, porque lá dá três palmos da linha da água, e eu vi, eles plantam tudo.”

Outro repórter recordou ao ministro que a Noruega socorreu o Ibama. Onyx irritou-se ainda mais. “E a legislação brasileira não vale nada? O que nós fizemos não vale nada? O que vale é a Noruega?” Foi nesse ponto que o ministro da transição engatou os ataques aos noruegueses, culminando com a declaração de que o Brasil tem muito a ensinar em matéria de preservação.

“Não dá para vir a ONG da Noruega ou lá da Holanda e vir aqui dizer o que a gente tem que fazer. Porque lá, tu dás três palmo da linha d’água, e —eu vi— eles plantam tudo”, afirmou.

A Noruega é o principal financiador do Fundo Amazônia, criado pelo governo brasileiro para financiar medidas de preservação da floresta.

O embaixador da Noruega no Brasil, Nils Martin Gunneng, usou as redes sociais para responder às críticas do ministro da transição, Onyx Lorenzoni, ao programa de proteção ambiental da Amazônia.

“A Noruega aprendeu muito a respeito de preservação ambiental com o Brasil, @onyxlorenzoni. São 10 anos de parceria entre nossos países. Os resultados pelo #Brasil#FundoAmazonia @bndes são impressionantes para o mundo. Temos orgulho por ter contribuído @onyxlorenzoni”, disse o embaixador em sua conta no Twitter, acrescentando ainda que “seria um prazer” receber o futuro ministro da Casa Civil na embaixada da Noruega em Brasília para discutir esse e outros programas de cooperação.

Até agora, os sinais enviados por Bolsonaro ao mundo é de sabujismo em relação aos EUA, o que contradiz o lema “Brasil acima de tudo” que marcou sua campanha. Parece que não foi à toa que ele bateu continência para a bandeira americana. Eleger como principal aliado um país que tem adotado políticas protecionistas não é um bom caminho a se tomar. Serve para aplacar os desejos do seu eleitorado ideológico, mas coloca a economia do país em uma posição arriscada na geopolítica internacional.

A imagem transmitida até aqui é de que nossa diplomacia será marcada por muito amadorismo e ideologismo tacanho. Resta saber quem será o ministro das Relações Exteriores. Eu só espero que não seja o youtuber que mediou a conversa com Trump.


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