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Ano VII - Nº 342

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Poder

Pessoas razoáveis já não têm espaço no Brasil, diz FHC

Para o ex-presidente, Bolsonaro não é fascista, mas um autoritário

Postado em 16 de Novembro de 2018 - Josias de Souza - Blog do Josias

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Em entrevista ao diário espanhol El Pais, Fernando Henrique Cardoso explicou sua decisão de permanecer neutro no segundo turno da eleição presidencial. Insinuou ter enxergado na frente democrática proposta pelo PT uma espécie de abraço de afogados. “O PT disse o tempo todo que o PSDB era um partido de direita, neoliberal, que estava vendendo o patrimônio nacional a custo de banana… a vida inteira. Quando as pessoas estão morrendo afogadas, pedem a mão para te puxar e morrer junto”, declarou.

Perguntou-se a FHC por que não embarcou na canoa petista de Fernando Haddad em nome da defesa da democracia. E ele: “Isso foi o que o PT disse, que o que estava em risco era a democracia. Se eu achasse que havia realmente esse risco, até entenderia.” Noutro trecho da conversa, acrescentou: “Não acho que a eleição do Bolsonaro ponha em perigo [a democracia], até porque ele ganhou pelo voto.”

O problema era menos o candidato do PT e mais o que estava por trás dele. “Eu tenho relações pessoais boas com o Haddad. Não é isso. É o que representa. Representa uma visão da economia e da sociedade que tampouco coincide com o que eu penso.” Quanto a Bolsonaro, FHC reiterou suas críticas. Mas não aderiu à tese petista segundo a qual o novo presidente cavalga um projeto de poder fascista.

“Eu disse (no Twitter) que havia um certo cheiro de fascismo. Porque o fascismo supõe uma doutrina, uma organização, uma visão autoritária da sociedade. Eu não creio que eles tenham isso. Eles têm expressões autoritárias. O fascismo é uma coisa mais orgânica e não acho que no Brasil tenha algum partido com uma doutrina propriamente fascista. E se tiver, eu espero que perca. Eu serei contra.”

Realista, FHC não supervaloriza o peso do seu apoio político. Ao contrário, admite que a opinião dos cardeais da política já não serve de bússula. “As pessoas estão tomando as decisões por conta própria, a palavra dos líderes vale pouco. Essa é a grande mudança que está ocorrendo na sociedade contemporânea. Agora,com o celular, cada um se comunica com o outro e forma sua opinião.''

FHC comparou Bolsonaro com uma folha ao vento: “A capacidade que a liderança tem de influir na opinião é pequena. Quando a liderança coincide com um sentimento que se espalha, aí parece que a liderança liderou. Não liderou, é uma onda que se forma. O Bolsonaro veio no âmbito de uma onda, como se fosse uma folha seca no ar que vai com o vento. Não é porque a folha existiu que houve o apoio a ele, foi uma reação contra o que está havendo no Brasil que, por acaso, pegaram A, B ou C.”

Embora mantenha o pé atrás em relação a Bolsonaro, FHC avalia que não se deve erguer barricadas antes que o novo governo comece a governar. “…Ele nem tomou posse. Deixa ele tomar posse, vamos ver o que ele vai fazer, se vai nomear gente boa… Governar é difícil. Quem nunca governou pensa que é fácil. Eu torço pelo Brasil dar certo. A mídia está levando o presidente eleito a dizer que ele respeita a Constituição. Isso é um mecanismo já de contenção, é importante. Para a política não importa o que ele pensa, importa o que ele vai fazer. As palavras só se transformam verdadeiramente em um risco quando elas viram ato.”

Instado a falar sobre o futuro do seu partido, FHC tratou o PSDB como uma superestrutura pendurada no ar: “O PSDB, como os demais partidos, estão flutuando e já não representam uma posição nítida, nem são expressão de uma camada nítida da sociedade, porque tem muita mobilidade social, muita fragmentação das novas profissões… A polarização esquerda-direita só é inteligível para quem tem uma certa intelectualidade, as pessoas querem coisas mais concretas.”

FHC arrematou: “O PSDB, como qualquer outro partido, vai ter que se adequar a esse novo momento da história. Se não se adequar, vai perder o controle das situações de poder. Eu sei que estou falando coisas vagas, mas eu não tenho como saber o que vai acontecer no futuro. No Brasil temos que procurar formas de expressão política que preservem a liberdade. As desigualdades sociais no país são imensas e elas desapareceram da discussão política. Os problemas de longo prazo sumiram da discussão. Tudo é: ‘eu gosto, não gosto, odeio, não odeio’. É um momento de exacerbação.”


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